O jornalismo-sela e os repassadores de releases da fonte, por Luís Nassif

Denomina-se jornalismo-sela aquele em que o jornalista é conduzido pela fonte. Ele se deixa cavalgar, e a fonte vai guiando a cobertura na direção que deseja.

Especialmente nas coberturas continuadas, o ponto estratégico é controlar o ritmo das notícias repassadas à imprensa. Isso faz parte da grande disputa pelo controle da narrativa.

Quando há jornalismo investigativo e crítico na ponta, o jogo da fonte se torna mais complexo. Os vazamentos passam a ser julgados pelo critério da relevância e do ineditismo, tornando-se mais esparsos e menos suscetíveis à exploração política. O controle da narrativa volta para o jornalista, guiado por critérios técnicos e éticos.

Desde o “Mensalão”, porém, parte da mídia ficou prisioneira do jornalismo-sela. Abandonou-se a investigação autônoma e conferiu-se o status de reportagem a peças que não passam de releases repassados por fontes. Quando esse modelo alimenta uma cobertura continuada, entra-se no terreno da má-fé.

É o que ocorre na apuração da Polícia Federal sobre as denúncias envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. As investigações não constataram irregularidades. Quebraram-se os sigilos fiscal e bancário, e analisou-se detalhadamente o celular da lobista Roberta Luchsinger. O que consta nos autos são apenas conversas particulares, autopromoção de sua parte com clientes sobre supostos encontros que não ocorreram, empréstimos para o segundo escalão e nenhum — repito, NENHUM — contrato fechado com o setor público. Mesmo assim, o caso foi explorado diariamente por veículos instrumentalizados por fontes policiais. 

O grande problema do jornalismo-sela é o tempo: a linha de transmissão torna-se tão automatizada que o profissional perde a noção do tempo e do discernimento. A cobertura desse caso extrapolou os limites da prudência jornalística. A cada dia, destacava-se uma declaração da lobista — a maioria sem qualquer implicação penal, muitas vezes mera jactância para vender a ideia de influência — transformando-a em manchete principal.

Quando se esgotaram essas alegações, abriu-se espaço para apurações relativas ao caso Dark Horse e a Flávio Bolsonaro. Em seguida, o ministro André Mendonça apresentou sua manifestação no Supremo Tribunal Federal.

Surgiram revelações de grande impacto envolvendo Flávio Bolsonaro, obtidas a partir do celular de seu ex-sócio, descrevendo tratativas e conversas polêmicas. A reação de setores alinhados foi ágil: acionar os canais habituais e pautar a imprensa para o contra-ataque.

Um mínimo de discernimento indicaria a inconveniência de divulgar uma notícia irrelevante dessas, logo após a bomba contra Flávio Bolsonaro. A matéria permaneceu pouco tempo na capa do veículo. A edição rapidamente reduziu sua visibilidade. Contudo, o episódio evidenciou fragilidades do jornalismo contemporâneo, no qual muitas vezes faltam critérios para definir gradações, diferenciar relevâncias e separar o essencial do banal. Fica-se, assim, à mercê do sensacionalismo das manchetes, equiparando o jornalismo ao ritmo das redes sociais.

LEIA TAMBÉM:

Artigo Anterior

Estudo aponta como instituições barraram golpe de Jair Bolsonaro

Próximo Artigo

Como Mendonça e Toffoli no TSE têm irritado ministros do STF

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!