O que você vai ser quando crescer?
por Cesar Vieira
“O que você vai ser quando você crescer?” A pergunta, eternizada na música da Legião Urbana, costuma aparecer quando uma criança começa a descobrir o mundo e os adultos querem saber o que ela pretende fazer dele. Médicos, engenheiros, advogados, professores, jogadores de futebol, cientistas, artistas, astronautas. As respostas mudam conforme a idade, as referências e as descobertas. Às vezes, mudam na mesma semana. E ainda bem. Uma criança que hoje quer ser astronauta amanhã pode decidir que prefere cuidar dos animais, inventar uma máquina ou descobrir por que o céu muda de cor.
Mas há uma mudança que merece atenção. Se antes perguntávamos principalmente o que as crianças queriam ser quando crescessem, hoje parece cada vez mais comum ouvi-las falar sobre o que querem ter. O celular mais novo, o tênis da moda, o videogame, a roupa de determinada marca. Não se trata de condenar os desejos infantis, muito menos de responsabilizar as crianças por uma sociedade que transforma quase tudo em mercadoria. Afinal, elas também são bombardeadas por propagandas, influenciadores e imagens de vidas aparentemente perfeitas, nas quais a felicidade parece estar sempre a uma compra de distância.
A questão é outra: quando o desejo de ter ocupa tanto espaço, que lugar sobra para imaginar o que podemos ser, fazer e transformar? E que condições estamos oferecendo às crianças para que construam seus próprios caminhos?
Há algo de bonito na liberdade infantil de imaginar. Crianças ainda não aprenderam todas as razões pelas quais os adultos consideram certas coisas impossíveis. Fazem perguntas inconvenientes, inventam brincadeiras com quase nada e enxergam possibilidades onde os adultos já decretaram que não há saída. Mas existe uma diferença enorme entre perguntar a uma criança o que ela quer ser quando crescer e garantir que ela tenha condições de chegar lá.
Até poucas décadas atrás, para muitos filhos de famílias pobres, profissões como medicina, engenharia, advocacia, arquitetura e pesquisa científica pareciam pertencer a um mundo distante. Não porque lhes faltassem inteligência ou capacidade, mas porque o caminho até essas ocupações era estreito. A necessidade de trabalhar cedo, a precariedade da educação básica e as dificuldades de ingresso e permanência nas universidades limitavam as possibilidades antes mesmo que muitos jovens pudessem escolher.
O Brasil mudou, ainda que esteja longe de superar suas desigualdades. A expansão do ensino superior, a ampliação de vagas, as políticas de cotas, os programas de bolsas e a interiorização das instituições de ensino ajudaram a abrir portas que permaneceram fechadas para gerações inteiras.
Os números dão a dimensão dessa transformação. Segundo o IBGE, em 2000, apenas 6,8% dos brasileiros com 25 anos ou mais haviam concluído o ensino superior. Em 2022, esse percentual chegou a 18,4% — 2,7 vezes o registrado no início do século. Os dados mais recentes da PNAD Contínua mostram que a proporção continuou crescendo e alcançou 20,5% em 2024. Entre a população preta, o percentual passou de 2,1%, em 2000, para 11,7%, em 2022; entre a população parda, subiu de 2,4% para 12,3%. A desigualdade persiste, mas a expansão do ensino superior ampliou as possibilidades de milhares de brasileiros que, em gerações anteriores, dificilmente teriam acesso a um diploma universitário.
Essa mudança representa uma conquista importante, mas não elimina as desigualdades de acesso e permanência no ensino superior. Durante muito tempo, profissões como medicina, engenharia, advocacia, arquitetura e pesquisa científica estiveram distantes da realidade de muitos filhos de famílias humildes. Hoje, esses jovens podem enxergar possibilidades que seus pais e avós dificilmente tiveram. Isso não aconteceu por acaso: é resultado de décadas de lutas sociais, ampliação de direitos e políticas que abriram caminhos antes reservados a uma parcela privilegiada da sociedade.
Em duas décadas, o número de matrículas em cursos de graduação também mais que dobrou: eram aproximadamente 4,2 milhões em 2004; em 2024, ultrapassaram 10,2 milhões. Esses números não significam que todos consigam concluir os estudos ou encontrar trabalho na área escolhida. Mostram, porém, que as possibilidades se ampliaram. As crianças de hoje podem sonhar mais longe porque gerações anteriores lutaram para democratizar direitos e construir as bases que sustentam esses avanços.
O futuro não aparece por geração espontânea. É resultado de escolhas, disputas e conquistas acumuladas.
Mas ampliar o acesso à universidade não basta. De que adianta um jovem estudar durante anos, conquistar um diploma de engenharia e precisar dirigir por aplicativo para pagar as contas porque não encontra oportunidades compatíveis com sua formação? Não há demérito algum em dirigir um carro por aplicativo. O problema está em uma economia que desperdiça conhecimento, frustra expectativas e não consegue oferecer trabalho qualificado a todos os profissionais que forma.
Educação precisa caminhar junto com desenvolvimento econômico, investimento em ciência e tecnologia, valorização profissional e geração de empregos. Caso contrário, corremos o risco de ampliar as oportunidades de estudar sem garantir que as pessoas possam transformar o conhecimento em autonomia e qualidade de vida. O diploma abre portas, mas é preciso que existam portas para abrir.
O mesmo raciocínio vale para o restante da infância. O futuro começa na água tratada que chega à torneira, no esgoto que não corre a céu aberto, na comida que existe dentro de casa, no posto de saúde que atende quando a criança adoece, na escola que ensina e na moradia que oferece segurança. Está no caminho até a sala de aula, no ar que ela respira e no tempo que tem para brincar.
Uma criança que vive em uma casa sujeita a enchentes pode perder seus cadernos, faltar às aulas e adoecer. Quando uma onda de calor atinge uma escola sem ventilação adequada, não estamos falando apenas de desconforto, mas de condições que prejudicam a saúde e o aprendizado. Quando falta saneamento básico, a desigualdade aparece na forma de doenças evitáveis. E, quando uma consulta demora meses, o direito à saúde existe no papel, mas a infância não pode esperar indefinidamente.
A vacinação é outro exemplo de como decisões coletivas interferem diretamente nas possibilidades de uma criança crescer saudável. O Brasil construiu uma referência internacional em imunização por meio do Sistema Único de Saúde e do Programa Nacional de Imunizações. Essa conquista, porém, sofreu um retrocesso preocupante. A partir de 2015, as coberturas vacinais infantis entraram em trajetória de queda, agravada durante a pandemia de covid-19.
Segundo dados do Ministério da Saúde, a cobertura da primeira dose da vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, caiu de 93,1% em 2019 para 74,9% em 2021. A segunda dose, essencial para completar a proteção recomendada, passou de 81,6% para 53,2% no mesmo período. Em 2022, a cobertura da segunda dose continuou baixa, em 57,6%. Na vacinação contra a poliomielite, a cobertura passou de 84,2% em 2019 para 71% em 2021, permanecendo em 77,2% em 2022 — muito aquém da meta de 95%.
Não estamos falando de números abstratos. Coberturas insuficientes significam mais crianças vulneráveis a doenças que podem causar sequelas graves ou até a morte. Em 2021, o Brasil chegou a figurar entre os países com maior número de crianças sem a primeira dose de vacinas essenciais, segundo estimativas internacionais. A desinformação, o enfraquecimento da confiança nas vacinas, as dificuldades de acesso aos serviços e os problemas agravados pela pandemia contribuíram para esse cenário.
A recuperação posterior mostra que esse quadro pode ser revertido, pelo menos parcialmente. Em 2023, houve aumento da cobertura de 13 dos 16 principais imunizantes do calendário infantil, segundo o Ministério da Saúde. Em 2024, dados preliminares indicavam novos avanços em 12 dessas vacinas em relação ao ano anterior. Recuperar a vacinação, contudo, não é um detalhe administrativo: exige informação confiável, serviços acessíveis, campanhas públicas e compromisso permanente com a ciência. É uma obrigação com as crianças de hoje e com as próximas gerações.
Ainda assim, há quem trate políticas de saúde, educação e proteção ambiental como despesas inconvenientes, em vez de investimentos nas condições básicas da vida. A lógica é curiosa: negligenciam-se medidas de prevenção e depois se lamentam as consequências que poderiam ter sido evitadas.
As mudanças climáticas tornam essa contradição ainda mais evidente. Crianças já crescem em um mundo de chuvas extremas, secas e ondas de calor que atingem com mais força quem dispõe de menos recursos para se proteger. Famílias pobres raramente podem escolher um bairro menos vulnerável ou reconstruir a casa depois de uma enchente. Para elas, a crise climática não é uma discussão distante entre especialistas. É o risco de perder o pouco que conseguiram construir.
Uma criança não é um recipiente vazio à espera de respostas dos adultos. Tem vontade própria, curiosidade, capacidade de interpretação e direito de participar das decisões que afetam sua vida, de acordo com sua idade e seu desenvolvimento. Precisa de proteção, mas não de silenciamento; de orientação, mas não de obediência cega.
Talvez seja justamente aí que mais nos surpreendam. Enquanto muitos adultos se acostumam às injustiças, elas ainda perguntam por que alguém dorme na rua, por que uma família não tem casa ou por que o colega não pode participar de um passeio. São perguntas simples, mas nem sempre fáceis de responder sem recorrer a justificativas que apenas disfarçam nossa incapacidade de enfrentar os problemas.
O desafio não é ensinar às crianças que o mundo é perfeito. É mostrar que ele pode ser transformado. Uma cesta básica ajuda uma família, mas não substitui políticas de combate à fome. Uma campanha de arrecadação pode socorrer uma escola, mas não deveria servir de desculpa para a ausência de investimento público. Solidariedade é indispensável; direitos não podem depender apenas dela.
Em ano eleitoral, essa discussão ganha uma dimensão ainda mais concreta. As eleições não definem apenas quem ocupará os cargos de governo pelos próximos anos. Também ajudam a definir quais problemas serão enfrentados, quais direitos serão protegidos e que país deixaremos para quem ainda está aprendendo a escrever o próprio nome. Uma escolha feita hoje pode repercutir na escola que uma criança frequentará, no atendimento de saúde que receberá, no bairro em que poderá morar e nas condições ambientais que encontrará quando chegar à vida adulta.
Por isso, não basta ouvir declarações emocionadas sobre família, infância e proteção. É necessário examinar o que cada projeto de país propõe na prática. Que prioridade dará à educação pública? Como enfrentará a fome e a falta de saneamento? O que fará para ampliar o acesso à saúde, recuperar a vacinação e combater a desinformação? Que oportunidades econômicas pretende criar para que estudar não seja apenas uma promessa de mobilidade social? Como protegerá as crianças dos efeitos de uma crise climática que já começou?
De que adianta dizer que queremos crianças livres para sonhar se não nos preocupamos com as condições para que seus sonhos deixem de ser apenas sonhos? E que futuro estamos defendendo quando tratamos a desigualdade como fatalidade, a degradação ambiental como preço inevitável do progresso e o investimento em direitos sociais como gasto?
O Dia das Crianças é uma data importante, mas não deveria servir apenas para perguntar o que elas querem ganhar. Deveria nos obrigar a pensar no que estamos dispostos a garantir. Uma infância protegida não se constrói com presentes uma vez por ano, assim como o futuro não se constrói com promessas feitas a cada eleição. É resultado de políticas públicas, escolhas cotidianas e compromisso com direitos que não dependam do CEP, da renda ou da cor da pele de quem nasce.
Quando perguntarmos a uma criança o que ela quer ser quando crescer, precisamos ouvir sua resposta sem tentar encaixá-la imediatamente em nossas expectativas. Ela não nos deve a realização dos nossos sonhos, muito menos a obrigação de corrigir os erros da nossa geração. Tem o direito de imaginar uma vida diferente, mudar de ideia, descobrir novos caminhos e participar da construção do mundo em que viverá.
A responsabilidade dos adultos não é escolher esse futuro por ela. É garantir que existam futuros possíveis.
No fim das contas, a pergunta mais importante talvez não seja o que uma criança vai ser quando crescer. É o que estamos fazendo, agora, para que ela possa crescer — e que mundo encontrará quando isso acontecer. Porque o futuro não começa quando as crianças se tornam adultas. Ele já está sendo construído pelas decisões que tomamos enquanto elas ainda são crianças.
Cesar Vieira é jornalista, documentarista, assessor de comunicação e membro da Secretaria da Rede BrCidades.
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