
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Você passou os últimos meses se desgastando no grupo da família, bloqueando amigos de infância nas redes sociais, assistindo a debates até a madrugada, defendendo seu candidato à Presidência da República como se estivesse defendendo um parente querido. Chegou o domingo da eleição e já decorou o número do presidenciável. Mas me responda com sinceridade: em quem diabos vai votar para deputado/deputada?
Se, a esta altura, a sua resposta for “ainda estou pensando”, “vou ver na fila” ou “pego um santinho no chão da escola”, parabéns: você caiu na maior e mais perigosa armadilha da política brasileira.
O eleitor médio foi condicionado a enxergar a Presidência como uma monarquia absolutista e o Congresso Nacional como mero elenco de apoio. Acontece que a realidade não opera nessa lógica infantil. Quem define o tamanho do orçamento da saúde, da educação e da segurança pública é o parlamento. Quem aprova ou barra reformas da Previdência, quem decide sobre as regras tributárias e quem mexe nos seus direitos trabalhistas mais básicos são os deputados e senadores.
O presidente da República pode até propor, mas a Câmara decide o que vira lei, o que vai para a gaveta e o que vai para o lixo. Mais do que isso: são os congressistas que hoje controlam bilhões de reais em emendas parlamentares, decidindo para onde vai a riqueza produzida pelo seu trabalho. E, quando o clima esquenta, são eles que chantageiam, seguram ou simplesmente derrubam qualquer governante. Tratar o Legislativo como figurante é pura ingenuidade cívica.

Depois não adianta ir para as redes sociais chorar porque a aposentadoria ficou inalcançável ou porque o custo de vida aumentou enquanto o salário encolheu. Foi você quem terceirizou o poder de decisão para quem governa contra você.
A boa notícia é que ainda dá tempo. Se você está na fila da seção eleitoral agora, tire o telefone do bolso. Em vez de rolar feed de dancinha ou mandar indireta para o amigo que vota em Lula ou em Flávio, use a internet a favor da sua sobrevivência.
É muito fácil dar um Google. Descubra, por exemplo, quem votou contra o fim da escravizante escala 6×1 de trabalho. Veja quem votou para perdoar dívida de bilionário enquanto cortava recursos de creches e postos de saúde. Procure os deputadas e deputados que ganharam dinheiro ou mordomias de donos de bets.
O Congresso é a estrutura de sustentação da casa. Se você cuida da pintura da fachada com fervor quase religioso, mas entrega as colunas de sustentação para quem quer ver o teto desabar sobre a sua cabeça, não reclame dos escombros amanhã. E, alerta de spoiler, em algum momento, eles vão cair.