Nádia alerta para risco à democracia e traça estratégia de “rua e redes” para vitória de Lula

Com o segundo turno das eleições presidenciais marcado para o dia 25 de outubro, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro entrou em sua fase mais crítica. Nesta quinta-feira (8), a presidenta nacional interina do PCdoB, Nádia Campeão, esteve no programa Entrelinhas Vermelhas, apresentado por Inácio Carvalho, para analisar os resultados do primeiro turno, os riscos representados pela extrema direita e a estratégia necessária para garantir a reeleição do presidente Lula.

Assista a íntegra da entrevista:

Desempenho do PCdoB: Dobro da bancada federal

Antes de entrar na análise do pleito presidencial, Nádia avaliou positivamente o desempenho do PCdoB nas eleições legislativas. Segundo ela, o Partido manteve total inserção na campanha de Lula e nas disputas majoritárias do campo democrático, com um discurso claro de defesa da soberania nacional, da reindustrialização e do combate ao neoliberalismo.

O resultado concreto foi considerado “muito positivo” pela dirigente. O PCdoB praticamente dobrou sua representação na Câmara dos Deputados, saltando de seis para 11 parlamentares eleitos. A nova bancada é marcada por uma forte presença feminina (sete deputadas) e por nomes renovadores que obtiveram votações expressivas, como Giovana Mondardo (SC), Elias Jabbour (RJ) e Olívia Santana (BA), todos com mais de 100 mil votos. Também retornou à Câmara a deputada Perpétua Almeida.

No entanto, Nádia reconheceu perdas significativas, lamentando a não reeleição de veteranos como Orlando Silva (SP) e Renildo Calheiros (PE), além da deputada Enfermeira Rejane (RJ). “São deputados de muita experiência e respeito no Congresso. Vai fazer uma falta imensa”, afirmou.

Interferência externa e o papel da mídia

Sobre o cenário que levou ao segundo turno com Flávio Bolsonaro em vantagem, Nádia apontou para uma conjuntura de “disputa dura e equilibrada”, agravada por fatores externos e internos. Ela destacou a ingerência dos Estados Unidos, sob a influência de Donald Trump, que teria respaldado a extrema direita latino-americana desde o ano anterior.

“A extrema direita brasileira está abrigada nos Estados Unidos, impune, conspirando contra o Brasil”, denunciou Nádia, citando o núcleo liderado por Eduardo Bolsonaro. Ela também relacionou essa interferência ao “tarifaço” e às sanções contra o Supremo Tribunal Federal (STF), estratégias usadas para desgastar o governo Lula.

Para a presidenta do PCdoB, a grande mídia brasileira teve papel crucial nesse processo ao criar uma narrativa de “equivalência moral”, tratando casos menores envolvendo o campo democrático com a mesma gravidade – ou maior destaque – do que escândalos bilionários como o do Banco Master, que envolveu diretamente a família Bolsonaro. “Criaram um ambiente de quase caos, culpando o governo”, analisou.

Além disso, Nádia identificou a campanha pelo impeachment de ministros do STF como um mote que unificou e galvanizou o eleitorado da direita, garantindo a eleição de senadores aliados a Bolsonaro com a promessa de mudar a composição da Corte.

O risco real: Fim do ciclo da Nova República

Ao ser questionada sobre o que representa a candidatura de Flávio Bolsonaro, Nádia foi enfática: não se trata apenas de uma troca de governo, mas de uma ameaça existencial à democracia brasileira pós-1988.

“O que pode acontecer com a eleição do Flávio Bolsonaro é o fim de um ciclo político importantíssimo iniciado após a ditadura militar”, alertou. Segundo ela, Flávio Bolsonaro é a continuidade direta do projeto de seu pai, Jair Bolsonaro, que inclui anistia aos golpistas, confronto com o STF e a intenção de reformar a Constituição para instaurar um regime autoritário.

“Ele vai tirar essa turma [do Supremo], vai anistiar, vai confrontar imediatamente com a Constituição para trazer de volta um novo regime”, explicou Nádia. Ela destacou que as políticas públicas conquistadas nas últimas décadas, como o SUS, a educação pública e a Previdência, estão sob risco direto, pois representam o oposto do projeto neoliberal e antissocial da extrema direita.

Estratégia para a virada: “Cada dia vale uma semana”

Diante do desafio, Nádia traçou a estratégia para os 18 dias restantes até a eleição. Para ela, a chave da vitória está na conscientização massiva da população sobre o que está em jogo: direitos fundamentais, reajuste do salário mínimo, Bolsa Família e a própria soberania nacional.

“Nós vamos ganhar porque muita gente está compreendendo o risco. A população percebe que, com Flávio Bolsonaro, perde-se tudo. É uma tragédia social anunciada”, afirmou.

A dirigente defendeu uma mudança de tática nas campanhas de “rua e redes”:

  • Ruas: As manifestações devem deixar de ser apenas grandes passeatas genéricas e passar a ter caráter capilarizado. É necessário ir às comunidades, centros comerciais, pontos de ônibus e bairros onde houve alta abstenção ou votos nulos, conversando diretamente com o eleitor indeciso.
  • Redes: É preciso unificar as mensagens e engajar dezenas de milhões de pessoas de forma organizada, evitando o “mosaico” de discursos dispersos. O foco deve ser grupos de WhatsApp e conversas pessoais, explicando de forma direta quem é Flávio Bolsonaro e o que sua eleição representa.

Nádia elogiou a reação rápida da juventude e dos estudantes, que já ocuparam as ruas logo após o primeiro turno, ajudando a superar a perplexidade inicial. “Os estudantes foram para a rua e criaram um clima de luta. Isso não será esquecido”, disse.

Encerrando a entrevista, a presidenta do PCdoB reforçou a urgência do momento: “Cada dia equivale a uma semana. Não se pode perder nenhum minuto. Menos reunião, mais ação.”

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