‘Por que o suicídio é a maior causa de morte entre homens com até 45 anos, superando doenças e acidentes? O que podemos fazer para mudar esse cenário?’
JJ Bola

Trump colocou a Europa em uma situação dificílima, que vai da ameaça de retirar os Estados Unidos da Otan ao desejo de invadir e se apossar de território europeu — a Groenlândia, possessão da Dinamarca.

Fica evidente que um novo cenário está desenhado no tocante à segurança internacional.

Na América Latina, no Caribe e, em especial, no Brasil, historicamente sempre houve “alinhamento” (para usar palavra branda) entre as forças armadas estadunidenses e aquelas dos continentes sul-americano e caribenho.

Diante do novo contexto, qual é a doutrina da defesa nacional?
O silêncio dos militares brasileiros — que abocanham a parte do leão no orçamento nacional — é embaraçoso, para dizer o mínimo.

De fato, se olharmos as alocações previstas para 2025, veremos que as Forças Armadas deverão receber a bagatela de 95,9 bilhões de reais.

A título de comparação, a segurança pública — principal preocupação de eleitores e eleitoras — ficará com ínfimos 17,3 bilhões de reais.

Pior: os gastos previstos com habitação e saneamento equivalem à metade daqueles com relações exteriores.

Há algo errado no Reino da Dinamarca.
Por aqui, não estamos muito melhor…

Não que investir em relações exteriores seja um erro — ao contrário. Mas o fato de essa rubrica superar habitação e saneamento, em um país em que milhões habitam favelas, não pode estar certo.

Mais desolador: os gastos com a diplomacia poderiam ser revistos, com ganhos — e não perdas — para o serviço exterior brasileiro e toda a nação.

Um singelo exemplo: a fim de duplicar cargos para ministros de primeira classe da carreira de diplomata (que fazem questão de ser chamados de “embaixador”), na gestão de Fernando Henrique Cardoso foram criados consulados-gerais em capitais onde já havia embaixadas — e onde o atendimento consular era feito por setores consulares das mesmas.

A criação dos referidos consulados-gerais implicou novos — e inúteis — gastos com pessoal, locação de espaços e, last but not least, com os referidos cônsules e suas famílias, que passaram a ter direito a casa (de altíssimo padrão), empregados e veículos (de luxo), tudo na conta dos contribuintes.

Convém observar que essas repartições, não por acaso, estão localizadas em Washington, Londres, Paris, Roma, Madri, Lisboa, Bruxelas, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago etc.

Se o leitor identificou nesse eixo o famoso circuito Elisabeth Arden, não se enganou…

Para piorar, os consulados-gerais passaram a contar com um funcionário responsável pela gestão da residência consular — com gastos como aluguel, instalações e até aquela cortina que a esposa do cônsul não curtiu…

Desfazer esse engodo milionário — parte da herança maldita do PSDB — traria legitimidade à gestão orçamentária do Itamaraty.

Tendo lembrado acima do imortal Hamlet, príncipe da Dinamarca, aproveito para mencionar que, ao assistir ao premiado Sem Chão — documentário que ganhou o Oscar e foi dirigido por um palestino e um israelense — ocorreu-me o que antes não havia percebido: Shakespeare foi um revolucionário.

Explico-me: só durante a sessão de Sem Chão — que, para mim, é uma história de amor entre um judeu e um palestino (e entendam “amor” como quiserem) — foi que me dei conta do caráter revolucionário de Romeu e Julieta, obra em que o amor, mesmo em tempos de cólera (para parafrasear Gabriel García Márquez), impõe-se contra tudo e contra todos.

Nesse sentido, um excelente artigo do jornal francês Libération chama atenção para a possível intenção macabra de Benjamin Netanyahu de que os reféns retornem mortos — pois, dessa maneira, não poderão protagonizar cenas como a que assistimos, em que um deles beijou uma militante do Hamas.
No caso, a vida, mais uma vez, imitou a arte…

No excelente Por uma revolução africana (Editora Zahar), coletânea de textos políticos de Frantz Fanon, o professor Deivison Faustino, no prefácio à edição brasileira, cita o médico psiquiatra martinicano:

“Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser ‘não’ a qualquer tentativa de opressão do seu semelhante, sinto-me solidário com seu ato.”

Fanon, como o poeta inglês, vai na contramão dos consensos fáceis. Sobre imigração, por exemplo, diz:

“A ciência psicanalítica vê na expatriação um fenômeno doentio. No que ela tem razão.”

De fato, embora imigrar seja um direito, isso não anula o fato de que se trata de uma violência psíquica extrema — à qual se recorre apenas em última instância, quando todas as demais possibilidades estão esgotadas.

Fanon explica ainda:

“Na verdade, o racismo obedece a uma lógica infalível. Um país que vive, que tira sua substância da exploração de povos diferentes, inferioriza esses povos. O racismo a eles aplicado é normal… Ele é, como vimos, uma disposição inscrita num determinado sistema. E o racismo contra o judeu não é diferente do racismo contra o negro… Ora, vale repetir, todo grupo colonialista é racista… Esquecendo o racismo como consequência, combate-se encarniçadamente o racismo como causa.”

Portanto, superar o colonialismo, o racismo e o patriarcado não são causas que competem entre si, mas faces de uma mesma ideologia de dominação e morte — que pode e deve ser vencida, para o bem de todos, inclusive dos opressores.

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Last Update: 24/03/2025