Apesar de infelizmente corriqueira, a longa e explícita má vontade de setores da imprensa empresarial com tudo o que diga respeito ao PT e a Lula não deixa de surpreender, dada a escala com que essas demonstrações de intolerância vêm ocorrendo neste terceiro mandato do presidente.
As recentes viagens feitas pelo presidente à Rússia e China, absolutamente estratégicas para os interesses do Brasil, foram exemplares dessa conduta por veículos de comunicação que deveriam zelar pela essencialidade da função do jornalismo nas sociedades democráticas. Fragmentos de notícias periféricas e até manipulações históricas serviram de substrato para desinformações e para a desqualificação da agenda de Lula naqueles países, com evidentes intenções de favorecimento à extrema direita.
As notícias que substantivamente importavam para o povo brasileiro foram atropeladas. Não que eventuais deslizes políticos não devam ser noticiados pela mídia. Sim, é legítimo. O ponto é a supremacia do uso político da fofoca e da irrelevância sobre o interesse público e o interesse nacional.
Comecemos pela passagem de Lula pela China. Pouco se falou ou escreveu acerca dos resultados do Fórum China/CELAC, extremamente construtivo para os interesses do desenvolvimento do Brasil e da América Latina. Disporemos de um fundo de 9.2 bilhões de dólares em crédito para o desenvolvimento. Recursos gigantescos serão aplicados em infraestrutura, agricultura, mineração, economia digital, programas de formação e até na parceria para o enfrentamento do crime organizado no Brasil e na região.
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Os investimentos chineses no Brasil, de 27 bilhões de reais, em fábricas de carros elétricos, energia limpa, mineração e outros, tiveram divulgação, mas discreta. E foram ignorados os passos decisivos para o êxito da estratégia brasileira de liderança mundial em energias renováveis. Com uma extensa participação de empresários na sua comitiva, Lula firmou acordos com o governo chinês para ampliar e qualificar as exportações brasileiras para o nosso principal parceiro comercial, com a maior participação de produtos de maior valor agregado. Muito se avançou, também, no compromisso da parceria da China no nosso desenvolvimento tecnológico, o que inclui a cooperação nos temas da transição energética e da transição climática, semicondutores, além da inteligência artificial.
Não, nada disso foi mais importante para setores da mídia do que a exploração exaustiva do caso Janja, divulgado a jornalistas brasileiros por um ‘fogo amigo’, membro do próprio governo. No exagero dos contornos da narrativa divulgada à exaustão, um episódio, quando muito, de impropriedade nos ritos institucionais, de baixa gravidade, foi tratado por parte da imprensa como causa de grave incidente diplomático entre Brasil e China! Deram pirulito para o bolsonarismo sepultar a regulação das redes sociais.
Na divulgação dada à agenda de Lula na Rússia, senti vergonha alheia ao assistir, por exemplo, a opinião expressa por jornalista de canal de TV fechado classificando a ida do presidente para prestigiar os eventos comemorativos do dia da vitória contra o nazismo e o fascismo como um ato de afronta política.
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Em atitude de sabujice ao ocidente asséptico, ignoraram que a União Soviética perdeu 27 milhões de pessoas na guerra pavorosa contra os nazistas. Talvez por ignorância, não tenham dimensão da importância do heroísmo do envolvimento da população civil na derrota alemã na Batalha de Stalingrado, decisiva para a vitória contra o nazismo. O talento mistificador de Nikolas Ferreira na divulgação do caso INSS teve mais repercussão do que os tratados feitos na Rússia na área de energia, que incluiu acordo fundamental em energia nuclear e na pesquisa e exploração de minerais críticos.
Enfim, o ranço ideológico ou o despreparo de parte da mídia privilegia a irrelevância e ignora o significado estratégico notadamente da parceria com a China para o futuro do Brasil e para o reposicionamento do país na geopolítica global.