Uma operação policial deflagrou uma crise institucional na Bolívia após a prisão do procurador-geral do Estado, Roger Mariaca, e do procurador departamental de Santa Cruz, Alberto Zeballos. As detenções ocorreram no Aeroporto Internacional de Viru Viru, em Santa Cruz, dois dias após o governo dos Estados Unidos revogar os vistos de ambos sob acusações de corrupção e ligações com o narcotráfico. A ação mobilizou buscas na residência de Mariaca e nas sedes do Ministério Público em Sucre e Santa Cruz, culminando na nomeação de nomes interinos para o comando do órgão.
Durante as operações, a Procuradoria-Geral classificou a abordagem como “sequestro” e denunciou violação de direitos humanos em transmissões ao vivo. Integrantes do Ministério Público e o ex-ministro do Governo, Eduardo del Castillo, também foram detidos em La Paz. Horas após o início das diligências, o governo boliviano anunciou Luis Montaño como procurador-geral interino e Mabel Andrade para o comando da promotoria de Santa Cruz. Mariaca e Zeballos foram transferidos para a cidade de El Alto para responder aos processos.
Tensões com os Estados Unidos e o caso Cerimedo
A prisão dos procuradores ocorre em meio ao acirramento diplomático entre La Paz e Washington. Na última segunda-feira, o Departamento de Estado americano aplicou sanções a autoridades bolivianas, acusando Mariaca de receber subornos para favorecer organizações criminosas. O chefe do Ministério Público negou as alegações e afirmou que as medidas configuram “interferência” e “pressão política” devido às investigações que conduzia no país.
Entre os inquéritos sob responsabilidade de Mariaca está o processo contra o consultor político argentino Fernando Cerimedo, investigado por lavagem de dinheiro e tentativa de feminicídio. Cerimedo é apontado como articulador da extrema-direita na América Latina, com atuação em campanhas do brasileiro Jair Bolsonaro e do atual mandatário argentino, Javier Milei. Em pronunciamentos anteriores, o procurador sustentou que a apuração provocava incômodo internacional, mas garantiu que o órgão não recuaria nas diligências.
Acusações de narcotraficante e reações políticas
O ambiente político boliviano foi tensionado adicionalmente com a divulgação de áudios atribuídos ao narcotraficante uruguaio Sebastián Marset, capturado em março na Bolívia e entregue a agentes da DEA. Nas gravações, Marset acusa Mariaca e o ex-ministro Eduardo del Castillo de repassarem informações privilegiadas à sua organização e de receberem US$ 500 mil em troca de proteção estatal. A Procuradoria-Geral rejeitou formalmente as declarações, afirmando que as acusações carecem de comprovação e lembrando que o órgão mantinha diversos processos abertos contra o criminoso.
Diante do desdobramento dos fatos, lideranças do Congresso boliviano solicitaram formalmente que o Ministério das Relações Exteriores peça esclarecimentos ao governo norte-americano sobre as provas que fundamentaram a revogação dos vistos. Parlamentares ressaltaram que acusações formais não equivalem a condenações e pediram garantias ao devido processo legal enquanto os novos procuradores interinos assumem as funções no país.