A três semanas do 2º turno, Lula precisa colocar o bolso do brasileiro no centro da pauta

A menos de três semanas do momento decisivo nas urnas, o cenário eleitoral impõe um alerta urgente às forças progressistas, que passa pela comunicação do governo. É preciso reajustar a rota, recuperar uma perspectiva de futuro e voltar a dialogar com as maiorias populares, priorizando as preocupações concretas de quem está na ponta.

O diagnóstico é do publicitário e comunicador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e idealizador do Data Favela, durante a live especial de apuração da TV GGN. Pesquisador há décadas do comportamento social e econômico das classes C e D, Meirelles avalia que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva caiu em uma armadilha narrativa ao trocar a perspectiva de futuro por pautas distantes do prato de comida do brasileiro.

O “voto conservador” em Lula

A análise de Renato Meirelles traz ainda um paradoxo incômodo para a esquerda. Nesta eleição, o voto em Lula assumiu um caráter defensivo e conservador. As pessoas não estão votando projetando uma transformação adiante, mas pela segurança do “certo contra o duvidoso”.

“Essa é a primeira eleição em que as pessoas não estão votando no Lula pensando no futuro. Os mais velhos, que tiveram a sua vida modificada, que deixaram de passar fome, que viajaram de avião pela primeira vez, votam no Lula por gratidão e votam pela certeza, pela segurança e pelo conservadorismo. Essa é uma eleição em que o Lula é o voto conservador. As pessoas estão votando porque sabem: ‘Olha, eu posso não estar feliz, não acho que o Lula vai me dar o futuro que eu espero, mas com o Lula eu sei o que vai acontecer. E o outro é um buraco negro’.”

Segundo Meirelles, embora represente essa ideia de “certeza”, o governo atravessou o mandato sem conseguir ampliar sua base social ou mobilizar o eleitorado em torno de um novo projeto. “O Lula tem hoje a mesma popularidade que tinha no início do mandato. Ele não ganhou um único eleitor, não ganhou um único cidadão brasileiro para a sua proposta de governo. E por quê? Porque ele ficou preso no passado.”

Terras raras versus a prateleira do supermercado

Um dos principais pontos levantados por Meirelles é a distância entre o discurso do governo sobre temas macroeconômicos e geopolíticos e as preocupações concretas da população, especialmente nas periferias. Por exemplo, questões como soberania e terras raras são importantes, mas precisam ser conectadas ao cotidiano do eleitor.

“O Lula ficou falando de terras raras enquanto o brasileiro queria saber o que era possível ser feito para comprar mais no supermercado. Você me conhece o suficiente para saber que eu não subestimo a importância da discussão sobre terras raras para a geopolítica internacional. Só que, do ponto de vista do eleitorado, não importa.”

Durante a conversa, Nassif ponderou que seria possível estabelecer uma relação entre esses grandes temas e questões concretas, como a geração de empregos qualificados para jovens formados nas universidades. O problema é que essa conexão não está sendo feita pela comunicação oficial.

“O meu tempo vale mais do que a CLT”

O distanciamento entre o governo e parte do eleitorado também aparece na forma como o mundo do trabalho mudou. Formado na tradição sindicalista, Lula enfrenta hoje uma população cujas expectativas em relação ao emprego e à autonomia profissional são diferentes das que existiam no início de sua trajetória política.

“O presidente Lula não tem mais um entendimento tão próximo da realidade do dia a dia do brasileiro como tinha em 2002. E talvez a melhor forma de expressar isso seja a compreensão sobre o trabalho. O Lula cresceu para fazer com que a CLT fosse acessível ao maior número de pessoas. E ele disputa a chance de um mandato com um eleitor que está dizendo para ele: ‘O meu tempo vale mais do que a CLT’. E ele não entendeu isso”, explica Meirelles.

O pesquisador também critica a tendência de tratar o trabalho autônomo e por plataformas apenas como sinônimo de precarização. Isso porque há nas periferias um desejo de autonomia e empreendedorismo que não pode ser ignorado, desde o motorista de aplicativo até a dona de casa que montou o próprio negócio de delivery.

“A gente não está falando só de Uber. Estamos falando das mais de 100 mil cozinheiras que criaram uma ‘dark kitchen’. A filha fez a logomarca do restaurante, ela passa a entregar via aplicativo e virou dona do próprio tempo. Só que o trabalho CLT hoje também foi precarizado pelas reformas e pelo Supremo. Aí o governo, ao invés de reconhecer a realidade dessa mãe de família, que chefia 53% dos lares da classe C, vira para ela e fala: ‘Você é uma precarizada, não sabe o que é melhor para você. A solução é pagar imposto para ter previdência’. O governo não entendeu essa dinâmica.”

Em linhas gerais, o governo precisa parar de falar apenas para quem já está convencido e apresentar uma visão de futuro capaz de se conectar com as novas aspirações das periferias e com a vida concreta da população.

Assista a um trecho da entrevista abaixo:

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