
O candidato à Presidência da República pelo Partido Missão, Renan Santos, voltou a utilizar em uma peça de campanha um áudio com um trecho de uma fala minha, mesmo depois de ter sido formalmente notificado de que eu não o autorizava.
O episódio ganhou um novo capítulo no último dia 28, quando Renan voltou a reproduzir parte da gravação em uma peça de campanha. O material já havia sido usado anteriormente em janeiro, quando o então pré-candidato publicou um vídeo com um trecho retirado de um programa que apresentei no canal Voz Trabalhadora, ao lado de Luiz Portinho.
Desde então, eu vinha tentando, por meio da minha assessoria jurídica, notificar o político para que o conteúdo não fosse veiculado sem autorização.
Na primeira vez, ele postou uma peça intitulada “Esquerdistas apoiam Renan Santos”. No vídeo, Renan faz um react do trecho do programa e começa ironizando. “Estou um pouco confuso, esses caras de esquerda decidiram fazer campanha pra mim”, diz.
Na sequência, ele reproduz a minha fala durante o programa: “Hoje rodamos vídeos lá no DCM, do tal do Renan Santos, esse pré-candidato do Partido Missão. Esse cara é um absurdo, ele não pode estar solto, ele ameaça seguir candidato do PT do Ceará, governador da Bahia, fala que se for eleito vai andar em um helicóptero na favela atirando nas pessoas e fazendo o diabo nos bandidos. Fala em anexar o estado do Tocantins a outro estado.”
Luiz Portinho resumiu o personagem político que estávamos analisando: “É um Pablo Marçal com tempero de violência.”
Renan transformou justamente a crítica em elemento de sua comunicação política. O trecho reforçava uma imagem de candidato outsider e provocar seus adversários ideológicos.
A utilização do material não era desconhecida pela campanha. No dia 1º de setembro, às 18h20, Gustavo Nogueira, integrante do MBL, assinou, em nome de Renan Santos, uma notificação extrajudicial relacionada ao conteúdo.
A notificação exigia que o material fosse retirado do vídeo já publicado e que não voltasse a ser utilizado, portanto, a campanha foi formalmente cientificada da minha oposição ao uso do material e ainda assim, quase um mês depois, no último dia 28, Renan Santos voltou a utilizar justamente o trecho inicial da gravação em outra peça de campanha.
Diante da nova investida, estou analisando com minha assessoria jurídica quais serão os próximos passos para a judicialização do caso.
Meninos mimados não podem reger a nação
Renan Santos está disputando a Presidência da República e suas atitudes ajudam o eleitor a compreender como ele pretende lidar com limites, críticas e regras institucionais caso venha a ocupar um cargo de poder. É justamente por isso que considero o episódio relevante.
Renan Santos é, para mim, a prova viva do trecho daquela canção do Criolo que fala que meninos mimados não podem reger a nação. Se, diante de uma peça publicitária de campanha, ele utiliza material sem autorização e, mesmo depois de formalmente notificado sobre a irregularidade e a proibição, decide voltar a utilizá-lo para alimentar o próprio ego, é legítimo perguntar como agiria com a “caneta na mão” diante de questões muito mais sérias e sensíveis.
Na minha avaliação, Renan Santos não está apenas construindo uma candidatura. Ele já deu sinais suficientes da sua linha autoritária e fascistóide.
Minha avaliação é de que ele sublimará nos próximos anos a figura de Nikolas Ferreira como o novo nome com capacidade de comunicação, estratégia e mobilização entre setores radicais da direita.
Ele vai mais longe pois consegue explorar uma posição de outsider justamente por estar, até aqui, relativamente à margem do jogo político institucional. Essa condição pode ser utilizada como ferramenta de comunicação para apresentar-se como alguém que não pertence à política tradicional.
Se mantiver essa estratégia e não for absorvido pelo fisiologismo tradicional da direita, poderá continuar ocupando o papel de franco-atirador político nos próximos anos, eventualmente com maior envergadura eleitoral.
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