
O pai de Flávio Bolsonaro andava pela rua, em Brasília, quando sentiu que havia pintado um clima ao conversar com um grupo de adolescentes venezuelanas, em abril de 2021. Achava que eram prostitutas. Esse episódio sempre foi tratado com recato pelos jornalões, mas não porque as meninas deveriam ser protegidas.
As corporações ofereceram a Bolsonaro a chance de apresentar sua versão de fiscal da moralidade. Ele havia seguido as venezuelanas, como presidente da República, até onde moravam para conferir quem eram, por estarem pintadas e bem vestidas.
Haviam saído para fazer programa? Foi ali, no encontro na rua, que pintou o clima. O extremista falso moralista estaria preocupado com a prostituição, não de brasileiras, mas de venezuelanas, o que servia para cutucar o chavismo.
Sabemos agora, por informação de quem o conhece, que o filho dele participava de orgias com mulheres pagas com dinheiro de origem duvidosa. A notícia saiu no site PlatôBR, foi compartilhada pelos sites progressistas e ignorada pelos jornalões, com exceção do site do UOL.
Foi escondida porque, ao contrário do que acontece na Argentina e nos Estados Unidos, aqui a grande imprensa protege a extrema direita em seus piores momentos. Na Argentina, Javier Milei foi à guerra contra o Nación e o Clarín, os dois jornalões deles. Trump decidiu que jornalistas de alguns dos grandes veículos não entram na Casa Branca.
Ele não ataca apenas os jornais, TVs e sites, mas nomeia seus inimigos preferidos. Estes são alguns dos já citados por Trump: Jim Acosta, Kaitlan Collins (já ofendida na sala de imprensa da Casa Branca e abordada por ele na semana passada na ONU), Mary Bruce, Catherine Lucey, Yamiche Alcindor, Abby Phillip, Maggie Haberman. Trump tem preferência por ataques a jornalistas mulheres. Não são profissionais de veículos de esquerda, são da CNN, da Fox, do New York Times.

Milei também dá os nomes dos seus inimigos na imprensa dita liberal, e não só de esquerda, chamando-os de sicários, lixos, mentirosos, corruptos e merdas humanas. Aqui estão alguns dos atacados: Jorge Fontevecchia, Carlos Pagni, Viviana Canosa, Roberto Navarro, Ari Lijalad, Joaquín Morales Solá, María O’Donnell, Silvia Mercado, Hugo Alconada Mon, Diego Leuco.
Bolsonaro teve uma relação ruim, mas nunca traumática, com as corporações enquanto esteve no poder. Flávio e seu entorno não entram em conflito com as empresas. Não há no Brasil nada parecido com o que acontece com a mídia liberal conservadora nos Estados Unidos e na Argentina e sua relação com os fascistas no poder.
Aqui, as corporações tratam Flávio como se fosse um equivalente, do outro lado, ao que Lula representa. Mesmo que, segundo o Estadão, seja ligado a milicianos e pertença, segundo o Globo, a uma família de golpistas.
Por esse ponto de vista, Flávio deve ter, em nome das paridades, o mesmo tratamento dado a Lula, quando se sabe que não é bem assim. Os vazamentos de investigações tentam atingir Lula. As abordagens opinativas atacam Lula. Os ministros do STF moderada ou terrivelmente bolsonaristas são preservados.
E Flávio acaba sendo blindado até quando a liberdade de expressão é patrulhada pelos jornalões, como no caso do debate nas redes sobre a ameaça bolsonarista a Nossa Senhora Aparecida. Uma ameaça que ainda lateja e apenas hiberna numa gaveta do Congresso, ao lado das propostas de anistia para Bolsonaro, os militares e os manés do 8 de janeiro.
Agora, protegem Flávio das notícias sobre as orgias, não necessariamente por engajamento ao fascismo, mas por temê-lo e pelo esforço para fidelizar a audiência ultraconservadora. A grande imprensa que aponta para a obviedade de que Flávio é ligado a milicianos acaba sendo subjugada pela extrema direita e seus interesses.
Por isso saberemos tudo na Folha, no Globo e no Estadão sobre as mulheres norueguesas de Vorcaro, mas nada sobre as moças brasileiras contratadas pelo amigo de Flávio Bolsonaro, que deveriam apresentar-se sempre com a surpresa da novidade.
As corporações ainda tratam de rachadinhas e lavagem de dinheiro, que são pautas vencidas e já inofensivas para o bolsonarismo, mas blindam o filho ungido e moralista quando o assunto é orgia.