
O argentino Alejandro Mancuso, ex-volante de Palmeiras e Flamengo, oferecia a jogadores brasileiros licenças de treinador da Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA) por cerca de R$ 100 mil, segundo investigação do UOL. A promessa envolvia o envio, em até dez dias, de certificados dos níveis C, B, A e PRO, sem a conclusão da formação regular exigida pela entidade.
Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Dejan Petkovic e Paulinho estão entre os atletas citados como clientes. A ATFA afirmou que toda a documentação enviada por Mancuso é falsa e declarou que ele não integra sua diretoria, não tem vínculo contratual com a associação nem autorização para representá-la.
Em áudios obtidos pela reportagem, Mancuso se apresentava como “diretor internacional da ATFA” e dizia ter respaldo do presidente e do setor jurídico da instituição para “facilitar a vida dos feras”. Ele orientava compradores a dizer que haviam feito três anos de curso on-line, embora não tivessem participado das aulas e avaliações previstas.
A formação regular da ATFA segue uma progressão de três anos, da licença C à PRO, com cursos de seis a 13 meses. Há possibilidade de cursar disciplinas simultaneamente, mas a entidade mantém controle sobre as etapas de ensino.
Ex-jogadores relataram compra e desconfiaram dos certificados

Felipe Melo disse que passou a suspeitar das licenças quando cobrou aulas presenciais e Mancuso não marcou nenhuma data. “Pensei: ‘Isso aqui tá errado’”, afirmou o ex-jogador, que retirou a referência à ATFA de suas redes sociais e disse ter conseguido reembolso.
Alex de Souza declarou que recebeu os certificados pelo correio depois de preencher documentos enviados por Mancuso. O ídolo do Palmeiras, que já havia concluído os cursos da CBF Academy, reconheceu que buscava uma facilidade, mas afirmou que nunca usou a licença argentina nem tentou homologá-la na Conmebol.
Petkovic informou que sua licença está suspensa porque ele não cumpriu a etapa presencial. Diego Lugano declarou que realizou a parte teórica pela internet, mas não compareceu à fase presencial. Thiago Silva disse, por meio de sua assessoria, que pagou por cursos que não ocorreram como prometido e recebeu os certificados no fim de 2023, sem utilizá-los.

Os documentos analisados apresentavam cópias autenticadas em vez de originais, QR codes que não levavam a páginas válidas, datas retroativas e erros de preenchimento. No certificado de Alex de Souza, por exemplo, consta “futsal” no campo em que deveria aparecer “fútbol”; já a licença de Luiz Gustavo traz erro na grafia de seu nome.
A Conmebol informou que treinadores precisam cumprir os requisitos definidos pelas associações nacionais para solicitar licenças. Os atletas citados não apresentaram à CBF a autorização necessária para se matricular em cursos de treinador fora do Brasil.
Mancuso negou ter vendido diplomas ou recebido depósitos de jogadores. “Eu nunca fui da ATFA, sou apenas um comentarista de rádio”, disse. A Justiça Federal argentina investigou em 2025 a suposta emissão irregular de licenças, realizou busca na sede da ATFA e arquivou o caso em dezembro daquele ano por inexistência de crime, conforme comunicado da entidade.