Por Conceição Lemes

20 de fevereiro de 1989. Perto de completar 28 anos, o médico brasileiro Miguel Nicolelis desembarca no aeroporto JFK, em Nova York, EUA, em meio a um frio congelante, tempestade de neve e greve dos transportes coletivos.

Na bagagem, um plano: seguir a carreira de cientista profissional.

Sonho desde os 7 ou 8 anos de idade, quando o quintal da tia Ligia, em Moema, São Paulo, transformava-se em laboratório para estudar, por exemplo, formigueiros e plantas crescendo em vasos de plástico transparentes.

Nicolelis pega um táxi para chegar à Filadelfia, Pensilvânia, onde iria morar nos cinco anos seguintes. O professor John Chapin, do Departamento de Fisiologia e Biofísica na Universidade Hahnemann, o aguarda.

‘’Teve início aí a maior aventura de nossas vidas’’, emociona-se.

De 1989 a 1994, faz pós-doutorado no laboratório de Chapin.

Em setembro de 1994, começa a dar aula na Faculdade de Medicina da Universidade Duke, Carolina do Norte, onde passa a ter o próprio laboratório.

A colaboração entre Chapin e Nicolelis se estreita. E a amizade também.

Em julho de 1999, publicam na revista Nature Neuroscience artigo histórico, no qual descrevem experimentos em que ratos aprenderam a usar apenas a atividade elétrica do próprio córtex cerebral para controlar os movimentos de um braço robótico.

Este foi o primeiro estudo científico a demonstrar que sinais elétricos gerados por populações de neurônios motores corticais, obtidos em ratos despertos, podiam ser registrados e convertidos em tempo real em comandos para controlar os movimentos de um braço robótico.

Em 2000, em artigo na revista Nature, Miguel Nicolelis reproduziu esses resultados em macacos pela primeira vez.

Em 18 de janeiro de 2001, em outro artigo na Nature, Nicolelis batiza essa nova abordagem fisiológica como interface cérebro-máquina, dando início a um novo campo da ciência.

‘’Quando penso que nossos modestos estudos com ratos no laboratório do Chapin nos permitiram 15 anos depois proporcionar a um jovem paralisado [do meio do peito para baixo] um novo modo de andar apenas com o seu próprio pensamento, só posso dizer que tudo valeu a pena’’, reflete.

20 de fevereiro de 2025. Na quinta-feira retrasada, fez exatos 36 anos que o professor e neurocientista Miguel Nicolelis está nos Estados Unidos.

Em julho de 2021, após lecionar por 27 anos na Universidade Duke, Nicolelis recebe o título de professor emérito do Departamento de Neurobiologia da Faculdade de Medicina.

Tem 229 artigos científicos publicados, a maioria em revistas internacionais, como Nature, Science, Scientific Reports, PLO ONE.

Seus trabalhos somam 40.721 citações.

Já conquistou 76 honrarias e títulos.

Primeiro cientista a receber no mesmo ano (2010) dois prêmios dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos Estados Unidos: Pioneer e Transformative Research Project Award.

Primeiro brasileiro a ter artigo que foi capa da revista Science.

Em 2010, foi eleito membro das academias Francesa de Ciências e Brasileira de Ciências.

No mesmo ano, foi nomeado membro da Academia de Ciências do Vaticano, Itália, mas não tomou posse.

Palestrante do Simpósio Nobel de 2011 3M: Mente, Máquinas e Moléculas, realizado em Estocolmo, Suécia. Pela primeira vez, um neurocientista brasileiro esteve entre os conferencistas convidados.

Concebeu o primeiro exoesqueleto (roupa robótica) de membros inferiores controlado por uma interface cérebro-máquina.

Construído e testado pela equipe do Projeto Andar de Novo, esse exoesqueleto foi usado na Copa do Mundo de 2014.

Desde 2016, Nicolelis e seu grupo já publicaram quatro trabalhos científicos (papers, no jargão acadêmico) comprovando que interface cérebro-máquina funciona para paraplégicos.

Atualmente, está redigindo um quinto paper que mostrará os resultados da pesquisa que desenvolve em colaboração com Hospital XuanWu, que pertence à Capital Medical University, em Pequim. O XuanWu é um dos maiores centros especializados em cérebro da China.

‘’Os resultados são impressionantes. Tem coisa ali que nunca ninguém imaginou nem viu’’, empolga-se Nicolelis.

Coincidentemente, na quinta-feira retrasada, também fez um mês que Nicolelis foi à China, para receber dois prêmios:

  • Título de professor doutor honoris causa de da Capital Medical University, em 22 de janeiro.
  • Prêmio Amizade do Governo Chinês (Chinese Government Friendship Award), em 25 de janeiro.

Prêmio Amizade é mais alta honraria conferida a especialistas e cientistas estrangeiros. Foi instituída em 1955 pelo então primeiro-ministro Zhou Enlai.

Na entrevista que me concedeu, o professor Nicolelis fala sobre cada um dos prêmios recebidos na China, suas pesquisas lá, a emoção nas cerimônias, o papo de quase uma hora com o primeiro-ministro e ministro de Relações Exteriores, a troca de tênis por sapato no Grande Salão do Povo.

Viomundo – Como foi receber na mesma semana dois prêmios da China?

Miguel Nicolelis – De fato, uma semana inusitada na minha vida, principalmente pensando que sou brasileiro, estou há 36 anos nos Estados Unidos, recebi muitos prêmios lá e aqui, no Brasil. Mas eu nunca recebi algo dessa magnitude, até porque é recente o meu trabalho de colaboração científica na China. Então, foi mesmo algo inusitado. Só comparado à minha eleição para a Academia Francesa de Ciências.

Viomundo – A entrega do título de doutor honoris causa da Capital Medical University foi quarta-feira, 22 de janeiro. Você é o único estrangeiro no meio de uma plateia de chineses sorridentes, alegres…

Miguel Nicolelis –  A foto (abaixo) foi tirada após o Dr. Zhao Guoguang, presidente do Hospital XuanWu, me entregar o título. É ele também que está sentado à minha esquerda na plateia.

À esquerda, Nicolelis após receber o título de professor doutor honoris causa da Capital Medical University. A honraria lhe foi entregue pelo Dr. Zhao Guoguang (à sua esquerda), presidente do Hospital XuanWu. À direita, imagem do título. Fotos: Arquivo pessoal

Viomundo – E o clima de festa?

Miguel Nicolelis – Naquele dia, o Hospital estava fazendo a sua tradicional celebração do Ano Novo Chinês. A cerimônia acontece antes da data oficial do Ano Novo Chinês, que neste ano caiu em 28 de janeiro. Daí a alegria do pessoal.

Todos os funcionários participam: cantam, dançam, interpretam.

O hospital inteiro estava na plateia, tinha umas 2 mil pessoas.

Viomundo – O título foi entregue antes ou após o show dos funcionários?

Miguel Nicolelis – Antes. Foi o primeiro item da cerimônia do ano novo chinês do Hospital XuanWu.

A pedido do Dr. Zhao Guoguang, subi ao palco e falei por 2 minutos.

A plateia inteira aplaudiu de pé, nunca passei por nada igual.

Onde eu passava, as pessoas me cumprimentavam e eu não sabia quem eram… Acho que foi um acontecimento para elas também.

Foi realmente muito emocionante receber o título de professor honoris causa de uma grande universidade de Pequim.

Eu tenho um único título de Honoris Causa no Brasil, da UFRN, nem da universidade onde eu me formei tenho tal título.

Viomundo – O Hospital XuanWu pertence à Capital Medical University, como aqui o Hospital das Clínicas é da Faculdade de Medicina da USP?

Miguel Nicolelis – Exatamente. E o meu trabalho de colaboração científica na China é com Hospital XuanWu.

Viomundo – Como começou essa colaboração científica?

Miguel Nicolelis – Em 2014, como você deve se lembrar, o Projeto Andar de Novo realizou uma pesquisa com paraplégicos usando exoesqueleto (roupa robótica).

Oito voluntários participaram. Em 12 de junho de 2014, Juliano Pinto, representando os demais, deu o chute inicial da Copa do Mundo, no Itaquerão, em São Paulo, demonstrando a viabilidade da veste robótica pelo cérebro humano.

A partir de 2016, nós começamos a publicar os primeiros resultados clínicos do Projeto Andar de Novo na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Pela primeira vez, pacientes que tinham lesão medular há 10 ou 13 anos estavam recuperando parcialmente movimentos, sensibilidade tátil, funcionamento visceral. Esse trabalho repercutiu no mundo inteiro.

No final de 2018, uma equipe de profissionais do Hospital XuanWu veio ao Brasil fazer um treinamento com os clínicos da equipe do Projeto Andar de Novo.

Perceberam que era algo totalmente inusitado e decidiram implantar na China o protocolo desenvolvido pelo Projeto Andar de Novo e aplicado na Copa do Mundo.

Só que a pandemia de covid-19 explodiu e eles tiveram reduzir a velocidade do projeto.

Viomundo – Por que a China quis tanto fazer essas pesquisas lá também?

Miguel Nicolelis – A China tem um número muito grande de pacientes com doenças neurológicas.

O Hospital XuanWu montou um laboratório espetacular para realizar o projeto.

Nós conseguimos concluir o projeto no início de 2024. Aí, passei 2024 inteirinho analisando 40 terabytes de dados.

Viomundo — 40 terabytes?!

Miguel Nicolelis – Exatamente. Antes, nunca tínhamos tido condições de coletar quantidade tão absurda de dados. Isso só foi possível porque o Hospital XuanWu tem os melhores equipamentos do mundo para avaliar o cérebro.

Pela primeira vez, nós pudemos fazer uma variedade imensa de exames de imagem do cérebro, para saber o que está acontecendo com os pacientes e por que se recuperam.

Viomundo – O que os dados revelaram?

Miguel Nicolelis – Não só ratificaram, reproduziram, os resultados que obtivemos no Brasil e já foram publicados, mas também ampliaram de modo significativo os achados.

Viomundo – Por quê?

Miguel Nicolelis — Justamente porque a gente pode fazer toda sorte de investigação de imagem do cérebro que antes era impossível.

Os resultados são impressionantes. Tem coisa ali que nunca ninguém imaginou ou viu. Foi um choque para todos nós que estamos envolvidos na pesquisa.

Viomundo – Qual a explicação?

Miguel Nicolelis – Agora, tenho uma hipótese muito concreta do que realmente as interfaces cerébro-máquinas combinadas com realidade virtual e locomoção robótica fazem no cérebro.

Viomundo – Qual a hipótese?

Miguel Nicolelis – Por enquanto não posso adiantar mais nada (risos). Vai estar tudo no paper que estou escrevendo com a ajuda de uma equipe da China.

A viagem à China também serviu para eu coletar as informações finais.

A propósito, eu montei laboratórios nos Estados Unidos, no Brasil; no meu sabático, na Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça.

Eu nunca vi o grau de apoio e determinação de longo prazo que tenho tido na China.

Viomundo – O Prêmio Amizade do Governo Chinês tem relação com a pesquisa que desenvolve com o Hospital XuanWu?

Miguel Nicolelis — Foi a razão. Meu nome foi indicado para o prêmio por causa da implementação do Projeto Andar de Novo no Hospital XuanWu e dos resultados que obtivemos.

As instituições chinesas que têm colaboração de estrangeiros nomeiam você para o prêmio. E o governo federal chinês escolhe os ganhadores.

O Prêmio Amizade é um prêmio tradicional para homenagear estrangeiros que tenham ajudado no desenvolvimento da China.

Medalha e diploma recebidos por Nicolelis pelo Prêmio Amizade do Governo Chinês

Viomundo — Em que consiste o Prêmio Amizade?

Miguel Nicolelis – Entrega de um diploma e de uma medalha. Desta vez foram 14 premiados. Um a um foi sendo chamado para subir ao palco e receber a medalha.

O prêmio foi entregue pela ministra de Recursos Humanos e Segurança Social da China, Wang Xiaoping (na imagem, abaixo).

No palco, depois que recebi a medalha, a pessoa do cerimonial leu uma frase em chinês, que um intérprete traduziu para o inglês.

Dizia mais ou menos o seguinte:

“Em nome do povo chinês agradecemos ao professor Doutor Professor Miguel Nicolelis pela sua contribuição inestimável à melhoria da qualidade de vida do povo chinês …”

Impressionante, você está num país estranho, que faz poucos anos que trabalho, eu nunca ouvi nada igual no Brasil.

No Brasil, fizemos paraplégico andar, construímos campus de neurociência no Rio Grande do Norte, trabalhei por um ano pró-bono no Comitê do Nordeste recebendo ameaça de morte.

Pois eu nunca recebi nenhum muito obrigado do governo. Nem dos que apoiei, como você bem sabe, nem dos que combati. Nada, nunca.

E, de repente, estou num país que está se transformando na grande superpotência do século 21 — não tem mais dúvida disso — e ouço uma saudação dessas, foi dureza segurar o negócio.

Viomundo — Chorou?!

Miguel Nicolelis – Chorar não chorei, mas marejar, marejou… A sorte é que eu não tive que falar nada na hora, porque se tivesse que falar, eu não sei…

Foi algo único, evidentemente fiquei muito honrado, mas muito emocionado também.

Viomundo — De Moema para Pequim! Haja coração, hein!

Miguel Nicolelis – Só coração de palmeirense para aguentar tanta emoção (rsr).

Viomundo – No domingo, 26 de janeiro, dia seguinte à premiação, o governo da China ofereceu um banquete aos premiados no Grande Salão do Povo (Great Hall People) (veja OS). Algum dia você se imaginou aí?

Miguel Nicolelis – Eu já tinha visto em filmes, passado na frente, conhecia a Cidade Proibida, porque anos atrás fui visitar. Agora, de repente, eu lá dentro daquele monumental prédio…

Um filme passou um filme na minha mente: ”Eu jogando bola com a molecada na rua Chanés, 295, casa 8, em Moema, e agora, de repente, no Grande Salão do Povo, em Pequim”.

Quem poderia imaginar essa história naquela época? Ninguém iria acreditar.

Viomundo – Conte como foi o banquete.

Miguel Nicolelis – Antes, um lance engraçado. Como pode ver nas fotos do Grande Salão do Povo (ao final), há uma escada na área externa que conduz ao interior do monumental edifício.

Antecipadamente, o pessoal da organização do jantar avisou que havia chance de nevar naquela noite e era para tomarmos cuidado ao subir os degraus de pedra. Com gelo, você pode escorregar.

Na cerimônia de entrega do Prêmio Amizade, eu havia usado um sapato novo. Mas como tem sola muito lisa, fiquei com receio de tomar um tombo.

Então, coloquei meu terno marrom, com gravata, e fui com o tênis novo, cinza claro.

Na hora de entrar no espaço do simpósio que teve antes do banquete, o cerimonial me barrou:

— Não pode entrar com tênis, não!

— Então, vou ter que entrar de meia porque não tenho sapato aqui — disse.

— Não se preocupe, nós temos sapatos aqui, de reserva, para quem não veio com o sapato correto.

O cerimonial deu-me um par, que coloquei na entrada da sala do banquete. Um dos melhores que já usei na minha vida.

Gostei tanto que até perguntei se poderia levá-lo para casa.

— Não, infelizmente não dá –, disse, sorrindo, a atenciosa funcionária do cerimonial.

Viomundo – E na hora do banquete?

Miguel Nicolelis – Existia uma mesa central destinada às autoridades do governo e alguns convidados e mais umas 10 mesas satélites.

Acostumado com o tratamento que recebo no Brasil, logo pensei: “Bom, neurocientista, vou procurar meu lugar lá na mesa do fundo do salão”.

Aí, fiquei zanzando, não achava meu nome. Felizmente, uma senhora do cerimonial veio me socorrer:

— Não, não, não, o senhor vai se sentar ao lado do primeiro-ministro, lá na mesa central.

— Não, não é possível?!—reagi.

Viomundo — Algum engano?!

Miguel Nicolelis – Pensei, sim, nessa possibilidade. Mas, de pronto, a senhora do cerimonial frisou o que já havia dito. E, de fato, lá na mesa central estava o meu nome, em chinês (imagem abaixo).

O nome do professor Miguel Nicolelis em chinês

Quando anunciaram o lugar em que eu me sentaria no banquete, todo mundo começou a olhar pra mim sem entender o que um neurocientista estava fazendo entre o primeiro-ministro da China, Li Qiang, e o ministro das Relações Exteriores, Wang Yi.

Um à esquerda, outro, à direita. Eu, no meio dos dois, na posição de convidado de honra da China.

Viomundo – Qual a critério para tal escolha?

Miguel Nicolelis — Não tenho a menor ideia, só sei que me colocaram ao lado dos caras. Bateram um papo comigo por quase uma quase hora. Me senti quase um diplomata (rsr).

O ministro das Relações Exteriores, Wang Yi, e o primeiro-ministro, Li Qiang, da conversaram com Miguel Nicolelis por quase uma hora. ”Muito impressionante o nível de toda a conversa, não foi lero-lero”, diz o professor

Viomundo – Sobre o que conversaram?

Miguel Nicolelis – Eles me perguntaram o que acho do futuro da neurociência, das interfaces cérebro-máquina, como estava o Brasil…

Alguém deve falado ao primeiro-ministro sobre a minha carreira, pois, de saída, ele me perguntou se as interfaces cérebro-máquina invasivas ou não as não invasivas iriam triunfar. Uma pergunta altamente técnica, eu fiquei até meio abobado.

Viomundo – O que respondeu?

Miguel Nicolelis – A longo prazo para doenças, para pacientes, acho que a interface cérebro-máquina não invasiva vai triunfar, porque a maioria dos pacientes só precisa disso. E é barata, segura, eficiente e tem escala. Você pode fazer para milhões.

Quando falei que a neurotecnologia, uma área da neurociência, vai ser muito mais importante do que a dita Inteligência Artificial, pois existem no mundo 3,4 bilhões de pessoas com doenças neurológicas — mais 43% da humanidade –, ele pediu ao tradutor para escrever-lhe isso.

Na hora, pensei comigo: “Meo, no lugar onde eu nasci nenhum dos caras me dá ouvido, aqui eu estou falando com o primeiro-ministro e ele claramente presta atenção”.

O nível de toda a conversa foi muito impressionante, não foi lero-lero.

Viomundo — E momento amenidades?

Miguel Nicolelis – Também teve. O primeiro-ministro falou que o time de futebol da China não estava muito bem. “Se precisar, eu aceito ajudar, porque futebol é comigo mesmo”, me prontifiquei.

O ministro de Relações Exteriores falou do churrasco brasileiro, quando veio ao Brasil…

Enfim, da rua Chanés, em Moema, para o Grande Salão do Povo. Se meu pai visse esse negócio todo, ele não ia acreditar.

Viomundo – Nesses dias em Pequim algo em especial te impactou?

Miguel Nicolelis — Eu senti quanto o povo chinês valoriza o conhecimento, a ciência e os cientistas são bem tratados, não importa de onde sejam.

Ficou muito claro pelas falas dos funcionários, do governo e dos meus amigos, que a ciência tem uma posição estratégica no plano de construção nacional.

Os cientistas são considerados pessoas notáveis no processo de 50 anos de construção da nação.

Tanto as famílias quanto a sociedade têm um respeito muito profundo pelos cientistas por eles.

O cientista é quase um herói nacional.

A população sabe que o Prêmio Amizade é para homenagear os estrangeiros que tenham ajudado no desenvolvimento da China.

Para você ter uma ideia, no dia do banquete, dois ônibus nos levaram do hotel até o Grande Salão do Povo.

Em todo o trajeto, os ônibus foram escoltados pela polícia de Pequim. Os faróis sincronizados no verde, para que não parassem em nenhum ponto.

E da calçada as pessoas acenando pra nós. Então, foi uma coisa de louco. Nunca vi isso na vida.

Viomundo – No Brasil, há dois prêmios relacionados à área científica. Um deles é a Ordem Nacional de Mérito Científico, concedido pelo CNPq, e o outro é Medalha Oswaldo Cruz, outorgado pelo governo federal. Professor, você já recebeu algum deles?

Miguel Nicolelis — Nenhum dos dois.

Viomundo – Como explica ser premiado na China e aqui, eles ignorarem?

Miguel Nicolelis — Conceição, sinceramente, eu não tenho ideia.

O Grande Salão do Povo, em Pequim, é onde acontecem as atividades legislativas e cerimoniais do governo da República Popular da China, como o Congresso Nacional do Povo e o Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês. Foi inaugurado no 10º aniversário da República Popular da China, em setembro de 1959. A decisão de construí-lo foi tomada em agosto de 1958. Zhou Enlai, então primeiro-ministro, acreditava que o projeto final deveria transmitir a mensagem de que “o povo é o mestre do país”. O Grande Salão do Povo foi projetado para simbolizar a unidade nacional e a igualdade étnica da nação. O edifício tem 171.801 metros quadrados de área útil.

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Last Update: 27/02/2025