Futuro dos Correios está em jogo no segundo turno: CTB alerta para risco de privatização e defende reconstrução da estatal

Disputa do segundo turno coloca em jogo projetos opostos para a estatal: de um lado, a proposta de reestruturação e modernização com controle público; de outro, a retomada da agenda de privatização e o fim do monopólio postal

O resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 terá impacto direto sobre o futuro dos Correios. Os dois projetos em disputa apresentam visões distintas para a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT): enquanto o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia um plano de reestruturação e modernização da estatal, a candidatura de Flávio Bolsonaro retoma a perspectiva de privatização e de transferência da administração e dos ativos da empresa para a iniciativa privada.

Para os trabalhadores dos Correios, a eleição representa uma decisão estratégica não apenas sobre o futuro da empresa, mas também sobre a manutenção de uma estatal responsável por garantir o serviço postal em todo o território nacional.

Governo Lula anuncia plano de modernização

Depois de um período marcado por dificuldades financeiras e operacionais, o governo Lula anunciou, no final do mandato, um plano de reestruturação dos Correios. A proposta prevê um aporte inicial de R$ 6 bilhões, incluído no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027, com o objetivo de reforçar o caixa da empresa, garantir liquidez e criar condições para o pagamento de dívidas e a retomada da capacidade de investimento.

A iniciativa busca dar sustentação a um processo de modernização da estatal, preservando seu caráter público e sua função estratégica para o país.

A demora na adoção das medidas, entretanto, é alvo de questionamentos entre os trabalhadores. A avaliação apresentada pelo governo é de que a correlação de forças no Congresso Nacional e a pressão política e midiática favorável à privatização dificultaram a implementação de uma política mais ampla de recuperação dos Correios durante o mandato.

Para o secretário-geral da CTB, Ronaldo Leite, a recuperação da empresa precisa estar vinculada à valorização dos trabalhadores e à garantia de um serviço público de qualidade.

“Os Correios são uma empresa estratégica para o Brasil e não podem ser tratados como uma mercadoria. A experiência recente mostrou que o sucateamento de uma estatal pode ser utilizado como argumento para justificar sua entrega à iniciativa privada. É preciso recuperar a capacidade de investimento, valorizar os trabalhadores e garantir um serviço postal público, de qualidade e acessível a toda a população. O segundo turno coloca em disputa dois projetos muito claros: a reconstrução dos Correios como empresa pública ou a retomada da agenda de privatização”, afirma Ronaldo Leite.

Mobilização dos trabalhadores barrou privatização

A defesa dos Correios como empresa pública também passa pela mobilização dos trabalhadores. Durante o governo Jair Bolsonaro, a privatização da estatal esteve entre as principais propostas da agenda econômica.

Naquele período, foi apresentado no Congresso Nacional um projeto para viabilizar a privatização dos Correios. A proposta enfrentou forte resistência dos trabalhadores e de setores da sociedade, que se mobilizaram contra a entrega da empresa à iniciativa privada.

A categoria também denunciou o corte de investimentos, a falta de funcionários, os problemas de manutenção e renovação da frota e a defasagem tecnológica. As dificuldades se agravaram justamente em um período de forte expansão do comércio eletrônico, impulsionada pela pandemia de Covid-19.

Para os trabalhadores, o processo de sucateamento pode acabar sendo utilizado como justificativa para defender a privatização da empresa.

Privatização volta ao centro do debate

A candidatura de Flávio Bolsonaro apresenta uma perspectiva diferente para os Correios. A proposta retoma a agenda de privatização defendida durante o governo de seu pai e prevê a transferência da administração e dos ativos logísticos da estatal para empresas privadas, além do fim do monopólio postal.

Na prática, a medida representaria uma mudança profunda no modelo de prestação do serviço postal brasileiro e reduziria o papel do Estado em uma área estratégica para a população.

O risco apontado pelos trabalhadores é que a lógica de mercado passe a determinar a oferta dos serviços, priorizando as operações mais rentáveis e deixando em segundo plano regiões onde a prestação do serviço é fundamental, mas pouco atrativa financeiramente para empresas privadas.

A experiência de outras privatizações também é utilizada pelos críticos da proposta para alertar sobre possíveis impactos para os trabalhadores e usuários, como aumento da pressão por produtividade, redução de direitos e mudanças nas condições de prestação dos serviços.

Uma decisão que também envolve os trabalhadores

Para o secretário de Comunicação Social da CTB, Douglas Melo, a defesa dos Correios precisa ser compreendida como parte da luta em defesa dos serviços públicos, do patrimônio nacional e dos direitos da classe trabalhadora.

“Defender os Correios é defender o patrimônio público, os empregos e o direito da população a um serviço essencial. A privatização não pode ser apresentada como solução para os problemas da empresa. O caminho é garantir investimentos, modernização, tecnologia e valorização dos trabalhadores. Neste segundo turno, a classe trabalhadora precisa estar atenta ao projeto que está em jogo e se mobilizar para impedir que uma empresa estratégica para o país seja entregue à iniciativa privada”, afirma Douglas Melo.

A definição sobre o futuro dos Correios estará diretamente ligada ao resultado das urnas. De um lado, está a proposta de utilizar recursos e garantias públicas para recuperar e modernizar a estatal, mantendo o controle do Estado. De outro, está a possibilidade de retomada de um projeto de privatização, com transferência da empresa para a iniciativa privada.

Mais do que uma escolha sobre o modelo de gestão dos Correios, o segundo turno coloca em debate o papel do Estado na garantia de serviços essenciais e na proteção dos direitos da classe trabalhadora.

Para os trabalhadores, defender os Correios significa defender empregos, direitos trabalhistas e a garantia de que o serviço postal continue chegando a todos os brasileiros, independentemente de sua região ou da rentabilidade da operação.

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