A Petrobras divulgou na última quarta-feira 26 seus resultados operacionais e financeiros referentes ao quarto trimestre (4T24) e ao exercício consolidado de 2024. Na esteira das incertezas e volatilidade do mercado global, a Petrobras anunciou um lucro líquido de 36,6 bilhões de reais no ano de 2024, resultado 70,6% inferior ao registrado em 2023 (124,6 bilhões) e fortemente impactado por “itens não recorrentes” na performance financeira da companhia. Ainda assim, a remuneração de acionistas alcançará 75,8 bilhões de reais, o terceiro maior montante distribuído na história da companhia.
Quatro fatores principais influenciaram negativamente o desempenho da Petrobras em 2024:
- A volatilidade e as incertezas no mercado global de óleo e gás;
- A deterioração do desempenho operacional na produção e no refino;
- Condições comerciais do mercado doméstico brasileiro;
- Impactos contábeis de itens não recorrentes.
No cenário internacional, a Petrobras enfrentou uma queda de 2,3% na cotação do petróleo Brent e uma retração de 59% nas margens internacionais do segmento de refino em relação a 2023. No plano operacional, a elevação de 33,7% nas despesas operacionais, aliada à redução na produção de óleo e gás (-3,0%) e na de derivados (-0,6%), comprometeu a capacidade de oferta e a geração de receita da estatal. A produção no pré-sal manteve-se praticamente estável, com leve alta de 0,4%.
No mercado doméstico, a companhia registrou quedas nas vendas de derivados (-1,4%) e de gás natural (-4,1%), reflexo da menor demanda, especialmente de diesel (-2,8%) e gasolina (-4,1%). Como cerca de 70% das receitas da Petrobras vêm do mercado interno, essa retração afetou significativamente os números da empresa. Além disso, o volume total de exportações caiu 1,0%.
Diante desse panorama, a receita total de vendas da Petrobras em 2024 foi de 490,8 bilhões de reais, queda de 4,1% ante 2023. No mercado interno, a receita caiu 6,5%, de 381,3 bilhões de reais para 356,4 bilhões. Já no mercado externo, houve um aumento de 2,9%: de 130,6 bilhões para 134,4 bilhões, apesar da redução no volume vendido.
Impacto dos “itens não recorrentes”
Os “itens não recorrentes” tiveram um peso significativo nos resultados da companhia, impactando o lucro líquido em 95,7 bilhões de reais. Sem esses efeitos, o lucro líquido ajustado teria sido de 103,3 bilhões de reais.
Os principais “itens não recorrentes” contabilizados foram:
- Desvalorização cambial: A desvalorização de 29,7% do real frente ao dólar gerou um impacto de 46,7 bilhões de reais, decorrente da variação no endividamento da Petrobras junto a suas subsidiárias no exterior.
- Impairment de ativos: Reavaliação do valor recuperável de ativos, resultando em baixa contábil de 15,7 bilhões de reais.
- Acordo judicial: Pagamento de 11,9 bilhões de reais à União relacionado a contingências tributárias no 2T24.
- Baixas contábeis: O “desmantelamento de áreas” resultou em perdas contábeis de 15,7 bilhões de reais.
Geração de caixa e investimentos
Apesar do cenário desafiador, a Petrobras manteve uma forte geração de caixa. O fluxo de caixa operacional em 2024 foi de 204 bilhões de reais, queda de 5,4% em relação a 2023 (215,7 bilhões), mas suficiente para viabilizar um aumento de 31,2% nos investimentos, que passaram de 63,2 bilhões de reais para 89,6 bilhões. Desse total, 83,7% foram destinados a “exploração e produção” (E&P) e 10,8% ao “refino, transporte e comercialização”. Apenas 100 milhões de dólares (2,6% do total) foram aplicados em gás e energias de baixo carbono, focados na ampliação da oferta de produtos de menor emissão, como diesel renovável (R5), asfalto CAP Pro, gasolina Podium carbono neutro e bunker com conteúdo renovável (24% de biodiesel).
Distribuição de dividendos e geração de valor
A Petrobras anunciou a distribuição de 9,1 bilhões de reais em dividendos no 4T24 (R$ 0,70954522 por ação ordinária e preferencial). Com isso, a remuneração total dos acionistas em 2024 somará 75,8 bilhões de reais, entre dividendos ordinários e extraordinários, juros sobre capital próprio (JCP) e recompra de ações. Esse valor é o terceiro maior da história da estatal, superando os 71,5 bilhões de reais pagos em 2023 e representando 2,06 vezes o lucro líquido do ano.
Do total distribuído, 36,6% (27,7 bilhões de reais) foram destinados ao grupo de controle (União e BNDES), enquanto investidores privados estrangeiros receberam 47,3% (36,2 bilhões de reais) e investidores privados brasileiros, 15,23% (6,5 bilhões de reais).
No que se refere à geração de valor em 2024, a Petrobras distribuiu 379,4 bilhões de reais da seguinte forma:
- Tributos (federais, estaduais e municipais): 190,2 bilhões (50,1%).
- Instituições financeiras e fornecedores: 107,5 bilhões (28,3%), pagos em juros, variações cambiais e monetárias, aluguéis e arrendamentos.
- Remuneração de acionistas: 37 bilhões (9,8%), incluindo dividendos, JCP e lucros retidos.
- Trabalhadores: 44,6 bilhões (apenas 11,8%), pagos em salários, benefícios, PLR e outras formas de remuneração variável.
Perspectivas
Os resultados da Petrobras em 2024 mantêm-se alinhados aos de grandes petrolíferas globais, refletindo solidez operacional e financeira. A companhia busca recuperar sua capacidade de investimento e consolidar-se como uma empresa de energia integrada, atenta a desafios estratégicos como segurança energética, abastecimento nacional e transição para fontes de baixo carbono.
Contudo, o foco permanece em exploração e produção (E&P), especialmente na reposição de reservas e desenvolvimento de novas fronteiras exploratórias, como a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas. O pré-sal já responde por 80% da produção total de óleo e gás da companhia e por 70% da carga processada em seu parque de refino.
A transição energética e a diversificação para novas rotas tecnológicas seguem condicionadas a parâmetros de rentabilidade de curto prazo, o que favorece a robusta remuneração de acionistas, mas limita estratégias de investimento a longo prazo.