Análise questiona se dificuldades de acesso a informações eleitorais, mudanças nos locais de votação e limitações digitais podem ter afetado a participação de eleitores de maneira desigual; hipótese depende de dados que permitam verificar a ocorrência e a dimensão do fenômeno
O pesquisador Fernando Horta propõe investigar se dificuldades de acesso a informações eleitorais e a circulação de mensagens incorretas ou direcionadas podem ter prejudicado o comparecimento de determinados grupos às urnas no Brasil. Em uma apresentação publicada no YouTube, ele levanta a hipótese de uma estratégia de microdesinformação capaz de explorar diferenças no acesso à internet, no conhecimento dos locais de votação e na familiaridade com ferramentas digitais. A suspeita, porém, ainda não está comprovada. Para testá-la, Horta defende a divulgação de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que permitam examinar o que ocorreu antes da chegada dos eleitores às seções eleitorais.
A análise desloca parte da atenção dedicada à segurança das urnas eletrônicas para as condições que permitem ao cidadão exercer o direito ao voto. Horta argumenta que o processo eleitoral brasileiro depende de etapas anteriores à votação, como a consulta ao endereço da seção, a confirmação de informações e o acesso aos serviços digitais da Justiça Eleitoral. Na avaliação do pesquisador, eventuais obstáculos nessas etapas podem afetar a participação sem que o problema apareça diretamente nos registros sobre o funcionamento das urnas.
“Temos que entender que o processo de votação brasileiro tem dois pontos de inflexão”, afirma Horta. Ele identifica esses momentos na passagem do ambiente analógico para o digital, quando o eleitor utiliza a urna eletrônica, e no retorno ao ambiente cotidiano depois de votar. Sua argumentação é que a análise institucional costuma concentrar atenção no equipamento eletrônico, embora dificuldades anteriores à votação também possam comprometer o exercício do direito eleitoral.
O pesquisador não apresenta a hipótese como prova de fraude ou de adulteração dos resultados. Seu questionamento está relacionado à possibilidade de que informações insuficientes, incorretas ou distribuídas de maneira desigual tenham criado obstáculos para parte do eleitorado. Para verificar essa possibilidade, seria necessário distinguir problemas de acesso à informação de outras causas de ausência nas eleições, além de identificar se eventuais dificuldades atingiram determinados grupos de forma sistemática.
Abstenção eleitoral e acesso aos serviços digitais
Na apresentação, Horta reúne números relacionados ao uso de ferramentas eleitorais e ao comparecimento às urnas. Segundo os dados que cita, foram registradas 4,3 milhões de justificativas eleitorais no dia da votação, emitidos 8,6 milhões de documentos pelo aplicativo e-Título e realizadas mais de 22 milhões de consultas sobre locais de votação. Ele também menciona atrasos de até 50 minutos na transmissão de dados, que teriam sido atribuídos ao volume de acessos acima do normal.
Para o pesquisador, essas estatísticas precisam ser analisadas considerando também os eleitores que não conseguem utilizar os serviços digitais. Os registros de acesso a aplicativos e páginas da Justiça Eleitoral mostram a atividade de quem conseguiu recorrer a essas ferramentas, mas não esclarecem quantas pessoas deixaram de obter informações por falta de internet, ausência de telefone celular ou dificuldades no uso da tecnologia.
Essa diferença é relevante para a hipótese apresentada. Um eleitor que não consegue consultar o e-Título pode ter dificuldades para verificar o endereço de sua seção ou descobrir uma eventual mudança no local de votação. Caso encontre informações incompletas ou incorretas por outros canais, poderá enfrentar obstáculos adicionais para chegar ao destino correto.
Horta relaciona essa discussão aos números da abstenção eleitoral. Ele menciona 33,4 milhões de eleitores ausentes e uma taxa de aproximadamente 21,08%, que, segundo sua apresentação, teria sido a maior desde 1998. O pesquisador questiona se a ausência pode ser explicada apenas pelo desencanto com a política, pelo desgaste da polarização ou pela insatisfação com as candidaturas.
“Alguém desencantado não fica duas horas na fila para tentar votar”, argumenta.
A declaração expressa a distinção que Horta procura estabelecer entre a decisão de não participar de uma eleição e a situação em que um eleitor pretende votar, mas enfrenta dificuldades que o impedem de concluir o procedimento. Para sustentar essa interpretação, contudo, seria necessário conhecer as razões concretas da ausência e identificar quantos eleitores encontraram obstáculos relacionados à informação eleitoral.
Os números gerais da abstenção não permitem estabelecer essa relação. A ausência pode decorrer de diferentes circunstâncias, como problemas de saúde, compromissos profissionais, dificuldades de deslocamento ou decisão de não comparecer. Sem dados específicos, não é possível determinar qual parcela dos eleitores deixou de votar por problemas informacionais.
Mudanças nos locais de votação e desigualdade digital
Outro ponto da exposição envolve alterações nos endereços de locais de votação. Horta afirma que, no Rio de Janeiro, 60 locais tiveram seus endereços modificados, com impacto sobre mais de 200 mil eleitores. Segundo ele, as mudanças foram justificadas por questões de segurança, e a comunicação aos eleitores teria ocorrido por meio do aplicativo e-Título.
O pesquisador questiona se a utilização desse canal foi suficiente para informar todos os cidadãos afetados. A preocupação se concentra especialmente nos eleitores com pouca familiaridade com aplicativos ou que não dispõem de conexão à internet. Para esses grupos, a consulta digital pode representar uma barreira adicional, sobretudo quando não há acesso a outros meios de confirmação das informações.
A existência de mudanças nos locais de votação, entretanto, não comprova que tenha ocorrido uma ação deliberada para impedir eleitores de participar. Uma investigação precisaria esclarecer como as alterações foram comunicadas, quais canais estavam disponíveis, quantos eleitores receberam as informações e se houve registros de pessoas que se dirigiram a endereços incorretos ou desistiram de votar.
Horta também relata uma observação feita no domingo da eleição. Segundo sua descrição, grupos de seis a 15 eleitores evangélicos eram conduzidos até suas seções eleitorais por pessoas que os acompanhavam e carregavam pequenos papéis com números de candidatos.
O relato é uma observação pessoal, sem indicação de que tenha sido produzido a partir de uma pesquisa representativa ou de um levantamento sistemático. Ainda assim, o pesquisador o utiliza para discutir as diferenças entre eleitores que contam com redes presenciais de orientação e aqueles que precisam buscar informações individualmente.
Na interpretação de Horta, a organização de grupos para comparecer às urnas pode facilitar o acesso às informações necessárias para votar. Em contrapartida, pessoas sem apoio semelhante podem depender exclusivamente dos canais digitais ou de informações obtidas por iniciativa própria.
Essa comparação, por si só, não demonstra que um grupo tenha sido favorecido ilegalmente ou que outro tenha sofrido uma ação de desinformação. Para estabelecer uma relação com o resultado eleitoral, seria preciso identificar quais informações circularam, quem as recebeu e quais consequências tiveram sobre o comparecimento.
Como pequenas diferenças poderiam afetar uma eleição
Horta apresenta um exercício matemático para ilustrar como dificuldades de votação, caso fossem distribuídas de maneira desigual entre eleitores de diferentes candidaturas, poderiam influenciar uma disputa com margem reduzida.
Na apresentação, ele menciona aproximadamente 470 mil seções eleitorais no país, com uma média de 330 eleitores por seção, além de 119 milhões de votos válidos para presidente. Com esses números como referência, constrói um cenário hipotético no qual parte dos eleitores seria impedida de votar em razão de informações incorretas.
Em um dos exemplos, o pesquisador considera que, a cada dez eleitores afetados, sete seriam eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva e três seriam eleitores de Jair Bolsonaro. Ele afirma que uma média de 12 eleitores por seção, dentro desse cenário, poderia deslocar o resultado em cerca de dois pontos percentuais na direção de Bolsonaro.
O exercício procura demonstrar como um efeito aparentemente pequeno em cada seção poderia adquirir relevância quando distribuído por milhares de locais de votação. O argumento depende, entretanto, de premissas que precisam ser verificadas, entre elas o número de eleitores efetivamente prejudicados, a preferência eleitoral dessas pessoas e a distribuição dos obstáculos entre os grupos políticos.
A apresentação relaciona essa hipótese ao primeiro turno de 2022. Naquele pleito, conforme os percentuais citados por Horta, Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. A diferença foi de 1,87 ponto percentual.
A proximidade entre os percentuais ajuda a compreender por que o pesquisador considera relevante investigar possíveis interferências na participação eleitoral. Ainda assim, a margem estreita não constitui evidência de que tenha ocorrido uma operação de microdesinformação. O cálculo apresentado é um cenário hipotético, e não uma estimativa baseada em eleitores identificados ou em ocorrências comprovadas.
Para demonstrar que dificuldades informacionais alteraram o resultado, seria necessário reunir evidências sobre a ocorrência desses problemas e estimar seus efeitos sobre a votação. Também seria preciso verificar se a distribuição dos eleitores prejudicados corresponde à proporção considerada no exercício matemático.
Pesquisas eleitorais e diferenças entre intenção de voto e comparecimento
A apresentação de Fernando Horta também aborda as diferenças entre algumas pesquisas eleitorais divulgadas antes do pleito de 2022 e o resultado oficial do primeiro turno. Segundo ele, determinados levantamentos chegaram a apontar uma vantagem de 11 a 14 pontos percentuais para Lula, enquanto a diferença registrada nas urnas ficou abaixo de dois pontos.
Horta interpreta essa discrepância como um possível sinal de que as pesquisas não estariam captando integralmente o comportamento eleitoral. Para desenvolver o argumento, ele diferencia a intenção de voto declarada pelos entrevistados da capacidade de comparecer às urnas e transformar essa preferência em um voto válido.
Na hipótese apresentada, uma pesquisa pode registrar a preferência de um eleitor sem conseguir antecipar todas as circunstâncias que influenciam sua participação no dia da votação. Entre os fatores que poderiam interferir nesse processo estariam dificuldades de deslocamento, informações incorretas sobre os locais de votação e problemas para acessar serviços digitais.
O pesquisador também afirma que, em sua interpretação, erros de previsão observados em diferentes eleições teriam apresentado uma direção recorrente favorável a Bolsonaro. “Erro com sinal não é erro, é viés”, declara, defendendo que essa regularidade merece investigação.
A afirmação exige uma comparação sistemática entre pesquisas e resultados eleitorais. Para verificar a existência de um viés recorrente, seria necessário considerar os institutos responsáveis pelos levantamentos, as datas de realização, as metodologias empregadas, as margens de erro e os diferentes cenários de votação.
As diferenças entre pesquisas e resultados oficiais podem ter diversas explicações, incluindo dificuldades de amostragem, mudanças nas intenções de voto durante a campanha e limitações na declaração das preferências dos entrevistados. A existência de erros em determinada direção não comprova, isoladamente, uma interferência deliberada na participação eleitoral.
A contribuição da hipótese de Horta, nesse ponto, está na proposta de examinar não apenas as preferências declaradas, mas também as condições que permitem aos eleitores participar efetivamente da votação. Essa investigação, porém, precisaria ser conduzida separadamente da análise dos erros das pesquisas, uma vez que são fenômenos distintos e exigem evidências específicas.
Microdesinformação e os limites das denúncias eleitorais
Na parte final da exposição, Horta defende que o TSE disponibilize informações capazes de permitir uma avaliação mais precisa das condições de acesso ao voto. Ele argumenta que a ausência desses dados impede testar sua hipótese e avaliar se houve problemas relevantes nas etapas anteriores à votação.
O pesquisador também menciona uma declaração do ministro Nunes Marques sobre a normalidade do processo eleitoral e a divulgação de uma redução de 86% nas denúncias de desinformação. A partir dessas referências, propõe uma distinção entre campanhas de desinformação de grande alcance e práticas que atingiriam públicos menores, de maneira segmentada.
A hipótese de microdesinformação apresentada por Horta considera a possibilidade de que mensagens incorretas sejam direcionadas a grupos específicos, sem produzir necessariamente denúncias formais. Isso poderia ocorrer, segundo o argumento, quando os destinatários não percebem que receberam informações falsas ou não dispõem de meios para verificar sua veracidade.
A possibilidade conceitual, contudo, não comprova que esse tipo de ação tenha ocorrido nas eleições brasileiras de 2022. Para demonstrá-la, seria necessário identificar as mensagens disseminadas, os responsáveis por sua circulação, os públicos alcançados e os efeitos concretos sobre o comparecimento às urnas.
Da mesma forma, a redução no número de denúncias não permite concluir, isoladamente, que todas as formas de desinformação tenham diminuído na mesma proporção. A interpretação desses números depende dos critérios utilizados para registrar ocorrências, dos mecanismos disponíveis para denunciá-las e da capacidade de identificar práticas que não chegam ao conhecimento das autoridades.
Horta sustenta que a análise da integridade eleitoral deve considerar também as condições informacionais que antecedem a votação. Sua reivindicação é que o TSE forneça os dados necessários para investigar se eventuais obstáculos foram distribuídos de maneira desigual e se produziram efeitos mensuráveis sobre a participação eleitoral.
A questão central permanece em aberto: houve eleitores que deixaram de votar por causa de informações incorretas ou dificuldades de acesso aos serviços eleitorais, e, em caso afirmativo, qual foi o impacto sobre o resultado? A resposta depende de evidências que permitam distinguir a hipótese de situações efetivamente documentadas.
A apresentação de Fernando Horta formula uma linha de investigação, mas não comprova a existência de uma operação coordenada de microdesinformação nem demonstra que o resultado de 2022 tenha sido alterado por esse mecanismo. A divulgação e a análise dos dados solicitados poderiam contribuir para confirmar ou refutar a hipótese.