A noite de carnaval em que conheci Soledad Barrett*
por Urariano Mota
Com o lead de André Cintra, editor-adjunto do Portal Vermelho:
Leia o primeiro capítulo de Soledad no Recife (2009), romance de Urariano Mota que reconstitui a breve – e trágica – passagem da paraguaia Soledad Barrett Viedma (1945–1973) pela capital pernambucana durante o regime militar brasileiro (1964–1985). Militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), Soledad foi delatada pelo próprio companheiro, o Cabo Anselmo (Daniel), e morta no Massacre da Chácara São Bento. Outros cinco integrantes do grupo também foram executados pela ditadura nessa chacina.
Eu a vi primeiro em uma noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Em um lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade troco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, alienado, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O Anjo Exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.
A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no Pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente, diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade. Mas a voz que ressoou foi a de Júlio, água gelada no torpor:
– Conspirando no Aroeira?
– A gente comentava Buñuel, respondo, com dificuldade na pronúncia de Buñuel.
– Esses intelectuais … Conhecem? Soledad, Daniel.
– Ah, prazer. Prazer.
E assentando-se em torno, Júlio derramou, descuidado:
– São revolucionários. Podem ficar à vontade.
Não sei se eu era o mais covarde, mas olhei para os lados, aflito pelo excesso de à vontade de Júlio em plena ditadura. Que percebeu, o meu temor.
– Que foi? Revolucionário é palavra da língua portuguesa. Nada mais normal.
– Sei, respondi, e mergulhei fundo na batida forte de Aroeira, a ponto de lacrimejar.
– Revolucionário é Glauber, revolucionário é Picasso, continuou Júlio.
– Sei.
– Está com medo?
Então falou Soledad. Havia nela mistura de acentos estranho e íntimo, de confortável materialidade, de terra-mãe:
– Todos temos medo, Júlio. Quem não tem?
– Certo. Mas não dá pra sentir pavor até mesmo da palavra re-vo-lu-cio-ná-rio.
O que ouvi então foi um corte rápido de assunto, na voz cálida de terra índia:
– É tão bonita esta praça! Eu passaria aqui o resto de minha vida. Que igreja linda, disse, apontando a Igreja de São Pedro.
– Certo. Mas temos tarefas mais práticas. Quem quer mudar o mundo não pode ficar admirando praças.
Assim falou Daniel, que estava mais próximo a ela. Em definitivo, eu não “topava”, não “topei” com ele. Não que ele fosse repugnante de feições. Mas o “topar” vinha de uma repugnância anterior. Havia nele algo de postiço, de pose. Sim, claro, digo isso agora. Mas o que eu soube então foi um mal-estar com a sua presença, um sentimento difuso que não se definia, pior, que não queria nem de longe definir. Ele se posicionava como se estivesse em uma hierarquia mais alta. Em um altar. E àquele tipo de santo não poderíamos jogar pedras. O revolucionário intrépido.
– Sim, mas deixamos de ver a beleza?, tornou Soledad.
– Há que destruir as praças. Esta é a beleza. Estamos em guerra, filhinha.
– Você é engenheiro? Ivan pergunta.
– Não … sou “artesão”. Entre outras coisas, faço tapetes. Entre outras artes.
– Eu queria beber algo, retornou Soledad, em voz que a partir de então jamais esqueci. Eu seria capaz de reinventar todas as bebidas expostas no Aroeira. E por isso como garçom e dono do lugar eu lhe disse:
– Ah, temos batida de limão, de cajá, de mangaba, de abacaxi, de manga, de maracujá, de goiaba, de graviola, de araçá, de pitanga…
– Pitanga? perguntou, divertida.
– Pitanga. É vermelha e saborosa… Você não é daqui?
– Sim, sim, perdão. Não sou. Venho da fronteira do Mato Grosso…
– E você, é daqui? interrompe Daniel.
– Ele podia se chamar Pernambuco, Ivan responde. Ele é revolucionário tendência Pernambuco.
Todos riram. Eu não me importei com a brincadeira, eu não me vexei, porque ela também sorriu. E por isso, para ser coerente com a zombaria, não esperei o garçom, fui ao balcão e de lá trouxe uma de nossas frutas, vermelhas, suculentas, com álcool. Que ela, para me pôr de volta a meu lugar – garçons são garçons, até mesmo em Pernambuco – declinou da oferenda e serviu primeiro a Daniel. E ao perceber a minha cara:
– Nesse aspecto particular, eu sou tradicional. Maridos e companheiros em primeiro lugar.
– Em que categoria você o enquadra? perguntei.
– Nos dois. Ele é meu marido e meu companheiro.
– Ah!
Uma nuvem escura passou sobre a mesa. Uma nuvem passou sobre o Pátio de São Pedro. Era de noite, eu sei e me lembro. Mas senti ali, no céu noturno, a luz fugir como se uma nuvem atravessasse a lua.
– Peça uma para mim também. Esta é boa, assim o santo do altar, Daniel, me ordenou. E por isso gritei:
– Garçom!
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Para não reproduzir com travessões os diálogos daquela noite, digo e falo do clima e atmosfera que me ficaram. No cômputo geral eu me embriaguei, fui do divertido ao lamentável, passando pelo ridículo e imprudente. Soledad cintilou mais de uma vez, e desconfio, para minha mágoa, que não só para mim. Houve um momento em que senti seus reflexos em Ivan, em que vi suas palavras suavizarem o áspero Júlio, em que senti até mesmo a escada que suas observações faziam para Daniel. Para que ele pudesse também brilhar, digamos assim.
Não quero, mas devo dizer. Daniel era um homem que tinha brilho próprio, com Soledad, sem Soledad ou contra Soledad. Mas com Soledad, naquela noite de uma sexta-feira de carnaval, no Pátio de São Pedro, ele se defrontava com um acúmulo de circunstâncias desfavoráveis à sua augusta presença. A platéia estava encantada por Soledad, pela simples e luminosa presença dela. Eu, Ivan, Júlio, o garçom, Aroeira, vizinhos à nossa mesa, estávamos todos absortos no brilho dos olhos, da doce face, lábios, voz quente de Soledad. Se ela dissesse, ora, se dissesse, se ela tossisse, se ela espirrasse, nós nos portaríamos como os aduladores que desejam os favores dos mais ricos, “mas como espirra bem”, ou “que tosse gentil”, diríamos, sem pejo e sem trauma. Por isso, com o seu instinto de fêmea, mas com o seu saber solidário, com a sua tradição de mulher destes trópicos, ela não queria ver seu companheiro em posição secundária. Por isso ela lhe fazia “deixas”, espaços para que ele assumisse a cena, como os coadjuvantes fazem para os astros em sketchs de comédia. E ele sorria, muito à vontade, como se jamais houvesse descido do Olimpo.
Uso agora a palavra descido, vejo o alto em que ele se encontrava, percebo o seu peito repleto, como se estivesse com peitilhos muitos e sobrepostos, noto os seus olhos sem luz, como se nos vissem por escuros buracos de máscara, e, forçoso é dizer, ele passa a lembrança do Homem da Meia-Noite do carnaval de Olinda. Mas não exatamente do boneco de 4 metros de altura, que vaga e dança entre a massa nas ladeiras da cidade ao som do frevo. Refiro-me à caricatura do boneco, à imitação que rapazes fazem do boneco, quando põem sapatos com saltos de 25 centímetros e se põem a evoluir na dança como se o Homem da Meia-Noite fossem, a rodopiar, a bater nos corpos suados de foliões bêbados, e se curvam como se saudassem o frevo, e de tal modo que 36 anos depois dessa noite de 1972, uma revelação nos disse: “O homem da meia-noite é gay”. Mas é claro, em vez do Daniel com estes olhos de 2008, então eu não o via como percebo agora as caricaturas do homem da meia-noite, mas ali estava um anúncio. Os clarins soavam. Pela pose na mesa, naquela noite, lembro dele como se estivesse com peitilhos, e eu não sabia nem entendia por quê. Eu não tinha este conhecimento repousado em experiência, e por isso eu o via como um personagem em primeiro plano, de primeiro plano, que uma estrela, com raios, destacava da caverna do Olimpo. Ele nos furtava Soledad, sentíamos. Ele nos roubava o seu brilho. Não sabíamos ainda em quantos significados ele nos roubava a luz, mas ele, já então, nos furtava a estrela com a violência de sua presença. Dizia-nos Soledad, para ele falando por meio de nós:
– De fato, eu tenho uma tendência romântica. Eu me encanto com a beleza das coisas sem utilidade. Mas belo mesmo é o tempo futuro, para todos nós.
– Mas não há beleza na batida de pitanga, no cheiro desta cerveja? Sentir esta beleza é imoral? pergunto.
Então Júlio, o desastrado e verdadeiro Júlio, sem se dar conta reforça a presença de Daniel.
– Belo mesmo é cerveja para todos, cerveja para todo o povo. Como pode ter beleza um privilégio? Se somente eu posso ter o gosto desta bebida, isto não pode ser belo.
Isso completou a escada para Daniel, porque Soledad respondeu:
– Sim, sim, uma arma pode ser muito bela. O que uma arma faz pode não ser muito belo, e olhou o companheiro, o que fez em mim correr um frio. Ele não se fez de rogado:
– Ninguém gosta mais de arte que eu. Entende? Eu sou um artista. Tanto por formação quanto por prática. A minha sensibilidade é artística. Mas isso é um luxo, companheiros. Nós não podemos nos dar a esse luxo. Há tarefas mais práticas, que exigem uma arte mais fria.
– Que arte, pode nos dizer? Ivan pergunta.
– A arte da guerra. A arte de juntar pessoas, de reunir homens que estejam dispostos para um fim.
– Para uma finalidade, você quer dizer, comentou Ivan.
– Sim, claro.
Eu não entendia nada de psicanálise. Eu então não gostava de psicanálise. Eu então odiava a psicanálise. Falava mal dela como um símio, como um gorila encarcerado em uma loja de cristais. Ah, um mundo de significados e anúncios de destino eu perdi com essa arrogante, estúpida, feroz e suicida ignorância. Pois as coisas que ali estavam postas, e o pensamento feroz não percebia, vêm, o que eu evitava retorna hoje com toda a carga. Eu não percebia, não PCBia, eu não queria perceber. Talvez porque a amasse. Talvez porque eu confundisse a revolução com a pessoa de Soledad. Como eu poderia prever o pássaro que canta no jasmineiro, agora, 36 anos depois?
A minha aversão por aquela imponência de Daniel eu misturava então com ciúme, ora, ciúme, o ciúme tem a posse, pelo menos deseja a posse, ainda que tenha a crucial dúvida da posse. A minha aversão por ele era o que todos sentimos diante de um obstáculo, deveria dizer, diante de um mais que injusto obstáculo. Ele não possuía, sentíamos, qualificação humana para aquela mulher. E, no entanto, a mulher era “dele”, e de um modo que nos enchia, não de revolta, porque nem para isso tínhamos o direito, mas nos enchia de aversão, contra ele. No entanto, percebam o patamar, baixíssimo patamar onde então nos encontrávamos: nem mesmo dessa aversão tínhamos consciência, porque então, a consciência era que devíamos ter. Um romance novo poderia nascer se eu grifasse esta frase: a consciência era a que devíamos ter. Mas devo seguir, como se não a houvesse escrito. Quero dizer, se não podíamos ter, se não devíamos, para nós era o mesmo que não ter disso consciência. Porque tê-la, naqueles anos, era menos um fenômeno psicológico que uma imposição ética. O que não deveria ser estava proibido, obscurecido, vedado. Condenado. O obscurecido era uma obscenidade. “No pasarás”, e descia sobre o pensamento um muro intransponível. Não sabíamos, ou não queríamos admitir desejos outros que também possuem a sua lei. Escrevi há pouco “vedado”, mas para as astúcias da consciência deveria escrever “velado”. Encoberto, e por isso não queríamos ter daquele indivíduo uma aversão. Poderiam nos perguntar, agora:
– Naquela hora, você queria ser ele?
Não, com absoluta certeza, não. Queríamos apenas ser nós mesmos ao lado e amparo daquela voz quente, saudável, solidária:
– Querido, mira, ele não se parece com aquele amigo?
– O poeta do imaginário? volta-se para ela Daniel, com um movimento duro de pescoço.
– Sim, sim, ela responde. E para mim: – É um poeta amigo, grande amigo. Sossegues.
Júlio, Ivan, como qualquer companhia de excluídos, não gostaram de que um dos doentes recebesse atenção da única mulher à mesa. E por isso Ivan “detonou”, fez subir o Ivan 2, como a partir de então descobri nele, o seu recurso de recurso de sobrevivência quando ameaçado. Vestiu a fantasia do Ivan palhaço.
– Você disse poeta imaginário? perguntou a Daniel.
– Não. Poeta do imaginário.
– Dá quase no mesmo, retornou. Este rapaz aqui – e o rapaz era eu -, pode não ser poeta, mas é um tremendo canastrão do imaginário.
– Sim? quis saber Soledad. Essa pergunta era o que Ivan queria.
– Sim-sim-sim-sim, muitos sins. Sins.
– Pecados, queres dizer? Soledad, para meu azar, perguntou.
– Pecados também…. Esse rapaz aqui, sem o menor escrúpulo, já arrancou lágrimas, lágrimas, a declamar um monólogo mais imbecil que os meus ouvidos já viram.
Eu poderia ter dito que ele vira com os ouvidos, porque era cego. E, portanto, que ao dizer ter visto algo com os ouvidos, isso era prova de que ele não passava de um grandessíssimo mentiroso. Mas essas boas respostas só nos ocorrem mais de 30 anos depois. Por isso ouvi, e também vi com os ouvidos, em recolhimento:
– Vocês querem coisa mais vigarista que o Dia das Mães? Pois esse rapaz não teve a menor vergonha de recitar na escola, no grande dia: “Mamãe, minha mamãezinha…”.
– Mas de lá pra cá eu mudei muito, consegui dizer.
– Sim, sim?
Talvez a minha cara tenha ajudado muito, porque os risos estouraram na mesa. Então eu “sorri”, divertido. E os risos estouraram mais alto. E por isso mais me encolhi, e disso não deve ter gostado Júlio, ao notar que Ivan assumia um lugar de satisfação para todos. Por isso deu a volta para um destaque no torneio:
– Você, Ivan, exagera muito.
– Eu? Você devia estar naquele dia, para ver “Minha mãe, minha mamãezinha”.
– Certo. Mas todos nós cometemos bobagens na infância.
– Não, ele já era homem, homem forte. Mamãezinha…
– Você mesmo nunca cometeu um ridículo? Você teria coragem de confessar um ridículo?
– Eu?! Claro. Sem dúvida. Mas jamais como um canastrão do imaginário.
O pior é que ele dizia essas coisas ásperas com um ar divertido. E porque era brincadeira, todos riam. Então eu me lembrei de linhas de um poema que havia lido em O Pasquim. E disse:
– Isso me recorda Fernando Pessoa: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Os meus conhecidos são campeões em tudo… Eu sou aquele que na hora do soco me abaixei”, não é?
Soledad ficou encantada:
– Muito verdadeiro. Parece um desabafo. Mas é poesia.
Entre nós – entre mim e ela – se estabeleceu uma corrente, que digo?, senti, devemos ter sentido uma zona de radiação, de imantação, algo como deve existir nos espaços curvos em torno dos imensos corpos. Lá no espaço escuro, mas repetido aqui nesta noite no Pátio de São Pedro. Correu por mim uma corrente, um fluxo, que pareceu me dizer “Toca-lhe o pescoço, toca-lhe as mãos, e haverá um incêndio”. Senti que se a tocasse eu lhe transmitiria um choque, uma doce e pequena descarga em corpo inflamável. Então me veio a tortura de um sentimento de atração e medo. Como se eu recebesse um irresistível chamamento para o abismo.
*Vermelho A noite de carnaval em que conheci Soledad Barrett – Vermelho
Urariano Mota – Escritor, jornalista. Autor de “A mais longa duração da juventude”, “O filho renegado de Deus” e “Soledad no Recife”. Também publicou o “Dicionário Amoroso do Recife”.