
O Partido Liberal destinou R$ 612.812,81 à campanha de Sophia Barclay, candidata a deputada federal por São Paulo, que Flávio Bolsonaro processou por calúnia e difamação em 2023. Desse total, R$ 600 mil saíram diretamente da Direção Nacional da legenda, segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral atualizados nesta sexta-feira, 2 de outubro de 2026.

O assunto voltou à campanha na noite de quinta-feira, 1º de outubro de 2026, em transmissão ao vivo de Renan Santos, candidato à Presidência da República pelo partido Missão. Renan gravava dentro de um veículo, acompanhado de Arthur do Val e Amanda Vettorazzo, a caminho da TV Globo no Rio de Janeiro.
Militantes haviam sido convocados para recepcioná-lo na entrada da emissora antes do debate. O encontro virou ato político após o cancelamento do programa pela ausência dos principais concorrentes convidados.
Durante a gravação, Renan afirmou que sua equipe soube que a campanha de Flávio Bolsonaro pretendia atacá-lo com uma denúncia antiga de violência sexual feita por uma ex-namorada. O dirigente do Missão sustenta que a acusação é falsa, foi retirada pela própria autora e arquivada pela Justiça.
Segundo Renan, essa seria a carta na manga de Flávio no estúdio. Ele disse ter preparado uma resposta imediata, na qual cobraria o adversário sobre a história de uma festa privada em que o senador teria se relacionado com mulheres trans.
“Eu falei que ia e que a verdade estava do meu lado. Até porque eu recebi uma falsa acusação, e você, que fez suruba com uma trans. Se eu for jogar esse jogo, eu diria que hoje essa trans é candidata com fundo partidário pelo PL, e perguntaria se isso foi um pagamento para ela ficar em silêncio”, declarou Renan.
A declaração refere-se à influenciadora Sophia Barclay, conhecida nas redes sociais pelo perfil Trans de Direita. Em meados de 2023, Sophia relatou em entrevistas que esteve em uma festa na casa do jogador Neymar Jr.
Na ocasião, afirmou que Flávio Bolsonaro manteve relações íntimas com uma amiga dela, também mulher trans, e que teria tentado aproximação com a própria Sophia. A fala de Renan atribui a Sophia o papel que, naquele relato, cabia à amiga.
Flávio Bolsonaro reagiu em 17 de agosto de 2023, com um boletim de ocorrência registrado na Secretaria de Polícia do Senado Federal, no qual negou os relatos e declarou não conhecer a influenciadora. Meses depois, a advogada Luciana Pires protocolou uma queixa-crime na Justiça de São Paulo por calúnia e difamação, com pedido de condenação e prisão de Sophia.

O litígio terminou em 25 de julho de 2024, após audiência de conciliação na qual Sophia Barclay assinou uma retratação formal, afirmou que a história não era verdadeira e pediu desculpas ao senador. Mais tarde, declarou em público que havia inventado o episódio na tentativa de conseguir repercussão e uma vaga no reality show A Fazenda, e o processo foi extinto.
O PL apresentou a filiação de Sophia Barclay em 6 de abril de 2026, em ato com o presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto. A legenda concedeu a ela o número 2275 para disputar o cargo de deputada federal por São Paulo.
A candidata informou à Justiça Eleitoral não possuir bens em seu nome. Consta no Portal da Transparência como beneficiária do Bolsa Família desde maio de 2018 e do Auxílio Gás.
Na prestação de contas parcial, Sophia Barclay declarou R$ 191.656,00 em despesas contratadas, cerca de 31% do total recebido. Mais de R$ 420 mil seguiam sem destino registrado até aquela prestação.
Desses R$ 191 mil, R$ 90 mil foram pagos a dois advogados eleitorais da região do Alto Tietê, base política de Valdemar Costa Neto. Não há registro expressivo de gastos com militância ou estrutura de rua.
O comparativo com outros candidatos a deputado federal pelo PL em São Paulo mostra uma situação atípica. A maior parte dos nomes da legenda com volume semelhante de recursos já contratou entre 70% e 90% da verba para ações de reta final.
O PL entregou R$ 600 mil a uma pessoa que Flávio Bolsonaro acusou de mentir contra sua honra e de quem pediu a condenação criminal. A pergunta que Renan Santos disse que faria no debate soma mais um esqueleto ao armário do “ultraconservador” Flávio Bolsonaro.