“Alarmante”: professor da FGV vê tentativa de Trump de favorecer Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro e Donald Trump. Foto: Reprodução

O cientista político Octavio Amorim Neto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), afirmou que existe uma tentativa do governo de Donald Trump de interferir nas eleições brasileiras e classificou a ação como “alarmante”.

Ele afirmou que as ações americanas teriam o objetivo de favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em entrevista ao Valor Econômico, Amorim Neto apontou o tarifaço imposto por Trump aos produtos brasileiros, em julho de 2025, como o início do que considera uma intervenção nos rumos eleitorais do país.

“Não foi apenas manobra comercial, foi manobra acompanhada de uma carta publicada nas redes sociais pedindo que Jair Bolsonaro deixasse de ser perseguido”, disse.

O professor afirmou que o bolsonarismo apoiou abertamente a medida americana, enquanto setores da direita tradicional criticaram Lula pela crise. Para Amorim Neto, a reação do presidente em defesa da soberania nacional elevou sua popularidade naquele momento, mas o tema perdeu força ao longo da campanha eleitoral.

“Eu esperava que esse tema fosse gerar mais dividendos eleitorais para Lula nessa campanha, mas não está rendendo”, avaliou o cientista político. Ele atribuiu o cenário à força do bolsonarismo e a erros da estratégia eleitoral do governo.

Octavio Amorim Neto, cientista político e professor da FGV
Octavio Amorim Neto, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas. Foto: Reprodução

Vistos, sistema eleitoral e pressão sobre o Brasil

Amorim Neto citou outras medidas dos Estados Unidos que, em sua avaliação, formam um quadro de pressão sobre o Brasil. Entre elas estão a suspensão de vistos de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), a tentativa de questionar o sistema de votação brasileiro e a retirada do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti.

Para o professor, a medida contra a embaixadora brasileira representou o episódio mais duro da escalada. “Tirar o visto da embaixadora brasileira foi o momento mais agressivo de todos. Isso não tem precedente na história”, afirmou.

O analista também mencionou o Escudo das Américas, aliança lançada pela administração Trump com governos ideologicamente alinhados aos Estados Unidos. O grupo reúne Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, Equador e El Salvador, enquanto Brasil e México ficaram fora da coalizão.

A articulação assinou um acordo para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, atendendo a um pedido de Trump. Amorim Neto disse que a medida pode abrir espaço para pressão externa na área de segurança e servir de argumento eleitoral para Flávio Bolsonaro, em meio à demanda da população por respostas contra o crime.

Uma pesquisa Datafolha divulgada em agosto indicou que 50% dos brasileiros acreditam na possibilidade de interferência estrangeira na eleição. Entre os entrevistados, 32% consideram que essa eventual interferência seria um problema para o país, enquanto 18% não a veem como ameaça.

No fim de agosto, a Agência Brasileira de Inteligência enviou relatório à Presidência, ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Ministério da Justiça alertando para risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições. O documento mencionou a atuação do secretário de Estado americano, Marco Rubio, e possíveis motivações ideológicas voltadas à política interna brasileira.

Na semana passada, o PT acionou o ministro Flávio Dino, do STF, e pediu investigação da Polícia Federal sobre supostas ações do governo Trump em benefício de Flávio Bolsonaro. A petição cita suspeitas de repasses de organizações da extrema direita americana, apoio a conteúdos para redes sociais ligados ao PL e impulsionamento pago por perfis no exterior; a campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu aos questionamentos do Valor.

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