Pequim concluiu, na última semana, as Duas Sessões, reuniões anuais e simultâneas do sistema legislativo nacional chinês: o Congresso Nacional do Povo e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. Replicadas nos cinco níveis de governo por seus respectivos órgãos, essas sessões marcam o encerramento e o início dos trabalhos legislativos do país.
No último dia 5 de março, o primeiro-ministro Li Qiang apresentou ao Congresso o relatório de trabalho do governo, destacando as metas econômicas e prioridades políticas para 2025. Com tom resoluto, o chefe de governo chinês reiterou o compromisso de buscar o progresso, garantindo a estabilidade, promovendo mudanças estruturais sem renunciar a princípios fundamentais.
O centro da exposição foi a definição dos rumos para o novo plano de gestão plurianual, o 15º Plano Quinquenal, previsto para ser lançado ainda este ano. Para 2025, o governo estabeleceu uma meta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente 5%. Para viabilizar esse objetivo, projeta-se um aumento do déficit fiscal para até 4% do PIB, um recorde histórico, visando estimular a demanda interna e enfrentar desafios econômicos. Além disso, o governo planeja criar mais de 12 milhões de novos empregos urbanos, buscando consolidar e expandir os níveis de empregabilidade no país.
O debate no Congresso girou em torno das estratégias para manter o padrão de desenvolvimento da China, peça-chave na trajetória do país rumo à modernização socialista. No cerne desse projeto está uma nova etapa do processo de reforma e abertura, iniciado em 1978 por Deng Xiaoping e fundamental para a transformação do sistema econômico chinês.
O modelo de socialismo de mercado com características chinesas surgiu como resposta à dinâmica geopolítica dos anos 1970, facilitando a regularização das relações diplomáticas da China e inaugurando uma nova era de cooperação internacional. Parte dessa evolução foi o entendimento bilateral entre China e Estados Unidos, consolidado nos Três Comunicados Conjuntos, um marco diplomático para as relações sino-americanas.
Nesse contexto de reconfiguração global, o desenvolvimento sustentável tornou-se uma prioridade estratégica. A China estabeleceu a meta de reduzir a intensidade energética em 2,5% em 2025, superando o objetivo de 2% do ano anterior. Esse compromisso reforça a intenção do país de acelerar a descarbonização e cumprir as metas climáticas estipuladas no 14º Plano Quinquenal (2021-2025).
As tensões geopolíticas vêm remodelando o relacionamento sino-americano, intensificando a disputa tecnológica. Durante as Duas Sessões, o governo chinês enfatizou a necessidade de avançar rumo à autossuficiência tecnológica, especialmente em setores estratégicos como inteligência artificial, veículos elétricos conectados, novos materiais, energia de hidrogênio, biofabricação e aeroespacial comercial.
A inovação continua sendo uma prioridade central. Em 2024, o orçamento para ciência e tecnologia teve um aumento de 10%, totalizando 370,8 bilhões de yuans (51,6 bilhões de dólares), correspondentes a 2,74% do PIB.
Entre os protagonistas dessa revolução tecnológica está a empresa DeepSeek, que ganhou notoriedade recentemente. Em 17 de fevereiro de 2025, o presidente Xi Jinping presidiu um fórum de alto nível sobre o desenvolvimento de empresas privadas, o segundo evento do tipo desde 2018. O encontro reuniu representantes das principais empresas inovadoras da China, como Huawei, BYD, New Hope Group, Unitree Robotics, Will Semiconductors, Xiaomi, QAX Technology Group, Alibaba, Tencent e a própria DeepSeek.
Destaque especial foi dado aos empreendedores de software, muitos deles oriundos de Hangzhou, capital da província de Zhejiang e hoje um dos principais centros de inovação do país. A cidade divide os holofotes com Shenzhen, berço tradicional das gigantes tecnológicas chinesas.
Nos últimos anos, o modelo de inovação de Hangzhou tem sido amplamente elogiado por incentivar o crescimento de startups tecnológicas conhecidas como os “Seis Pequenos Dragões” (杭州六小龙). Além disso, Hangzhou desempenha papel crucial na implementação da política de Prosperidade Comum, estratégia central do Partido Comunista da China para impulsionar inovação e equidade econômica.
Em Hangzhou, líderes de grandes empresas de alta tecnologia, como Ren Zhengfei (Huawei), Wang Chuanfu (BYD), Wang Xingxing (Unitree Robotics) e Lei Jun (Xiaomi), tiveram a oportunidade de discutir o futuro da regulação de novos setores econômicos. O encontro reafirmou a ênfase do governo de Xi Jinping no desenvolvimento de tecnologias avançadas como um dos pilares do crescimento chinês.
Esse movimento está alinhado à estratégia de dupla circulação, introduzida no 14º Plano Quinquenal. Esse conceito busca fortalecer tanto o mercado interno quanto a integração global da economia chinesa, reduzindo vulnerabilidades externas e consolidando a autossuficiência tecnológica.
O avanço tecnológico da China, inclusive em setores dominados por outras potências, sugere que o destaque recente da DeepSeek não é um evento isolado. Há indícios de que o país pode estar preparando a replicação do modelo de incubação de Hangzhou para outras cidades e províncias.
A generalização de modelos de governança econômica não é novidade na China. Experiências anteriores, como a implementação das Zonas Econômicas Especiais, demonstraram a capacidade do governo chinês de testar e expandir políticas bem-sucedidas. Agora, o mesmo ocorre com tecnologias de ponta, reforçando a liderança do país na corrida tecnológica global.
A ampliação do modelo de Hangzhou pode impulsionar softwares inovadores, robótica humanoide e serviços de alto valor agregado, consolidando a China como referência em tecnologia avançada. Espera-se que essa estratégia seja detalhada no 15º Plano Quinquenal (2026-2030), cuja publicação está prevista para outubro de 2025.
Pode-se concluir que a China caminha para um giro estratégico em 2026, ampliando os avanços da política China 2025. Resta observar a dimensão revolucionária desse processo e seu potencial de transformação global. Pelos sinais dados nas Duas Sessões, o futuro da inovação chinesa passa, inevitavelmente, por Hangzhou.