Zainab Bello em entrevista a Ronaldo Vieira:
Reflexões sobre Brasil, África, liderança e conexão
Entrevista de Ronaldo Vieira
Esta entrevista nasceu do reconhecimento compartilhado da necessidade de oferecer uma visão mais aprofundada das realidades culturais, econômicas e sociais dos dois países, a partir da perspectiva de nigerianos e brasileiros que atuam diretamente nesses contextos. Ronaldo Vieira e Zainab Bello mantêm uma relação profissional de longa data, iniciada durante a visita do ministro das Relações Exteriores da Nigéria ao Brasil. Na ocasião, Zainab Bello, uma mulher de grande força, organizou uma recepção em homenagem ao ministro, enquanto Ronaldo Vieira colaborou na divulgação do evento entre empresários e empreendedores brasileiros envolvidos em comércio e investimentos com a Nigéria. Zainab consolidou-se como uma verdadeira embaixadora cultural da Nigéria no Brasil, promovendo conexões entre pessoas.

Ronaldo: Zainab, você passou quase sete anos no Brasil trabalhando para uma empresa multinacional e está se aproximando do fim de sua missão no país. Poderia compartilhar um pouco da sua experiência de viver e trabalhar no Brasil, das lições que aprendeu ao longo do caminho e de como esse período transformou sua vida?
Zainab: Esta pergunta chega em um momento oportuno e é profundamente pessoal, agora que me aproximo do encerramento deste capítulo. Vim para o Brasil há quase sete anos para uma missão que deveria ser essencialmente profissional. Na realidade, ela se tornou uma experiência decisiva para a minha vida — e não apenas para mim, mas também para a minha família. Cheguei com uma família jovem e, juntos, crescemos, nos adaptamos e fomos transformados pelo Brasil de maneiras que eu não poderia ter previsto.
No campo profissional, o Brasil ampliou e aperfeiçoou profundamente minha capacidade de liderança. Trabalhar em um ambiente complexo exigiu mais do que conhecimento técnico: exigiu inteligência cultural, humildade e capacidade de influenciar diferentes sistemas. Muitas vezes, precisei atuar sob múltiplas perspectivas. Essa experiência de “vestir vários chapéus” fortaleceu minha habilidade de conectar visões e alinhar prioridades em ambientes desafiadores. Reforçou algo em que acredito muito: a liderança não é definida pelo cargo, mas pelo senso de responsabilidade e pela capacidade de assumir a iniciativa.
Essa experiência aprofundou uma convicção que se tornou central para a minha liderança: desempenho e segurança são, em última análise, resultados humanos, impulsionados pela confiança, pela clareza e pelos ambientes que criamos para que as pessoas possam prosperar.
No plano pessoal, essa jornada tem um significado adicional. Sou britânica-nigeriana e cresci entre os dois países; também tenho ascendência afro-brasileira. Pela linhagem materna, meu bisavô era brasileiro e retornou à Nigéria como parte dos Agudás — ligados à família Salvador — em Lagos. Viver e trabalhar no Brasil, portanto, às vezes pareceu uma reconexão silenciosa, um inesperado reencontro com as minhas origens.
Talvez o mais importante seja que o Brasil se tornou uma ponte na minha vida — entre continentes, perspectivas e possibilidades. Com uma trajetória que abrange Reino Unido, Nigéria e Brasil, tenho percebido cada vez mais o potencial ainda inexplorado entre o Brasil e a África, não apenas no comércio e nos investimentos, mas também na aprendizagem mútua, na conexão cultural e na colaboração estratégica.
Ao me preparar para o próximo capítulo, sinto profunda gratidão. O Brasil não foi apenas o lugar onde trabalhei: ele influenciou a forma como lidero, como me conecto com as pessoas e como vejo o mundo. De muitas maneiras, o Brasil não foi apenas uma missão profissional — foi uma reconexão. Agora, sinto que tenho a responsabilidade de ajudar a transformar essa conexão em algo significativo entre o Brasil e a África.
Ronaldo: Muito obrigado pela introdução tão detalhada. Acredito que todos os brasileiros se sentiriam honrados com o carinho que você demonstra pelo nosso país. Gostaria, porém, de abordar um tema mais desafiador: a falta de conhecimento dos brasileiros sobre os países e os povos do continente africano. Como nigeriana, você sentiu, durante sua permanência no Brasil, que era vista simplesmente como “africana”, e não especificamente como alguém da Nigéria?
Zainab: Sim, vivi essa situação: muitas vezes, fui vista primeiro como africana, e não especificamente como nigeriana. Digo isso com compreensão, e não como crítica, porque reflete uma perspectiva histórica mais ampla.
O Brasil tem uma conexão profunda e complexa com a África, mas essa relação foi moldada, em grande medida, pela história — especialmente pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas —, que acabou reduzindo um continente vasto e diverso a uma narrativa mais homogênea. O que vemos hoje é menos um apagamento deliberado e mais uma simplificação herdada.
Quando vivenciamos isso pessoalmente, percebemos as nuances que se perdem. Nigéria, África do Sul, Quênia, Etiópia, Marrocos e Gana são países distintos, com histórias, culturas, idiomas e identidades próprias.
Também é importante reconhecer que esse desafio existe nos dois sentidos. Muitos africanos chegam ao Brasil com uma compreensão limitada do país, para além do futebol, do Carnaval, das praias e, talvez, das novelas. É preciso ampliar o conhecimento e a curiosidade de ambos os lados. Por isso, vejo essa questão não como um problema, mas como uma oportunidade.
O Brasil está em uma posição singular para ajudar a reformular essa narrativa, porque já existe uma profunda afinidade cultural por meio da música, da comida, da fé, da língua e da história. O próximo passo é acrescentar conhecimento a essa conexão. Três iniciativas podem fazer uma diferença significativa:
Primeiro, educação e letramento cultural, promovendo uma compreensão mais matizada dos países africanos nas escolas, universidades e na mídia. Segundo, contato direto, fortalecendo parcerias, intercâmbios, turismo e relações empresariais com países africanos específicos. Terceiro, narrativas e representatividade, ampliando a presença de vozes africanas na literatura, no cinema, na academia e no debate público.
O objetivo não é substituir um estereótipo por outro, mas passar de “uma África” para “muitas Áfricas”, preservando as profundas conexões que já existem. Para mim, o futuro da relação entre o Brasil e a África será mais sólido quando estiver baseado não apenas na história compartilhada, mas também na compreensão mútua e em aspirações comuns.

Ronaldo: Gostaria de ouvir suas reflexões sobre gênero no mundo do trabalho. Você é uma mulher nigeriana bem-sucedida, e a Nigéria produziu algumas das líderes mais influentes no cenário global.
Zainab: É um paradoxo interessante. A Nigéria é frequentemente vista, de fora, como um ambiente desafiador para as mulheres; ainda assim, o país tem produzido continuamente algumas das líderes mais influentes do mundo.
Acredito que isso revela algo importante sobre a sociedade nigeriana. As mulheres têm grande visibilidade no comércio, no empreendedorismo, no serviço público, na academia e, cada vez mais, na liderança global. Existe uma forte expectativa de competência, resiliência e contribuição.
Tendo crescido entre a Nigéria e o Reino Unido, aprendi que os desafios enfrentados pelas mulheres não são exclusivos de um único país. Eles simplesmente se manifestam de formas diferentes.
Na minha trajetória, concentrei-me em resultados, credibilidade e impacto. Nunca conduzi minha carreira a partir da ideia de limitação, mas tenho consciência de que a representatividade importa. Quando mulheres jovens veem pessoas parecidas com elas ocupando posições de responsabilidade, amplia-se sua percepção do que é possível.
O que admiro em muitas mulheres nigerianas é a determinação. Elas não esperam pelas condições perfeitas: constroem, lideram, adaptam-se e criam oportunidades, mesmo em ambientes complexos. Globalmente, acredito que a conversa está evoluindo do acesso para a influência — não se trata apenas de estar presente na sala, mas de participar da definição dos resultados.
A próxima etapa é criar sistemas mais fortes de mentoria, patrocínio profissional e apoio, para que o sucesso deixe de ser excepcional e se torne mais comum. Em última análise, o objetivo não deve ser celebrar apenas um pequeno grupo de mulheres extraordinárias. Deve ser criar ambientes nos quais muito mais mulheres possam prosperar e liderar.

Ronaldo: Por fim, como você avalia as atrações turísticas do Brasil? Conte-nos sobre suas viagens e o que recomendaria aos nigerianos que desejam visitar o país.
Zainab: O Brasil é um destino turístico extraordinário, não apenas por sua beleza, mas também por sua diversidade. Ao longo dos anos, percebi que o Brasil não é um único destino: é um conjunto de experiências muito diferentes dentro de um mesmo país.
Fiz questão de conhecer lugares além do Rio de Janeiro, porque uma das maiores riquezas do Brasil é justamente sua diversidade. Fiquei impressionada com a força das Cataratas do Iguaçu; apreciei o charme europeu de Gramado e Canela, no Sul; explorei a história colonial de Ouro Preto e vi o nascer do sol em um passeio de balão sobre Capitólio.
Minha família se apaixonou pelas dunas de areia branca de Jericoacoara, pelas águas mornas do Atlântico em Maragogi e pelas belas praias de Santa Catarina. Passeamos pelas notáveis instalações de arte ao ar livre de Inhotim, perto de Belo Horizonte, e exploramos os rios, canais e a riqueza cultural de Recife.
E, naturalmente, nenhuma viagem pelo Brasil estaria completa sem Salvador, cidade cujo nome também faz parte da história da minha família e que ocupa um lugar especial no meu coração por sua profunda herança afro-brasileira e por suas conexões históricas com a África Ocidental. Como nigeriana, vivi momentos em Salvador que me pareceram estranhamente familiares — como se a história e a cultura atravessassem o Atlântico para se fazer presentes.
O que torna o Brasil extraordinário é que cada destino parece um capítulo diferente da mesma história. As paisagens mudam, a comida muda, os sotaques mudam e até o ritmo da vida se transforma, mas existe um espírito singularmente brasileiro que conecta tudo isso.
Para os nigerianos que pensam em visitar o país, meu conselho é simples: não apenas vejam o Brasil — vivenciem-no. Aprendam algumas palavras em português, explorem lugares além dos destinos mais conhecidos, conversem com as pessoas e permitam-se descobrir a riqueza e a diversidade deste país extraordinário. Os brasileiros têm uma capacidade excepcional de acolher quem chega. O Brasil me acolheu. Senti-me em casa.
O Brasil não é apenas um lugar para visitar: é um lugar para vivenciar, sentir e criar conexões.

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