Não é apenas fascismo, é um sequestro: A disputa pela revolta material do novo proletariado
Por Ulysses N. Campos
A tarefa diante de nós não admite a covardia do luto moral nem a repetição de ladainhas institucionais. Diante de um pleito que empurra o país para uma encruzilhada conflagrada, a vitória do campo popular depende de uma ruptura imediata com a linguagem da derrota. É preciso dar nome ao que está acontecendo: a base trabalhadora periférica que hoje vota contra a esquerda não se converteu em massa ao ideário fascista; ela foi sequestrada em suas urgências materiais. E um refém não se resgata com sermões professorais, mas com a capacidade de disputar, no chão do mundo real, as dores que motivaram a sua captura.
Para realizar esse resgate, o primeiro fetiche a ser implodido é a defesa abstrata da “democracia”. Enquanto insistirmos em tratar a democracia como um valor frio, um conjunto de liturgias procedimentais, ritos de tribunal e discursos formais sobre a solidez das instituições, continuaremos falando para o vazio. Para quem habita a periferia do capitalismo, a institucionalidade burguesa nunca foi um abrigo idílico, mas uma engrenagem hostil que se materializa na burocracia que asfixia, no imposto regressivo sobre a comida e na violência sem freio. A democracia que importa, a única capaz de quebrar o encanto do extremismo, não é um conceito retórico de gabinete, mas uma força de intervenção material no mundo real: a capacidade concreta de garantir o teto, o meio de trabalho, a integridade física e o tempo de viver.
É a partir dessa crueza material que se desfaz o maior mal-entendido da análise política contemporânea: a incompreensão sobre os chamados “valores tradicionais”. A crítica liberal e de certa esquerda acadêmica se equivoca ao rotular o apego da periferia à família e à ordem como atraso moral ou alienação religiosa. Trata-se de uma cegueira de classe imperdoável. Os valores reivindicados pela base popular já são ‘tradicionais’ para as classes dominantes, que sempre os tiveram como hábito garantido e naturalizado; mas o direito a esse mesmo legado e a essa estabilidade é um direito humano fundamental que a burguesia historicamente sonegou às classes despossuídas.
Para as elites e as frações médias consolidadas, o legado familiar é assegurado por instrumentos patrimoniais: heranças imobiliárias, carteiras de investimento, escolas de elite e redes de influência institucional que blindam sua prole antes mesmo do nascimento. Mas o que a ordem capitalista sempre reservou ao trabalhador periférico? A condição de força de trabalho descartável, o extermínio precoce de sua juventude e a negação sistemática do direito de construir uma linhagem e um destino.
Nada ilustra com mais crueza essa violência de classe do que a recorrente e perversa ingerência liberal sobre o planejamento familiar dos vulneráveis, sintetizada no senso comum patronal de que “quem recebe Bolsa Família não deveria ter filhos”. Sob o disfarce de responsabilidade fiscal ou racionalidade demográfica, manifesta-se o mais puro ódio higienista: a burguesia não tolera que o pobre reivindique o direito de multiplicar a própria vida, de amar, de constituir prole e de ter um legado tangível no mundo. Para quem não possui um palmo de terra ou um centavo no banco, a família não é um fetiche patriarcal; é a única fronteira de soberania, o único santuário de amparo mútuo e a única riqueza inalienável contra a moedora de carne da precariedade.
Quando o aparato estatal, muitas vezes colonizado pelo iluminismo enlatado de classe média, é percebido como um agente que busca tutelar, fiscalizar ou ditar de cima para baixo como essa classe deve criar e orientar seus próprios filhos, aciona-se um alarme de sobrevivência biológica. Torna-se incontornável a percepção da carga regressiva da presença estatal no cotidiano: a mão do Estado pesa tanto mais quanto menor é a renda, operando como amarra cartorial e punitiva em lugar de garantia de direitos.
A extrema-direita não inventou essa angústia; operou o sequestro tático dessa legítima revolta. Aqui cabe um destaque crucial: o fascismo real não habita o coração do trabalhador que luta pelo pão; ele reside na cúpula dirigente da extrema-direita, que opera em simbiose com o capital rentista e ambiciona o controle da força estatal para uma finalidade estrita de classe: usar a violência econômica e o aparato repressivo para esmagar os pisos salariais, retirar direitos e moer a carne do povo em favor da acumulação oligárquica. Trata-se de um sequestro perverso justamente por assentar-se em uma fraude calculada: a liderança extremista mobiliza a retórica moral e religiosa para capturar a base, enquanto seu programa econômico real atua para aprofundar a espoliação e a miséria que destroem, na raiz, a própria família que ela jura defender.
O mesmo raciocínio aplica-se à segurança pública. A demanda popular por ordem e proteção não nasce do sadismo punitivista nem do endosso à letalidade das forças repressivas que historicamente tomam a juventude negra e periférica como alvo descartável; nasce, antes, da necessidade desesperada de proteger o único lastro material que o trabalhador possui, suas ferramentas de trabalho e subsistência — a motocicleta do entregador, o celular do motorista, a mercadoria do MEI — contra a espoliação do crime na esquina escura.
A elite tem condomínios fechados e escolta privada; a periferia tem apenas a reivindicação da força da lei e da presença do Estado para não ver seu ganha-pão evaporar da noite para o dia. A classe trabalhadora não quer o massacre de seus próprios filhos; quer a garantia de voltar viva para casa com o fruto do seu trabalho. Tratar a exigência de segurança pública como se fosse um desvio reacionário é a confissão de que a esquerda abandonou o trabalhador à própria sorte na selva urbana.
A disputa pelo novo proletariado exige, portanto, tomar a bandeira das mãos do sequestrador e devolvê-la à sua matriz de classe. Se o Lulismo já opera como a comprovada tecnologia de blindagem do estômago e de garantia do piso biológico, o campo popular precisa agora disputar a outra ponta dessa superposição de estados: provar que a verdadeira defesa da família, da segurança e da soberania popular só é realizável pelo desmantelamento da usura do capital rentista e pela democratização radical das condições de existência.
A recente e fulgurante mobilização de massas pelo fim da jornada de trabalho 6×1 ofereceu a chave de ouro dessa reconciliação histórica. Exigir o encerramento da escala de trabalho exaustiva é a defesa mais radical e material da família já formulada neste século: o resgate do direito ao tempo livre para estar com os filhos, para cuidar dos seus, para permitir que a mãe trabalhadora não adoeça de exaustão e que o jovem periférico possa estudar à noite sem colapsar fisicamente. A luta contra a escala 6×1 unifica o combate à exploração patronal com a proteção do núcleo comunitário, arrancando essa pauta das mãos da reação e plantando-a no solo fértil da emancipação trabalhadora.
A democracia não se salvará conclamando o povo a venerar os palácios de onde emanam os juros que o endividam e as leis que o precarizam. A democracia só se salvará se demonstrar, na prática, que é a ferramenta capaz de arrancar do orçamento a proteção da mesa, de garantir a segurança das ferramentas de vida e de devolver ao trabalhador o direito soberano sobre o seu tempo e a sua linhagem.
A tarefa decisiva da disputa eleitoral nesta conjuntura não é catequizar a periferia: é resgatá-la pelo reconhecimento de que sua revolta contra a asfixia do sistema é justa. O povo quer a democracia que cabe na vida real. Cabe ao campo popular ter a coragem de entregar a ele o que a burguesia sempre lhe negou.
Ulysses N. Campos é pesquisador independente e ensaísta, autor de “O voto na periferia” (site A Terra é Redonda: https://aterraeredonda.com.br/o-voto-na-periferia/). Este texto é uma intervenção conjuntural derivada da modelagem teórica formalizada no manuscrito inédito TecnoLulismo: O Gradualismo Tensionado (Uma Ciência Política Contemporânea e Tecnologia Ético-Política de Sobrevivência). Contato: [email protected]
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