Colunista de CartaCapital, o diplomata aposentado ­Milton Rondó ganhou projeção nacional em março de 2016, após enviar a representações diplomáticas no exterior circulares que denunciavam o golpe contra a então presidente Dilma Rousseff. Exatos nove anos depois, ele fala publicamente pela primeira vez sobre os episódios que levaram à sua suspensão no Itamaraty, onde chefiava o Departamento de Combate à Fome, analisa a postura do órgão no governo Michel Temer e explica por que pediu demissão assim que a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 foi confirmada.

CartaCapital: Muitos consideraram seu gesto um “suicídio profissional” e outros tantos o saudaram como um herói da resistência. Como o senhor revê, hoje, os acontecimentos que levaram à sua saída do Itamaraty?
Milton Rondó: Eu não tinha falado nesses nove anos porque havia um processo correndo. Foram três circulares. Na primeira, eu tinha solicitado que as embaixadas nomeassem um diplomata para diá­logo com a sociedade civil. É importante dizer que o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que era secretário-geral, me convidou para criar uma unidade nova no Itamaraty que se ocupasse de segurança alimentar, porque nós tínhamos Fome Zero, pesca artesanal, reforma agrária, agricultura familiar, enfim, uma série de temas de diálogo com a sociedade civil todos novos para o Itamaraty.

A segunda circular era da Abong, que colocava a sua impressão sobre o que estava acontecendo no Brasil, o que era muito importante, porque naquele momento a mídia ouvia praticamente um só lado. A terceira circular era uma manifestação de uma ONG argentina, e eu instruí a embaixada em Buenos Aires para que entrasse em contato com essa organização que queria remeter suas impressões a Brasília. Era só isso, não tinha o caráter que depois surgiu na imprensa, fomentado por alguns embaixadores conservadores que estavam de acordo com o golpe, com um impeachment sem legalidade, pois Dilma não tinha cometido nenhum crime previsto na Constituição. Houve pressão sobre o Itamaraty para que retirasse as circulares e me processasse.

CC: O Itamaraty poderia ter sido mais corajoso na denúncia do golpe?
MR: Nesse caso, claramente não se pretendia que outra visão do que estava acontecendo no Brasil fosse conhecida, nem a ilegalidade que estava sendo cometida, pois o artigo da Constituição que prevê os casos em que pode haver processo de ­impeachment não fala de pedalada fiscal. Os setores dentro do Itamaraty que estavam pela ilegalidade pressionaram a cúpula para que outras visões não fossem difundidas. O que se fez foi impedir a democracia de funcionar. A democracia tem seus meios de defesa. Se permitirmos a ela acionar esses mecanismos, ela consegue se defender.

CC: Apesar da narrativa imposta na época, muitos estudos acadêmicos hoje corroboram a tese de que Dilma foi mesmo vítima de um golpe…
MR: Os golpes no Brasil têm participação muito ativa da chamada “grande imprensa”. Em 1954, a população empastelou um jornal porque reconheceu seu papel na tentativa de golpe que levou ao suicídio de Getúlio Vargas. Durante a ditadura (1964–1985), outro jornal transportou com suas caminhonetes presos políticos para serem torturados e mortos. E hoje se arvoram a chamar Nicolás Maduro de ditador. São praticamente oito famílias que controlam mais de 70% dos veículos de comunicação no Brasil, em uma relação promíscua com o capital financeiro. É um monopólio de visão única. Se você ler as manchetes todos os dias, são variações sobre o mesmo tema, um Bolero de Ravel.

CC: O senhor pediu para se aposentar do Itamaraty após a vitória de Bolsonaro. Como avalia o desempenho da diplomacia brasileira no período de seu governo?
MR: Eu tive muita sorte, entrei muito jovem no Instituto Rio Branco. Completei os 35 anos de serviço em 2018. Bolsonaro ganhou no domingo e, no dia seguinte, eu pedi a aposentadoria. Dava para ver o que viria pela frente, e não tive dúvida. Fiquei muito contente de ter feito isso, acho que algum princípio ético a gente tem de ter no serviço ao povo. Eu saí também no segundo governo FHC, de tão emocionante que era a política externa, para trabalhar no governo de Olívio Dutra no Rio Grande do Sul. E também me retirei no governo Collor, quando fui para um organismo internacional. Tudo tem limite na vida, você não pode representar qualquer coisa.

CC: Como o senhor avalia a política externa no tempo em que atuou?
MR: Política externa independente é uma redundância, ou determinado país tem política externa e ela é independente, ou ele não tem. No segundo governo FHC, o Brasil fazia o que patrão lá do Norte mandava. Nos governos Temer e Bolsonaro, idem. Se há alinhamento automático à política externa de outro ­país, então você não tem política externa. O governo Bolsonaro foi um período muito difícil e triste, porque a extrema-direita é isso, é uma ideologia vassala. A eleição do presidente Lula foi fundamental. Não estamos no céu, mas já saímos do inferno.

CC: Com os EUA fora do Acordo de Paris, ser anfitrião da COP–30 pode tornar-se uma armadilha para o Brasil?
MR: Vale para a COP–30 o que vale para o resto do sistema das Nações Unidas. O impacto da saída dos EUA da Organização Mundial da Saúde, do Conselho de Direitos Humanos etc. será enorme. Se olharmos o orçamento regular dessas instituições, Washington coloca em torno de 25%. Temos que analisar a conjuntura internacional de uma forma ampla, e a COP é parte disso. Os reflexos do governo Trump se darão sobre todo o debilitadíssimo sistema da ONU.

CC: Sem anistia?
MR: Claro. Nós anistiamos aqueles torturadores todos, e olha o que eles fizeram: deram outro golpe em 2016 e estavam preparando outro pior ainda no 8 de Janeiro. Não pode haver anistia, não tem como. Imagine se explodisse aquele caminhão-tanque no aeroporto de Brasília, o que seria? Se o Brasil não aprendeu com a bobagem que fez de anistiar os torturadores… Fazer uma bobagem uma vez é uma coisa, repetir já é demais. •

Publicado na edição n° 1354 de CartaCapital, em 26 de março de 2025.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Diplomata indomável’

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Last Update: 20/03/2025