Aliado de Eduardo Bolsonaro publicou mensagem dirigida ao embaixador Renato Mosca de Souza e insinuou que o diplomata poderia ser retirado de Roma caso o bolsonarismo volte ao Planalto. Declaração ocorre em plena campanha presidencial, mas não há indicação pública de que a transferência seja uma proposta oficial de Flávio Bolsonaro ou de que Figueiredo tenha autoridade formal sobre a política externa de sua candidatura
Da Redação
O comentarista Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro e figura próxima ao núcleo político bolsonarista nos Estados Unidos, publicou neste domingo uma mensagem que foi interpretada como uma advertência ao embaixador brasileiro na Itália, Renato Mosca de Souza. Ao mencionar a possibilidade de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, Figueiredo sugeriu que o diplomata poderia deixar Roma e ser enviado para Burkina Faso, na África Ocidental. A postagem ocorre a menos de duas semanas do segundo turno e amplia o debate sobre o tipo de política externa e de relação com o corpo diplomático que poderia surgir num novo governo ligado à família Bolsonaro.
Na publicação, Figueiredo identifica nominalmente o embaixador e faz referência à relação institucional da representação brasileira em Roma com personalidades como o humorista Fábio Porchat e os ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. Em seguida, escreve que espera que Mosca “goste de Burkina Faso”, numa formulação apresentada em tom irônico e imediatamente lida nas redes sociais como a sugestão de uma futura remoção punitiva do diplomata. A mensagem, porém, não apresenta qualquer decisão concreta, e não há até o momento manifestação da campanha de Flávio Bolsonaro confirmando que Renato Mosca seria retirado do posto caso o candidato do PL vença a eleição.
A distinção é importante. Paulo Figueiredo exerce influência no ecossistema político bolsonarista e tornou-se conhecido por sua atuação nos Estados Unidos ao lado de Eduardo Bolsonaro, especialmente durante as ofensivas políticas contra decisões do Supremo Tribunal Federal. Ele também aparece publicamente associado a iniciativas defendidas por aliados de Flávio na relação com Washington. Isso, contudo, não transforma automaticamente cada declaração sua numa proposta oficial da campanha presidencial. Até agora, não foi apresentado documento ou pronunciamento de Flávio estabelecendo qualquer plano para substituir Mosca ou transferi-lo para outro país.
Diplomata de carreira, Mosca foi aprovado pelo Senado
Renato Mosca de Souza é ministro de primeira classe da carreira diplomática e ocupa a chefia da Embaixada do Brasil em Roma. Sua indicação para representar o país na Itália, acumulando inicialmente as representações de San Marino e Malta, foi submetida ao Senado em 2023. Depois de sabatina na Comissão de Relações Exteriores, o nome foi aprovado pelo plenário por 48 votos favoráveis e seis contrários. Sua nomeação foi posteriormente publicada e ele assumiu o posto na capital italiana.
A trajetória de Mosca, entretanto, é anterior ao atual governo. O diplomata ingressou no Itamaraty no início dos anos 1990 e serviu a administrações de diferentes orientações políticas. Já foi embaixador na Eslovênia e ocupou funções próximas à Presidência da República ao longo da carreira. Durante sua aprovação para o posto esloveno, em 2017, senadores destacaram justamente o fato de ele ter trabalhado sob governos distintos sem vincular sua atividade profissional a uma corrente partidária específica.
É esse histórico que torna a postagem de Figueiredo politicamente significativa. O Serviço Exterior brasileiro é formado majoritariamente por funcionários de carreira, submetidos a regras próprias de promoção, lotação e remoção. O presidente da República nomeia os chefes das missões diplomáticas depois da aprovação do Senado, enquanto o Ministério das Relações Exteriores administra a movimentação dos diplomatas entre Brasília e os postos no exterior. A legislação permite remoções por interesse da administração, mas estabelece procedimentos e critérios para a carreira.
Isso significa que um novo governo possui margem considerável para substituir chefes de missões diplomáticas e reorganizar sua política externa. Não significa, contudo, que um aliado político de uma candidatura possa determinar antecipadamente o destino funcional de um diplomata. A mensagem de Figueiredo deve, portanto, ser entendida como uma manifestação política, e não como ato administrativo ou decisão já tomada.
STF aparece novamente no centro do conflito
A referência a Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso também não é casual. Nos últimos anos, Figueiredo e Eduardo Bolsonaro transformaram críticas ao Supremo num dos principais eixos de sua atuação no exterior. A relação deteriorou-se ainda mais depois de investigações e processos envolvendo Jair Bolsonaro, Eduardo e outros integrantes do campo bolsonarista, ao mesmo tempo em que aliados da família buscaram apoio político em Washington contra decisões da Corte.
Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo Supremo por coação no curso do processo, e o ministro Alexandre de Moraes determinou neste mês o início do cumprimento da pena, além do cancelamento de seus passaportes. O ex-deputado, que permanece nos Estados Unidos, rejeita as acusações e afirma ser vítima de perseguição política. Paulo Figueiredo tem atuado ao seu lado nesse enfrentamento e também critica de maneira recorrente integrantes do Judiciário brasileiro
É nesse contexto que a menção a Mosca ganha uma conotação que ultrapassa uma simples discussão administrativa. A postagem não critica uma política específica executada pela embaixada nem apresenta alegação concreta de irregularidade funcional. O alvo da crítica é a suposta proximidade do diplomata com personagens que Figueiredo e o bolsonarismo tratam como adversários políticos.
Para críticos da mensagem, isso aproxima a ideia de remoção de uma lógica de retaliação. Para aliados de Figueiredo, um presidente eleito tem legitimidade para escolher representantes diplomáticos compatíveis com as prioridades de sua política externa. As duas questões, porém, não são idênticas: alterar a chefia de uma embaixada por razões diplomáticas é uma prerrogativa de governo; sugerir uma transferência como punição por relações institucionais ou pessoais levanta outra discussão sobre profissionalização do Estado e tratamento dispensado aos servidores de carreira.
A política externa já entrou na disputa do segundo turno
A declaração também se insere numa campanha em que a política internacional ganhou peso incomum. Flávio Bolsonaro vem defendendo uma aproximação estratégica com os Estados Unidos de Donald Trump e já sinalizou interesse em inserir o Brasil no chamado Escudo das Américas, iniciativa de cooperação regional em segurança. Lula, por sua vez, procura apresentar a eleição como uma escolha relacionada também à autonomia diplomática brasileira, à participação no BRICS e à preservação de relações simultâneas com Estados Unidos, China, Europa e países do Sul Global.
Nesse cenário, os nomes que poderiam ocupar embaixadas importantes ganham relevância porque chefes de missão não exercem apenas funções protocolares. Eles participam de negociações econômicas, articulações políticas, cooperação em defesa, promoção comercial e comunicação direta com os governos estrangeiros. Roma é ainda um posto de grande visibilidade por envolver a relação com a Itália e pela proximidade com o Vaticano.
Mudanças de embaixadores após a posse de um novo presidente não são incomuns e fazem parte da capacidade do Executivo de reorganizar sua política externa. O ponto específico criado pela mensagem de Figueiredo é outro: ela antecipa, em pleno período eleitoral, uma espécie de lista informal de pessoas que poderiam sofrer consequências profissionais caso o poder mude de mãos.
A própria forma como a postagem foi construída reforçou essa interpretação. Burkina Faso não aparece associado a qualquer argumento de política diplomática ou necessidade do Itamaraty. O país é mencionado em tom depreciativo e como contraposição a Roma, sugerindo uma transferência para um posto considerado menos desejável como resposta ao comportamento atribuído ao embaixador.
Esse aspecto também produz um problema diplomático adicional. Burkina Faso é um Estado soberano com o qual o Brasil mantém relações oficiais. Utilizar o país como sinônimo de punição funcional transforma uma representação diplomática brasileira em elemento de ironia política doméstica, algo que pode ser interpretado como desrespeitoso independentemente da disputa eleitoral brasileira.
Campanha de Flávio terá de dizer se fala é apenas de um aliado
Até o momento, o episódio permanece limitado à manifestação de Paulo Figueiredo. Não há evidência pública de que Flávio Bolsonaro tenha autorizado a mensagem, concordado com a transferência de Renato Mosca ou incluído qualquer medida semelhante em seu programa de governo. A ausência dessa ligação direta impede apresentar o comentário como decisão futura da candidatura.
Ao mesmo tempo, o peso político de Figueiredo faz com que sua declaração não seja tratada como a postagem de um apoiador qualquer. Sua proximidade com Eduardo Bolsonaro, sua atuação nos Estados Unidos e sua participação constante no debate estratégico do campo bolsonarista fazem com que declarações sobre um possível futuro governo sejam examinadas com atenção redobrada.
A questão colocada pela postagem, portanto, ultrapassa o destino individual de Renato Mosca. Ela toca num debate maior sobre até que ponto mudanças de governo podem atingir funcionários de Estado identificados, correta ou incorretamente, com adversários políticos.
O Brasil possui uma das carreiras diplomáticas mais antigas e profissionalizadas da administração pública. Embaixadores representam o governo de turno, mas continuam sendo servidores do Estado brasileiro. A tensão entre essas duas dimensões sempre existiu e reaparece a cada mudança de administração.
A diferença, neste caso, é que a discussão começou antes mesmo da eleição.
Paulo Figueiredo já fala em um eventual governo Flávio como se decisões de pessoal estivessem sendo antecipadas, enquanto o país ainda não escolheu quem ocupará a Presidência a partir de janeiro. A mensagem não possui força legal nem representa, até aqui, anúncio oficial de política externa. Mas expõe o clima de acirramento institucional no qual uma disputa eleitoral passa a incluir não apenas programas e ministérios, mas também o futuro profissional de servidores identificados como próximos de figuras adversárias.
Se Flávio Bolsonaro considera ou não legítima essa perspectiva é uma resposta que cabe à sua própria campanha.
Até que ela venha, o fato concreto é mais restrito: um aliado influente do bolsonarismo sugeriu publicamente que o atual embaixador do Brasil na Itália deveria trocar Roma por Burkina Faso em caso de mudança no Planalto.
E fez isso não por uma divergência diplomática apresentada ao público, mas citando nominalmente personagens que estão no centro da guerra política travada pelo bolsonarismo contra o Supremo Tribunal Federal.