
A busca por mais tempo livre está mudando a relação de trabalhadores europeus com o emprego e desafia empresas que pretendem ampliar jornadas, avalia Paul Ferreira, professor de Estratégia e Liderança da Fundação Getulio Vargas (FGV). Em entrevista ao podcast DW Revista, apresentado por Guilherme Becker, ele afirmou que o movimento revisa o lugar ocupado pelo trabalho na vida das pessoas.
Para Ferreira, o emprego deixa de funcionar como eixo exclusivo da realização pessoal. Ele identifica uma disposição maior para aproveitar o presente, em vez de condicionar a felicidade a uma recompensa futura após anos de sacrifício.
O professor considera que essa transformação aparece com mais força na Europa e não pode ser facilmente revertida por governos ou empregadores. A mudança de valores pressiona empresas a lidar com expectativas diferentes de suas equipes.
Ferreira também relaciona a falta de engajamento a problemas de liderança e gestão de pessoas. Ele defende que as companhias criem condições para os profissionais usarem suas competências, encontrarem oportunidades de crescimento e atribuírem sentido às tarefas.
Semana de quatro dias exige redesenho das tarefas
Na avaliação do especialista, empregadores precisam rever a relação com os trabalhadores e ampliar sua autonomia. Benefícios e melhores salários ajudam, mas ele diz que a discussão envolve a própria organização da economia, marcada pela expansão do setor de serviços e pela desindustrialização em países europeus.
A semana de quatro dias entrou nessa discussão com a proposta de reduzir o tempo de trabalho sem cortar salários e manter a produtividade. Ferreira vê valor nos projetos experimentais, mas afirma que a relação entre jornada menor e resultados é mais complexa do que sugerem análises favoráveis ao modelo.
Os efeitos podem variar entre setores e grupos de trabalhadores. Uma empresa pode precisar reorganizar atividades, distribuir novamente as responsabilidades e adaptar processos para cumprir a redução da jornada sem sobrecarregar parte da equipe.
Ferreira distingue jornada menor de flexibilidade: trabalhar menos dias não garante liberdade para escolher horários ou locais de trabalho. Ele afirma que os testes devem produzir dados sobre distribuição de tarefas, monitoramento e possíveis desigualdades criadas pela adoção do modelo.