Dom Walmor Oliveira de Azevedo: Arcebispo Metropolitano convida cidadãos à ponderação para uma sociedade mais justa

À frente da Arquidiocese de Belo Horizonte desde 2004, Dom Walmor Oliveira de Azevedo (foto: divulgação) acompanha as transformações da sociedade e os desafios da Igreja. Em contraponto a uma sociedade mutante, o arcebispo metropolitano afirma que os valores da Igreja são atemporais, com metas audaciosas como a caridade e a não negociação da dignidade de toda pessoa. No dia em que o Brasil vai às urnas, Dom Walmor destaca a valorização da democracia pelo voto consciente. “Discernir sobre o voto exige reflexão, ponderação e diálogo. O voto qualificado é muito importante para ajudar a sociedade a tornar-se mais justa, solidária e fraterna.”

A Rede Catedral promoveu, em setembro, debate com os candidatos ao Senado por Minas Gerais. A Igreja atua em questões de interesse público, como direitos humanos, cidadania. Existe um limite sobre esta participação dos líderes religiosos na pauta política?

A Igreja incentiva e promove o voto consciente, respeitando a liberdade de cada cidadão. O ambiente eclesial não deve ser ocupado por disputas político-partidárias, com a promoção ou a desconstrução de candidaturas. Ao incentivar o voto consciente, a Igreja oferece critérios objetivos a serem observados no discernimento sobre o voto. 

O enfrentamento à violência, pauta que está nos programas de governo de candidatos ao Executivo e Legislativo, é também uma demanda social. Como a Igreja pode contribuir nesta área?

A Igreja já oferece contribuições e busca fazer sempre mais e melhor, pois a violência fere a dignidade humana, e tudo que fere a dignidade humana está na contramão do Evangelho. Na Arquidiocese de Belo Horizonte há incontáveis iniciativas que buscam resgatar o ser humano de diferentes formas de violência. O Papa Francisco lembrava, repetidamente, que a paz não é uma realidade que se conquista para sempre, mas uma permanente construção. A partir dessa perspectiva, a Igreja, com suas pastorais, em cada comunidade de fé, busca ser uma semeadora da paz. 

Como construir diálogo em uma sociedade marcada por polarização política e dificuldade em dialogar?

O ponto de partida é sempre reconhecer a dignidade de cada pessoa. Todos, indistintamente, são filhos e filhas de Deus, merecedores de respeito e consideração. Essa verdade deve balizar a conduta de cada pessoa em sua relação com o semelhante. Nada poderá justificar autopromoção a partir da destruição do próximo. Adversários não serão considerados inimigos. Haverá harmonia entre perspectivas divergentes, criando um contexto que as diferenças serão percebidas como riquezas. A abertura sincera ao diálogo pressupõe reconhecer a dignidade de adversários no âmbito político-partidário.

Quais são suas preocupações em relação à Minas Gerais?

Minas Gerais precisa avançar no cuidado de seu patrimônio histórico, cultural, artístico e natural. Para trilhar esse caminho é preciso repensar legislações, atualizando-as, criar incentivos para investimentos em áreas estratégicas. 

O desenvolvimento de Minas Gerais não pode estar alicerçado em parâmetros que ameaçam o patrimônio do próprio estado, criando insegurança para o futuro. É preciso dar novos passos, com ousadia, para garantir que os bens naturais e o patrimônio histórico-cultural – herança que vem de outras gerações – não esteja sob constante ameaça. Ao mesmo tempo, esse desenvolvimento deve ser integral, inclusivo, para que realidades mais empobrecidas possam superar tudo o que fere a dignidade humana.

O senhor foi nomeado arcebispo metropolitano de Belo Horizonte em março de 2004. O que mudou na sociedade e nos desafios pastorais?

De uma perspectiva histórica, 22 anos pode até parecer pouco tempo, mas vivemos uma transformação impulsionada pela tecnologia. Com o surgimento da Inteligência Artificial, compara-se o alcance dos impactos com aqueles experimentados na Revolução Industrial. Uma sociedade hiperconectada, em que as distâncias, teoricamente, se encurtam, mas, paradoxalmente, sofre-se com diferentes formas de isolamento. Há um descompasso entre o desenvolvimento tecnológico e o avanço humanístico da civilização.

Ajudar o mundo a vencer esse descompasso é uma especial tarefa da Igreja: ajudar cada pessoa a se encontrar com Jesus, o que inclui trabalhar para que cada pessoa perceba a sacralidade da vida de seu semelhante, abrindo-se ao encontro com o próximo, especialmente com os pobres e sofredores.

A Igreja está preparada para lidar com esse cenário que inclui a Inteligência Artificial? 

O cenário que está sendo desenhado ainda é marcado por incertezas. O avanço da técnica não é acompanhado de um essencial balizamento ético-moral, rege-se por uma submissão do ser humano ao dinheiro. Nesse cenário, a própria humanidade fica sob constante ameaça. Não se pode dizer que a sociedade está preparada para adequadamente lidar com a inteligência artificial. A Igreja caminha com a humanidade na construção de discernimentos e faz uma convocação, a partir do Papa Leão XIV. Em sua primeira Carta Encíclica, Leão XIV, diante do espantoso desenvolvimento tecnológico vivido nos últimos anos, sublinha que “magnífica é a humanidade”, criação de Deus.

Onde está o amor de Cristo neste mundo violento e desigual?

O amor de Cristo está no reverso dessa violência e desigualdade. Pode ser percebido no cotidiano, nas atitudes desinteressadas, até em um simples copo de água oferecido a quem tem sede. O amor de Cristo reside na mão estendida a quem sofre, no abraço solidário, na ternura que uma mãe dedica a seu filho, nos sacrifícios que um pai oferece pelo bem de sua família. A fraternidade cristã expressa-se no agir de incontáveis voluntários, naqueles que exercem diferentes profissões não simplesmente pela justa remuneração, mas porque verdadeiramente buscam fazer o bem ao próximo, ao mundo. É verdade que há variadas formas de violência, de desigualdades. Porém, existem muitos pontos luminosos que refletem a luz de Cristo, o amor de Deus. Sejamos capazes de enxergá-los, pois eles mostram a nossa esperança.  

*Raquel Ayres

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