“O voto não tem preço, o voto tem consequência”, afirma Nelson Campos sobre o segundo turno

Professor analisa o resultado do primeiro turno, a mobilização da juventude e os riscos que atribui à candidatura de Flávio Bolsonaro para a soberania nacional e os direitos sociais

A mobilização de estudantes e apoiadores do Presidente Lula ganhou destaque nas ruas brasileiras após o primeiro turno das eleições, em meio à disputa sobre os rumos econômicos e políticos do país. A participação da juventude, a defesa da soberania nacional e as perspectivas para o segundo turno foram os temas centrais do programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 13 de outubro.

Em entrevista ao apresentador Luiz Regadas, o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), analisou o cenário eleitoral e criticou o avanço da extrema direita. Ao longo da conversa, o educador relacionou a mobilização estudantil à memória da resistência à ditadura militar e alertou para o que considera riscos de enfraquecimento das instituições democráticas, privatização de empresas estatais e perda de autonomia do Brasil diante dos Estados Unidos.

Ao discutir o comportamento do eleitorado e a responsabilidade dos cidadãos na escolha de seus representantes, Campos sintetizou sua avaliação em uma frase que marcou a entrevista: “O voto não tem preço, o voto tem consequência”.

A juventude volta às ruas

Para Nelson Campos, a presença de estudantes nas manifestações representa um sinal relevante da mobilização política no segundo turno. O professor comparou o momento atual à sua própria experiência de participação em protestos durante a ditadura militar, quando ainda era jovem e enfrentava os riscos associados à contestação do regime.

“Eu participei de manifestações estudantis nessa época com muita satisfação. Nunca me arrependi disso”, afirmou.

O educador explicou que, naquele período, a participação política significava colocar a própria segurança em risco. Ainda assim, considerava necessário agir de acordo com sua consciência diante da repressão. Ao recordar prisões, torturas, exílios e mortes provocados pela ditadura, criticou as tentativas de negar ou minimizar os crimes cometidos pelo regime militar.

“Se todas as pessoas tivessem medo da ditadura, ainda hoje teríamos ditadura”, declarou.

Campos também contestou a narrativa de que o golpe de 1964 teria sido uma intervenção destinada a proteger o país do comunismo. Para ele, a construção de um inimigo político imaginário é utilizada por setores autoritários para justificar medidas repressivas e estimular a adesão a lideranças que se apresentam como defensoras da ordem.

Na avaliação do professor, a juventude que ocupa as ruas atualmente precisa compreender que a disputa eleitoral envolve decisões sobre o futuro da educação, do trabalho e das políticas públicas, além da própria preservação das liberdades democráticas.

Soberania brasileira em disputa

A relação entre Brasil e Estados Unidos foi um dos eixos centrais da entrevista. Campos criticou a atuação do governo de Donald Trump e afirmou que setores da extrema direita brasileira defendem uma política externa subordinada aos interesses norte-americanos.

O professor relacionou essa discussão à exploração de recursos naturais estratégicos, como terras raras, petróleo e minerais críticos. Segundo ele, a entrega desses recursos a interesses estrangeiros, sem uma política nacional de industrialização e desenvolvimento tecnológico, comprometeria a capacidade brasileira de gerar riqueza e ampliar sua autonomia econômica.

Ao tratar do assunto, Campos afirmou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro representaria, em sua avaliação, um risco à soberania nacional. O educador também criticou a possibilidade de privatização de empresas estatais, incluindo a Petrobras, e interpretou essas propostas como parte de um projeto de transferência do patrimônio público para interesses privados.

“Bem, aí como você pode perceber, o plano do governo é entregar todas as riquezas pertencentes ao povo brasileiro”, declarou ao comentar as propostas que atribuiu ao candidato.

O professor também mencionou declarações que, segundo sua interpretação, indicariam disposição para ampliar a participação dos Estados Unidos em decisões estratégicas brasileiras. Durante a entrevista, porém, as afirmações sobre eventuais acordos e intenções de intervenção estrangeira foram apresentadas como avaliações políticas do entrevistado, sem documentação comprobatória exibida no programa.

Campos defendeu que o Brasil mantenha o controle sobre seus recursos naturais e invista na capacidade de transformar matérias-primas em produtos industrializados. Na perspectiva apresentada por ele, a política econômica deve priorizar o desenvolvimento nacional, a geração de empregos e a distribuição dos benefícios da atividade produtiva.

O alerta sobre o enfraquecimento da democracia

Ao analisar o crescimento da extrema direita, Nelson Campos recorreu à experiência histórica do fascismo europeu para discutir os mecanismos pelos quais regimes autoritários podem conquistar espaço em sociedades democráticas.

O professor mencionou a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha e a utilização de episódios de violência política para estimular o medo e justificar perseguições. Também recordou o incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, em 1933, que os nazistas utilizaram para ampliar a repressão aos adversários políticos, especialmente aos comunistas.

A comparação foi empregada pelo entrevistado para sustentar que episódios de violência precisam ser investigados com rigor e que a atribuição de responsabilidades não pode ocorrer antes da apuração dos fatos.

Durante o programa, o apresentador questionou Campos sobre o incêndio ocorrido em uma universidade de Pernambuco. O professor relacionou o episódio a um contexto de radicalização política, mas a autoria e as circunstâncias do incêndio permaneciam sob investigação no momento da entrevista. Portanto, a comparação histórica não constitui prova de motivação criminosa ou de responsabilidade de qualquer grupo político pelo caso.

Campos também criticou o que considera uma estratégia de enfraquecimento das instituições por dentro, com ataques à credibilidade do sistema eleitoral, à Justiça e aos mecanismos de proteção dos direitos fundamentais.

Ao abordar esse processo, citou o livro Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, como referência para compreender a deterioração institucional em regimes que preservam procedimentos eleitorais, mas sofrem ataques progressivos às suas garantias democráticas.

Na avaliação do professor, o risco não se limita à possibilidade de um golpe militar tradicional. Ele também envolve mudanças institucionais que possam concentrar poder, reduzir mecanismos de controle e dificultar a responsabilização de autoridades.

A ditadura militar e a experiência pessoal do professor

A crítica ao autoritarismo ganhou uma dimensão pessoal quando Nelson Campos relatou que foi preso durante a ditadura militar, em um período no qual atuava como professor.

Segundo seu depoimento, ele foi interrogado por um agente da Polícia Federal que o acusava de defender ideias que, na própria avaliação do entrevistado, não compreendia adequadamente.

Campos contou que questionou o motivo de sua prisão, uma vez que estava exercendo sua atividade profissional e não havia cometido qualquer crime. O relato serviu de ponto de partida para uma reflexão sobre o uso do poder estatal contra pessoas que expressam opiniões divergentes das autoridades.

O professor afirmou que a experiência reforçou sua convicção de que a liberdade de pensamento depende de instituições capazes de limitar o exercício arbitrário do poder. Também criticou a perseguição a intelectuais e a criminalização de correntes políticas durante o regime militar.

Ao recordar esse período, Campos defendeu que o debate público contemporâneo considere as consequências históricas da repressão e reconheça a importância das liberdades conquistadas com a redemocratização.

Críticas à Justiça Eleitoral e à circulação de informações

A atuação da Justiça Eleitoral também foi tema da conversa. Campos questionou decisões do Tribunal Superior Eleitoral e criticou medidas que, segundo sua avaliação, restringem a circulação de conteúdos políticos durante a campanha.

O professor manifestou preocupação com o que considera tratamento desigual entre candidaturas e relacionou o problema ao papel das plataformas digitais na distribuição de informações. Ele também criticou o poder de empresas de tecnologia sobre a visibilidade de conteúdos e a possibilidade de bloqueio de perfis políticos.

Ao longo do programa, foram feitas acusações contra ministros e outras figuras públicas. Essas declarações representam a posição do entrevistado e não devem ser tomadas, por si só, como comprovação de irregularidades ou crimes. A entrevista não apresentou documentação suficiente para verificar independentemente todas as alegações.

Campos sustentou que a democracia exige transparência nas decisões institucionais e condições para que diferentes correntes políticas apresentem suas propostas. Na avaliação dele, a desinformação compromete esse processo quando substitui o debate fundamentado por acusações sem provas.

A conversa também abordou mensagens publicadas por apoiadores de diferentes candidaturas. O professor criticou o uso de afirmações falsas ou exageradas para atacar adversários e defendeu que o eleitor avalie informações com base em evidências verificáveis.

Direitos sociais e o debate sobre o trabalho

Ao comentar as propostas atribuídas a Flávio Bolsonaro, Nelson Campos criticou medidas que, segundo ele, poderiam reduzir a proteção ambiental, enfraquecer os direitos dos trabalhadores e facilitar a privatização de empresas públicas.

O professor citou a discussão sobre a escala de trabalho 6×1 e questionou a proposta de permitir jornadas mais flexíveis sem explicar como seriam preservadas as garantias dos trabalhadores. Para ele, mudanças na legislação precisam considerar as condições concretas de vida de quem depende do salário para sustentar a família.

Campos também mencionou a proteção de terras indígenas e quilombolas, a fiscalização ambiental e a manutenção de serviços públicos. Em sua análise, essas políticas fazem parte de uma disputa sobre a distribuição dos recursos e a responsabilidade do Estado na garantia de direitos.

Ao abordar a possibilidade de privatização de empresas estatais, o professor afirmou que a transferência de patrimônio público para a iniciativa privada pode reduzir a capacidade do país de conduzir políticas estratégicas. A Petrobras foi citada como exemplo de empresa cuja atuação tem importância para a economia nacional.

O educador também criticou discursos políticos que, em sua avaliação, entram em contradição com práticas relacionadas à defesa da família, da honestidade e dos valores religiosos. Para ele, a avaliação de candidatos deve considerar suas ações públicas e suas propostas, e não apenas os valores que afirmam representar.

Religião, conhecimento e pensamento crítico

A entrevista também abordou a relação entre religião e política. Nelson Campos criticou lideranças religiosas que, segundo ele, utilizam a fé para obter influência econômica e política, sem estimular a reflexão crítica entre seus seguidores.

O professor defendeu que a formação educacional deve oferecer instrumentos para interpretar textos, avaliar argumentos e compreender o contexto histórico das ideias. Como exemplo, discutiu a mudança das concepções científicas sobre o lugar da Terra no sistema planetário e recordou a perseguição sofrida por Galileu Galilei em razão de suas posições científicas.

Campos também mencionou Nicolau Copérnico e a passagem do geocentrismo para o heliocentrismo como exemplos da transformação do conhecimento científico ao longo do tempo. A referência foi utilizada para defender a importância da investigação racional e da disposição para rever explicações diante de novas evidências.

Ao tratar do debate político, o professor distinguiu a falta de conhecimento da recusa deliberada em reconhecer fatos. Para ele, divergências podem ser discutidas quando os participantes apresentam argumentos e demonstram disposição para examinar informações.

Campos afirmou que a polêmica baseada apenas em acusações impede a compreensão dos problemas públicos. Na avaliação dele, a democracia depende da capacidade de confrontar ideias sem abandonar a responsabilidade com os fatos.

A trajetória intelectual e a crítica à desinformação

Ao final da entrevista, Nelson Campos respondeu a críticas dirigidas à sua idade e à sua atuação política. Ele afirmou que dedicou a vida aos estudos e à produção intelectual, apresentando-se como professor universitário e escritor.

Durante a conversa, declarou ter 96 publicações, embora não tenha detalhado os títulos ou apresentado uma relação bibliográfica completa. Também ressaltou que nunca pertenceu a um partido político e citou diferentes candidaturas nas quais votou ao longo de sua trajetória.

O professor argumentou que sua posição política decorre de suas próprias avaliações e de sua experiência como educador, e não de uma filiação partidária. Defendeu, ainda, que o debate público reconheça a legitimidade da divergência quando ela é sustentada por argumentos.

Em suas considerações finais, Campos voltou à relação entre conhecimento e participação política. Para ele, o eleitor precisa avaliar as propostas apresentadas, investigar as afirmações feitas durante a campanha e compreender as consequências práticas de suas escolhas.

A frase “O voto não tem preço, o voto tem consequência” resume a advertência apresentada pelo professor ao longo do programa. Sua análise associa a decisão eleitoral à preservação dos direitos sociais, à autonomia econômica do Brasil e à capacidade das instituições democráticas de resistir a projetos autoritários.

Referências

Livro: Como as democracias morrem
Autores: Steven Levitsky e Daniel Ziblatt
Ano de publicação: 2018, edição original em inglês.

Assista à entrevista completa:

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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