O presidente Lula discursou, nesta quarta-feira (26/2), na sessão especial de abertura da Primeira Reunião de Sherpas da Presidência Brasileira do Brics. O evento ocorreu no Palácio do Itamaraty. Participaram representantes dos países-membros e embaixadores de nações parceiras.
Os temas prioritários do Brasil na presidência do Brics estão divididos em seis eixos principais: cooperação em saúde global, mudanças climáticas, comércio, investimentos e finanças, governança da inteligência artificial e desenvolvimento institucional do bloco.
Os sherpas são enviados especiais encarregados de conduzir os debates até a reunião dos líderes do Brics, prevista para 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro.
Logo no início do discurso, Lula saudou os países-membros e antecipou que o governo brasileiro vai trabalhar em prol do diálogo, da diversidade e da construção de um mundo multipolar.
“Propomos seis eixos principais. Primeiro: a reforma da arquitetura multilateral de paz e segurança é inadiável. O recurso ao unilateralismo solapa a ordem internacional. Quem aposta no caos e na imprevisibilidade se afasta dos compromissos coletivos que a humanidade precisa urgentemente assumir”, afirmou o petista.
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“Negociar com base na lei do mais forte é um atalho perigoso para a instabilidade e para a guerra”, prosseguiu, antes de defender o multilateralismo como “o único caminho que devemos trilhar”.
Cooperação em saúde global
Lula classificou a cooperação em saúde como “uma das maiores urgências do Sul Global” ao recordar os estragos produzidos pela covid-19. À frente do Brics, o Brasil pretende lançar parcerias visando a eliminação de doenças socialmente determinadas e doenças tropicais negligenciadas.
O presidente argumentou em favor do fortalecimento da arquitetura global de saúde, para que haja distribuição equitativa de medicamentos aos países.
“A ausência de acordo em torno do tratado sobre pandemias, mesmo após o covid-19 e a pandemia Mpox, atesta a falta de coesão da comunidade internacional diante de graves ameaças”, apontou o presidente. “Sabotar os trabalhos da Organização Mundial da Saúde é um erro com graves consequências”, acrescentou.
Desdolarização da economia global
Sobre o processo de desdolarização da economia global, Lula elogiou o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), mais conhecido como “Banco do Brics”, e lamentou que os acordos de Bretton Woods, firmados em 1944, tenham falhado em melhorar a qualidade de vida das populações do Sul Global.
“Baseado no princípio da igualdade de voto e do financiamento alinhado às prioridades nacionais, o Novo Banco de Desenvolvimento completa 10 anos de sucesso, com mais de US$ 33 bilhões investidos em projetos de desenvolvimento sustentável no Sul Global”, exaltou o presidente.
O petista disse ainda que “a presidência brasileira está comprometida com o desenvolvimento de plataformas de pagamento completamente voluntárias, acessíveis, transparentes e seguras”.
“Aumentar as opções de pagamento significa reduzir vulnerabilidades e custos”, resumiu Lula.
Transição ecológica
O aquecimento global está no centro das preocupações dos países em desenvolvimento, os mais atingidos pelas crises climáticas. Com o acordo de Paris sob risco, o presidente alertou para os prejuízos econômicos e sociais resultantes do negacionismo próprio de líderes da extrema direita ideológica.
“O planeta acumula recordes de temperaturas e de concentração de gases de efeito estufa. A omissão custa caro e não poupará ninguém. Enchentes, secas e incêndios drenaram mais de US$ 2 trilhões da economia global na última década, além das milhares de vidas humanas tragicamente perdidas nesses desastres”, contabilizou.
Soberania digital
O discurso de Lula aos membros do Brics abordou também as questões éticas em torno do uso da inteligência artificial. Como se sabe, o avanço do sectarismo no mundo se dá com o apoio das chamadas big techs, vanguardistas no desenvolvimento da tecnologia. O presidente rechaçou a ingerência dessas grandes companhias nos assuntos internos dos países.
“Qualquer tentativa de desenvolvimento econômico hoje passa pela inteligência artificial. Não podemos permitir que a distribuição desigual dessa tecnologia deixe o Sul Global à margem. O interesse público e soberania digital devem prevalecer sobre a ganância corporativa”, pregou.
Maturidade do Brics
O último eixo proposto pela a presidência brasileira versa sobre o avanço institucional do Brics. Criado em 2009 por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o bloco conta, atualmente, com 11 membros permanentes, além dos fundadores, depois de ingressarem Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
Lula concluiu o discurso falando da necessidade de se ampliar a institucionalidade do bloco: “Embora a rápida ampliação do agrupamento nos últimos dois anos ateste nosso valor estratégico e seja extremamente positiva, temos o desafio de tornar a coordenação mais eficaz e mais ágil”.
“É preciso focar em métodos de trabalho que confiram mais eficiência às decisões e garantam que nossas ações tenham maior impacto global possível”, pontuou o presidente.