Um relatório da Polícia Federal (PF) produzido no âmbito da Operação Overclean descreve um episódio de transporte de aproximadamente R$ 5 milhões em dinheiro vivo, em malas levadas em uma aeronave fretada de São Paulo para Salvador, em novembro de 2024. O documento, ao qual o ICL Notícias teve acesso, também registra uma ligação entre o empresário José Marcos Moura, conhecido como “Rei do Lixo”, e ACM Neto durante o voo.
O relatório integra uma investigação que apura suspeitas de fraudes em licitações, contratos superfaturados, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A PF afirma no documento que, após analisar elementos reunidos em diferentes fases da operação, ACM Neto exerceria papel de liderança na organização investigada. Trata-se, contudo, de uma conclusão investigativa, mas não de uma condenação judicial, ainda.
A documentação divulgada acrescenta à apuração um elemento específico: o relato sobre o transporte de aproximadamente R$ 5 milhões em espécie em um jatinho, a descrição de cinco ou seis malas e o registro de uma ligação entre Marcos Moura e ACM Neto durante o voo.
Cinco ou seis malas no avião
Segundo o relatório divulgado pelo ICL, o episódio ocorreu em 19 de novembro de 2024, um dia depois de a empresa Brasil Sustentável vencer uma licitação para fornecimento de livros paradidáticos à Prefeitura de Belo Horizonte.
De acordo com a investigação, Marcos Moura teria determinado que Clebson Oliveira viajasse de Congonhas para Salvador transportando dinheiro em espécie. O piloto ouvido pela PF afirmou recordar-se da entrada de “cinco ou seis malas” na aeronave. A estimativa dos investigadores é de que o conteúdo transportado correspondesse a cerca de R$ 5 milhões.
Durante o voo, ainda segundo o relatório, Moura fez uma ligação de aproximadamente três minutos para ACM Neto. Os investigadores também identificaram 232 contatos telefônicos entre os dois entre agosto e dezembro de 2024, período em que a apuração aponta atuação do grupo em contratos públicos.
O relatório menciona ainda Gabriel Mascarenhas como outra pessoa que teria participado do transporte de grandes quantidades de dinheiro em aeronaves particulares. Segundo a apuração citada, essa movimentação teria continuado mesmo depois das primeiras fases da Overclean.
Licitações de dezenas de milhões
O episódio das malas aparece em uma investigação mais ampla sobre contratações realizadas pela Prefeitura de Belo Horizonte. Na 10ª fase da Overclean, deflagrada em 17 de setembro de 2026, a PF cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Tocantins, Paraná e Espírito Santo. A operação investiga indícios de direcionamento de procedimentos para fornecimento de serviços e materiais didáticos.
Segundo a PF, pelo menos três dos procedimentos analisados nessa etapa resultaram em contratos que, somados, ultrapassam R$ 80 milhões. A corporação informou que os fatos investigados podem, em tese, caracterizar crimes contra a administração pública, fraude em licitações e contratos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A reportagem do ICL detalha contratos envolvendo empresas como Brasil Sustentável, Iptech Soluções Integradas, Trinity Tecnologia Educacional, Grupo Movimenta e LarClean Saúde. No caso da Brasil Sustentável, o contrato citado foi de R$ 40 milhões, enquanto a Trinity teria firmado contrato de R$ 54,2 milhões e a Iptech, de R$ 7,8 milhões. As empresas foram procuradas e, segundo o ICL, não haviam se manifestado.
Relação com o “Rei do Lixo”
A investigação também examina a relação entre ACM Neto e Marcos Moura. O empresário está entre as 25 pessoas indiciadas pela PF em agosto de 2026 no âmbito da investigação sobre desvios relacionados a emendas parlamentares. O relatório citado registra “fundadas suspeitas” de que a organização seria encabeçada por ACM Neto, embora o político não tenha sido indiciado naquele procedimento.
A operação teve início em dezembro de 2024. Na primeira fase, PF, Ministério Público Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União informaram que investigavam uma organização suspeita de envolvimento em fraudes licitatórias, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro.
ACM Neto nega envolvimento
ACM Neto tem negado relação com as irregularidades investigadas. Em agosto, afirmou que não tinha qualquer envolvimento com a Overclean e que nunca havia sido investigado ou denunciado no âmbito da operação.
Em setembro, depois de a imprensa noticiar que a PF havia solicitado autorização para realizar buscas contra ele — pedido negado pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal —, Neto afirmou que as informações divulgadas representariam uma tentativa de interferência no processo eleitoral e classificou as associações feitas pela investigação como falsas.
A decisão de Nunes Marques que negou a busca não equivale, por si só, a uma conclusão sobre o mérito das suspeitas investigadas. A apuração da PF sobre os contratos públicos e as relações entre os envolvidos permanece em curso.
Investigação ocorre em meio à eleição baiana
A divulgação do novo conteúdo do relatório ocorre durante a campanha para o governo da Bahia, na qual ACM Neto é candidato pelo União Brasil. Por isso, as informações da investigação e as manifestações do candidato aparecem também no contexto da disputa eleitoral.
A PF, em sua comunicação oficial sobre a 10ª fase da Overclean, não atribuiu publicamente a ACM Neto qualquer condenação ou responsabilidade definitiva. O que existe, até o momento, são elementos reunidos em investigação policial, cujas conclusões ainda dependem da tramitação dos procedimentos e das decisões das autoridades competentes.