Da Redação
O ex-agente da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) John Kiriakou afirmou nesta segunda-feira (5) que a agência norte-americana estaria “potencialmente intervindo” nas eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro (PL). A declaração foi publicada nas redes sociais e ganhou repercussão no momento em que o Brasil se prepara para o segundo turno da eleição presidencial. Kiriakou, porém, não apresentou documentos ou outras evidências públicas capazes de comprovar a suposta operação.
Kiriakou inicialmente afirmou que havia conversado com o “presidente Bolsonaro” três anos atrás, quando ele ainda era candidato, e declarou que havia “evidências críveis” de envolvimento da CIA na disputa eleitoral. Na sequência, corrigiu a informação e esclareceu que a conversa mencionada havia ocorrido com o Presidente Lula, e não com Jair Bolsonaro. Em nova publicação, afirmou que a suposta atuação da CIA seria em favor de Bolsonaro, em referência à candidatura de Flávio.
A correção altera um ponto importante do relato inicial, mas não veio acompanhada da apresentação das evidências citadas pelo ex-agente. Até o momento, não há manifestação pública da CIA confirmando a acusação nem documentação divulgada que permita verificar a existência de uma operação da agência para interferir na eleição brasileira. Por isso, a denúncia deve ser tratada como uma alegação feita por Kiriakou, e não como uma interferência comprovada.
A declaração surge depois de uma série de episódios que colocaram a possibilidade de interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro no centro do debate. Reportagem do New York Times publicada no fim de setembro apontou que autoridades brasileiras haviam preparado medidas para proteger as eleições de uma possível interferência do governo de Donald Trump. Segundo o jornal, havia preocupação com uma atuação norte-americana semelhante à observada em outros processos eleitorais na América Latina.
A relação entre o governo Trump e a candidatura de Flávio Bolsonaro já havia sido objeto de outros episódios ao longo de 2026. Em julho, o Metrópoles informou que o governo brasileiro havia negado visto a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam viajar ao Brasil para discutir temas relacionados à liberdade de expressão e às eleições. Segundo fontes citadas pela publicação, a agenda incluía uma reunião com Flávio Bolsonaro e contatos com autoridades eleitorais.
Também em setembro, o Metrópoles revelou que contas registradas fora do Brasil no X estariam impulsionando publicações favoráveis a Flávio Bolsonaro. O candidato Renan Santos (Missão) levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral, acusando perfis norte-americanos ligados a Donald Trump de promover conteúdo pago destinado ao eleitorado brasileiro. A denúncia de Renan é outro episódio relacionado à discussão sobre eventual influência estrangeira na eleição, embora seja distinta da acusação agora feita por Kiriakou.
A trajetória de Kiriakou ajuda a explicar a repercussão de suas declarações. Ele trabalhou na CIA durante aproximadamente 15 anos e ganhou notoriedade internacional em 2007, quando revelou informações sobre o uso de tortura pela agência em interrogatórios. Em 2013, foi condenado nos Estados Unidos a 30 meses de prisão após um processo relacionado à divulgação da identidade de um agente da CIA.
O histórico do ex-funcionário, contudo, não substitui a necessidade de comprovação da acusação específica feita nesta segunda-feira. A existência de operações clandestinas da CIA em diferentes momentos da história não demonstra, por si só, que uma ação desse tipo esteja ocorrendo no Brasil em 2026. Para estabelecer essa conexão seriam necessários documentos, registros ou outras evidências independentes que possam ser verificadas.
A acusação ocorre em um cenário particularmente sensível. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência contra o Presidente Lula, enquanto a relação entre setores da direita brasileira e integrantes do governo Trump já provocou episódios diplomáticos e políticos ao longo da campanha. A possibilidade de influência estrangeira no processo eleitoral brasileiro também vem sendo acompanhada pelas autoridades brasileiras.
Até o momento, portanto, o que existe é uma acusação pública de um ex-agente da inteligência norte-americana sobre uma possível atuação da CIA em favor de Flávio Bolsonaro. Kiriakou afirma possuir informações que sustentariam sua avaliação, mas ainda não tornou públicas as evidências. O conteúdo poderá ganhar novos elementos caso o ex-agente apresente documentos ou detalhes verificáveis sobre a suposta interferência.