Livros e máquinas: a cooperação entre MST e China que chega a Maricá

Livros e máquinas: a cooperação entre MST e China que chega a Maricá

por Juliana Sayuri Gondo

Em abril de 2023, João Pedro Stédile e a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra, integrantes da comitiva do presidente Lula à China, doaram 32 livros sobre a questão agrária brasileira à biblioteca da Universidade Agrícola da China (CAU, na sigla em inglês). Sete meses antes, em setembro de 2022, o Consórcio Nordeste havia assinado um memorando com duas entidades chinesas, uma plataforma de inovação ligada à CAU e a associação de fabricantes de máquinas agrícolas do país, para a troca de conhecimentos e o fornecimento de máquinas à agricultura familiar camponesa, segundo o Brasil de Fato. Os livros foram um gesto simbólico dentro de uma cooperação que já estava em andamento. Em fevereiro de 2024, num ato em Apodi (RN), chegaram ao Nordeste as primeiras 29 máquinas chinesas. Em março de 2026, contratos assinados em Pequim passaram a prever a construção, em Maricá, no Rio de Janeiro, de uma fábrica anunciada como a primeira do país voltada exclusivamente à agricultura familiar.

As raízes: de Alexina Crespo à brigada Liang Jun

A aproximação entre a luta pela terra no Brasil e a China é mais antiga que o próprio MST, fundado em 1984. Em abril de 1962, Alexina Crespo, diretora de relações internacionais das Ligas Camponesas, foi a Pequim a convite da embaixada chinesa em Havana, onde vivia exilada. Lá, foi recebida por Mao Tsé-Tung e pediu armas, conta Tings Chak, em artigo na Jacobin republicado pelo Outras Palavras. Com o golpe de 1964 e a instalação da ditadura militar, essa frente de negociação foi interrompida.

Segundo Janailson de Almeida, sinólogo e militante internacionalista do MST, as primeiras incursões de integrantes do movimento à China remontam à década de 1990. Na leitura dele, foi ali que se abriu uma porta que nenhuma outra força política brasileira havia conseguido abrir.

A cooperação atual, porém, nasceu em 2020, a partir da brigada do MST na China batizada com o nome de Liang Jun, a primeira mulher tratorista da China, símbolo de resistência. Janailson cursava parte do mestrado no país naquele ano. A Universidade Agrícola da China logo se tornou um ator central. Para dar a essas frentes uma estrutura jurídica e capacidade de captar financiamento, a articulação passou a contar com o Baobá, associação internacional de cooperação popular presente em vários continentes. O financiamento hoje já envolve governos, universidades e iniciativa privada brasileira, e não só a parceria com a China.

A fábrica é símbolo; o desafio é a mecanização

Elias Araújo, dirigente do MST que coordena a frente de mecanização e agricultura digital do movimento, faz questão de separar duas coisas que costumam ser confundidas. “Fábrica é um simbolismo”, diz. “Nosso desafio estratégico é ter acesso à mecanização.”

O problema começa pela falta de máquinas: menos de 1% das famílias assentadas no Norte e no Nordeste têm acesso a maquinário agrícola, segundo Elias. Outros levantamentos usam bases diferentes, mas o quadro é parecido: em 2022, o Consórcio Nordeste falava em 2,3% da agricultura familiar do Nordeste com mecanização.

A mecanização é um dos cinco eixos do programa do movimento, ao lado das agroindústrias, dos bioinsumos, da agricultura digital e da questão ambiental. Para Elias, isso não significa imitar o agronegócio. O exemplo que ele dá é o do drone, hoje o equipamento que mais ameaça as comunidades tradicionais, porque espalha veneno sobre elas. Mesmo assim, diz, “o drone não é o problema para nós, o problema é o conteúdo que as máquinas modernas levam”. Para o MST, drones e pulverizadores podem aplicar insumos biológicos e melhorar a fertilidade das lavouras. O modelo tradicional de agricultura, afirma Elias, se esgotou, e as máquinas do agronegócio foram feitas para suprimir florestas, não para conservá-las.

Mecanizar a agroecologia

Antes de chegar às máquinas, o MST precisou resolver uma disputa interna. O movimento adotou a Reforma Agrária Popular e, junto com ela, a agroecologia como base produtiva, e avançou: segundo Janailson, nos últimos dez anos as agroindústrias passaram de 80 para 120, e as cooperativas dobraram, de 100 para 200. O crescimento, porém, esbarrou num limite.

Janailson chama o debate que se abriu de “dialética da agroecologia”. De um lado está uma visão que ele descreve como romântica, para a qual mecanizar a agricultura camponesa seria incompatível com o modo de vida que a agroecologia propõe. De outro está o MST, para quem mudar a correlação de forças com o agronegócio exige modernizar e mecanizar.

O argumento que fez o movimento agroecológico ceder, segundo Janailson, foi a sucessão rural. Como em vários outros países, a China incluída, a juventude brasileira não se fixa no campo. Isso compromete a produção de alimentos e incha cidades incapazes de absorver essa mão de obra.

Para Elias, o problema que o MST quer resolver não é só de produção, é de gente. “Sem esse desenvolvimento, a gente não dialoga com os camponeses desse século, a juventude principalmente.” No Maranhão, onde atua, o arroz já foi o carro-chefe da produção agrícola do estado, mas migrou para outras regiões quando ali não se desenvolveu tecnologia adequada. Os camponeses locais seguem produzindo como nos anos 1960 e 1970.

A mecanização também é uma questão de gênero. Quando os homens saem para trabalhos sazonais, são mulheres e crianças que ficam nos territórios, num trabalho penoso e invisível. Para Elias, a máquina deve aliviar essa carga, além de aumentar a produção. Máquinas pequenas podem fortalecer os agroquintais e a produção agroflorestal conduzida por mulheres, inclusive de forma cooperada, já que até uma máquina pequena é cara demais para uma família camponesa comprar sozinha.

Por que a China

Na ausência de um programa internacional de cooperação tecnológica para a agricultura familiar promovido pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o MST passou a buscar uma cooperação própria, que Janailson chama de “FAO Popular”. Em artigo publicado na revista IDeAS, em 2025, ele lista os países com maior desenvolvimento tecnológico voltado à agricultura familiar e camponesa, os parceiros possíveis do movimento: Itália, Alemanha, Japão, Coreia, Vietnã e China.

A China se destacou por reunir alto grau de industrialização e desenvolvimento tecnológico agrícola, grande população rural, pequenas propriedades e um regime de propriedade estatal e coletiva da terra. Segundo Stédile, em entrevista ao podcast Flow em 2023, o país é o maior produtor mundial de máquinas agrícolas voltadas ao pequeno produtor.

Elias resume a escolha assim: a China fez reforma agrária, tem propriedades pequenas e vive uma transição tecnológica. Além disso, diz ele, as alternativas para a agroecologia não estão vindo do Norte Global.

Do Nordeste a Maricá

A articulação aterrissou primeiro no Nordeste. Segundo Elias, a região já tinha um consórcio de nove governos estaduais, “perfeito para que conhecessem essa articulação que a gente iniciou na China”. Além disso, o Nordeste concentra a maior parte das famílias assentadas e os estados com menor acesso a tecnologia, o que o tornava o lugar óbvio para uma ação “mais ofensiva” nas máquinas.

O Rio Grande do Norte, sob a liderança de Fátima Bezerra, virou referência. O Instituto Federal do estado passou a pesquisar as máquinas em parceria com a CAU. O movimento encerra agora uma residência agrária com estudantes da CAU e do Nordeste, que ajudam a tabular os dados das primeiras máquinas, testadas no Maranhão, no Ceará, no RN e na Paraíba. O esforço se espalhou depois para a Universidade de Brasília, que coordena um Centro Brasil-China, e para estados como São Paulo, Goiás e Rio Grande do Sul.

Há um motivo para tanto teste. Embora a China tenha pequenas propriedades e foco na agricultura camponesa, os solos e as culturas são outros, e as máquinas não chegam prontas. Precisam ser adaptadas.

Maricá não entrou por uma ordem de prioridade entre os estados. Elias é enfático: a cidade aparece como primeira possibilidade de fábrica por causa de uma relação histórica com o MST, construída em vários projetos ao longo dos anos.

A parceria começou em 2016, no Programa Maricá Popular, então na gestão do prefeito Washington Quaquá (PT), com hortas agroecológicas em escolas municipais e a promessa de uma horta comunitária de dois hectares para abastecer escolas, creches e hospitais. O convênio é firmado com a Cooperar, cooperativa de assessoria técnica a assentamentos de reforma agrária ligada ao MST, e mantém duas unidades agroecológicas: uma no loteamento Manu Manuela e outra na antiga Fazenda Pública Ibiaci, no Espraiado. Em 2018, já na gestão de Fabiano Horta (PT), o município desapropriou a fazenda, onde a prefeitura e o MST construíram uma comuna de produção agrícola familiar. Em março de 2021, após a morte do dirigente do MST Joaquín Piñero, ela foi renomeada Fazenda Valquimar Reis Fernandes (Joaquín Piñero), com o nome de batismo e o de escolha do militante. Vieram ainda o programa de alfabetização “Sim, Eu Posso!”, inspirado em método cubano, e implementado em 2023 e apontado como o primeiro do estado em parceria com o poder público.

Elias afirma que o município tem recursos, mas “não é por conta dos royalties”. Já o prefeito Washington Quaquá (PT), ao anunciar a parceria em novembro de 2025, apresentou a fábrica como uma forma de converter o dinheiro do petróleo em indústria.

Da assinatura ao chão de fábrica

A parceria para a fábrica começou em julho de 2025, com um memorando de entendimento entre a Sinomach, a Prefeitura de Maricá e a OZ.Earth, assinado em Brasília. Foi formalizada em 22 de novembro de 2025, na comuna que hoje leva o nome de Joaquín Piñero, e apresentada como uma “parceria público-privada e popular”. Em 6 de março de 2026, em Pequim, foram assinados três contratos: o contrato-mestre, o de importação dos componentes dos tratores e o da linha de montagem. O projeto é uma parceria entre a Sinomach, apontada como uma das maiores indústrias do setor de maquinário da China, e a OZ Earth, empresa brasileira de ciência e tecnologia, com o MST e a Prefeitura de Maricá como parceiros estratégicos. Os tratores chegarão ao Brasil desmontados, em grandes módulos, e serão montados em Maricá.

A fábrica ficará no distrito de Ponta Negra, perto da RJ-106, com investimento estimado em R$ 200 milhões e potencial de até 500 empregos indiretos. A capacidade anunciada cresceu ao longo do processo. No anúncio inicial, em 2025, reportagens falavam em R$ 100 milhões e 2 mil tratores por ano. Em novembro, o número era de 1.600 inicialmente. Na assinatura dos contratos, passou a até 5 mil por ano, em modelos de 25 e 50 cavalos. As máquinas serão destinadas a associações e cooperativas da reforma agrária e da agricultura familiar, por meio de políticas como o Pronaf e compras públicas, e a meta é chegar a pelo menos 60% de conteúdo nacional. O arranjo foi apresentado como uma “parceria público-privada e popular”, mas as reportagens consultadas não informam a participação de cada sócio nem a origem dos recursos. São perguntas que ficam para o próximo texto desta série, com a prefeitura e a OZ.

O projeto também tem críticos. Veículos como a Revista Oeste questionam a escolha de um município cuja economia depende do petróleo para sediar uma fábrica de máquinas agrícolas.

A fábrica, porém, ainda não existe. Toda a construção política com os parceiros chineses está pronta, com local definido, equipe montada e metas, diz Elias, e a primeira entrega de tratores de 50 e 25 cavalos está prevista para dezembro de 2027. Outros estados, como RN, Sergipe, Bahia, Ceará e Maranhão, também discutem unidades próprias, mas nenhum está no mesmo estágio. Em Maricá, afirma, “as condições já estão dadas”. “Pode ser que ano que vem, 2027, já comece a ter os primeiros resultados dessa parceria com Maricá”, diz, sem prometer mais do que o projeto permite prometer.

A estratégia com a China, segundo Jalailson, tem três etapas: adquirir a tecnologia para testar e adaptar, formar parcerias para desenvolvê-la no Brasil e, por fim, transferir a tecnologia para que o movimento tenha as próprias empresas. A projeção é ambiciosa: cooperativas próprias de máquinas e de bioinsumos e, no horizonte, placas solares e beneficiamento de minerais, tudo dentro de um debate mais amplo de desenvolvimento e soberania nacional.

O campo e a cidade

A sucessão rural volta ao centro no fim. Elias concorda que manter a juventude no campo é o principal motivo da aposta na mecanização, mas não a trata como solução suficiente. “Não vai ser só transformá-los em tratoristas que resolverá o problema.” A migração tem várias causas, observa, e ele cita povos do Maranhão que partem todo ano para São Paulo, para Goiás e para a colheita da maçã no Sul. “Tem questões mais a fundo nesse problema.”

A mecanização, portanto, não é o fim da história. É uma condição para que outras políticas, como crédito, formação e melhores condições de trabalho e remuneração, possam fazer efeito. Sem ela, diz o dirigente, o movimento não dialoga com a juventude camponesa do século XXI. Com ela, talvez sim.

Há uma segunda meta, que olha para a cidade. Elias vê no primeiro eixo do programa, o das agroindústrias, uma lacuna: os camponeses têm pouco acesso à industrialização e, por isso, participam pouco do abastecimento além dos produtos primários. Ele cita como exemplos possíveis uma indústria de bioinsumos ou um frigorífico no Rio Grande do Sul, uma fábrica de embalagens de vidro na Bahia e uma de leite em pó na Paraíba. A necessidade de desenvolver a agroindústria, diz, é fazer o alimento saudável chegar ao centro urbano e a outras regiões, e por isso o movimento vive “um momento muito forte de agroindústrias”. Manter a juventude no campo e levar a produção camponesa à cidade, além do produto primário: são as duas metas que o MST quer alcançar com a mecanização e a industrialização.

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