Nestas terça (25) e quarta-feiras (26), Brasília sedia a primeira reunião de sherpas (enviados especiais) do BRICS sob a presidência brasileira. O encontro, liderado pelo embaixador Mauricio Lyrio, prepara o terreno para a Cúpula de Líderes em julho no Rio de Janeiro. Com a presença de representantes dos 11 países-membros e nove nações parceiras, o evento debate temas como cooperação em saúde, comércio em moedas locais e governança de inteligência artificial.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, abriu a reunião destacando a necessidade de uma nova governança global que reflita o mundo multipolar emergente. Em discurso no Itamaraty, Vieira enfatizou que o bloco tem papel crucial na promoção de uma ordem internacional mais justa, inclusiva e sustentável.
O chanceler destacou em seu discurso de abertura: “O BRICS deve promover uma ordem mundial mais justa, inclusiva e sustentável. Um mundo multipolar é um objetivo compartilhado”. Por sua vez, Lyrio resumiu: “O BRICS não é contra o Ocidente, mas a favor de um mundo multipolar”.
“O BRICS incorpora as aspirações do Sul Global. Nosso papel na formação do futuro nunca foi tão significativo. A recente expansão do grupo de cinco para onze membros reforça essa relevência e nos posiciona como força influente na reconfiguração da ordem internacional”, afirmou o chanceler brasileiro.
Reforma da governança global e multipolaridade
Vieira argumentou que as instituições de governança global, como o Conselho de Segurança da ONU e o Fundo Monetário Internacional (FMI), precisam se adaptar às transformações geopolíticas e econômicas. Segundo ele, o BRICS deve liderar o movimento por uma reforma ampla e abrangente dessas instituições, garantindo maior representação para os países emergentes.
Com a adesão recente de Arábia Saudita, Egito, Etiópia e outros, o BRICS representa agora 49% da população mundial, 39% do PIB global e 50% da produção energética planetária. Para o Itamaraty, a expansão simboliza “um Sul Global que não é mais espectador, mas arquiteto da ordem internacional”. O bloco pressiona por assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU e defende mecanismos financeiros alternativos, como o Novo Banco de Desenvolvimento, que já financiou US$ 33 bilhões em projetos de infraestrutura.
“As necessidades humanitárias crescem, mas a resposta internacional segue fragmentada e, por vezes, insuficiente. Se quisermos enfrentar esses desafios, precisamos de uma arquitetura de segurança global que reflita as realidades contemporâneas”, defendeu.
Em discurso, Vieira criticou a “desglobalização” marcada por protecionismo e cadeias de suprimentos fragmentadas. “O BRICS deve resistir a essa tendência e defender um comércio multilateral aberto”, afirmou. O grupo também mira a reforma do sistema financeiro internacional, visto como defasado para lidar com dívidas de nações emergentes. Propostas incluem ampliar empréstimos em moedas locais e reduzir o domínio do FMI, cujas decisões ainda refletem a geopolítica do pós-Guerra Fria.
Inteligência artificial: regulação multilateral
A governança da inteligência artificial (IA) também foi apontada como prioridade da presidência brasileira do BRICS. Vieira alertou para os riscos de uma agenda dominada por poucos países e defendeu um modelo de regulação global mais inclusivo e transparente.
“A IA não pode ser ditada por um pequeno grupo de atores, enquanto o resto do mundo é forçado a se adaptar a regras que não ajudou a formular. Devemos garantir um desenvolvimento de IA ético e alinhado aos interesses coletivos da humanidade”, afirmou.
Justiça climática e desenvolvimento sustentável
Um dos pontos críticos é a demanda por financiamento climático. Vieira criticou a falta de financiamento para a adaptação e mitigação dos impactos climáticos nos países do Sul Global e defendeu medidas concretas para garantir transição justa para economias de baixo carbono.
“Países em desenvolvimento arcam com custos de uma crise que não causaram”, destacou Vieira, lembrando que o Sul Global sofre com eventos extremos, apesar de contribuir pouco para emissões históricas.
A presidência brasileira propõe que acordos internacionais garantam recursos para transição energética sem sacrificar metas de desenvolvimento. Paralelamente, o bloco quer impulsionar o comércio interno, hoje abaixo do potencial: apenas 20% do comércio dos membros ocorre entre si.
Comércio entre os BRICS e moedas locais
Vieira ressaltou a necessidade de ampliar o comércio entre os países do BRICS, explorando mecanismos de facilitação do comércio e expandindo o uso de moedas locais nas transações.
“O fortalecimento do comércio entre nossos países é essencial para garantir maior autonomia econômica e reduzir dependência de sistemas financeiros dominados por poucos atores”, destacou.
Prioridades da presidência brasileira
A presidência brasileira do BRICS elencou seis temas prioritários para 2025:
- Cooperação Global em Saúde: Garantir acesso equitativo a medicamentos e fortalecer sistemas públicos.
- Comércio e Finanças: Ampliar uso de moedas locais e reduzir dependência do dólar.
- Mudanças Climáticas: Exigir financiamento para adaptação no Sul Global.
- Governança de IA: Evitar que tecnologia amplie desigualdades e defender ética multilateral.
- Reforma Multilateral: Redesenhar instituições como ONU e FMI.
- Desenvolvimento Institucional: Consolidar o bloco após expansão histórica.
A reunião de sherpas termina nesta quarta (26) com expectativa de avanços em áreas consensuais, como saúde e energia. Porém, temas espinhosos – como a governança de IA e a pressão por reformas na ONU – exigirão negociações complexas. Analistas apontam que o sucesso da presidência brasileira dependerá de equilibrar demandas díspares entre membros tradicionais (como China e Rússia) e novos ingressos (como Arábia Saudita). Enquanto isso, a sombra de tensões geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e rivalidades EUA-China, testará a coesão do bloco.
A primeira reunião dos sherpas do BRICS continua até quarta-feira (26), com a participação de delegações dos 11 países-membros do bloco e de embaixadores de nações parceiras. O encontro serve como preparatório para a Cúpula de Líderes do BRICS, prevista para os dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro.