Sakamoto: Flávio ataca a Igreja Católica para provar que não ataca a Igreja Católica

Flávio Bolsonaro durante evento em Goiânia
Flávio Bolsonaro durante evento em Goiânia, Goiás. Foto: Reprodução

Publicado por Leonardo Sakamoto no Uol

Nossa Senhora Aparecida está tirando o sono de Flávio Bolsonaro. Não a santa, evidentemente. Mas o boato de que ele poderia, se eleito presidente, retirar dela o título de Padroeira do Brasil. O assunto incomodou tanto que o senador resolveu combatê-lo do pior modo possível. Primeiro, pediu para censurar as redes, atingindo até postagens que não o acusavam, sendo atendido por André Mendonça, no TSE. Agora, resolveu incendiar a sacristia para demonstrar respeito pela missa.

Neste domingo, em Goiânia, o candidato acusou “gente dentro da CNBB” de ter ajudado a espalhar informação falsa. Segundo ele, o PT já vinha tentando levantar a história e teria feito isso mancomunado com apoio de pessoas ligadas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Não forneceu provas da participação da instituição nessa conspiração. Foi coerente, afinal, o senador não trouxe até agora provas do destino dos mais de R$ 70 milhões que recebeu de Daniel Vorcaro.

A CNBB respondeu pouco depois. Negou ter produzido, autorizado ou participado da divulgação de informações falsas sobre as eleições e exigiu fatos e provas para sustentar a acusação. E fechou com uma frase que não precisava citar destinatário: “A mentira não se combate com outra mentira”.

Para demonstrar que não tem nada contra um dos maiores símbolos do catolicismo brasileiro, resolveu acusar integrantes da principal organização dos bispos católicos do país de colaborar com uma operação de fake news.

A história que atormenta a campanha surgiu da circulação, nas redes sociais, de conteúdo relacionado a um projeto de lei arquivado há quase 20 anos que pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto foi proposto pelo pastor Victório Galli (PP-MT), então deputado, que depois se tornou assessor especial da Presidência na gestão de Jair Bolsonaro. Nos boatos, isso seria retomado, caso eleito, como sinalização a evangélicos.

Antes, o senador precisava apenas deixar claro que não pretendia mexer no título de Nossa Senhora Aparecida. Agora precisa explicar por que acusou a CNBB de participar de uma rede de desinformação. É o milagre da multiplicação das crises.

A instituição disse que não integra estrutura político-partidária, de partido ou candidatura e que atribuir à entidade participação na disseminação de desinformação sem fatos que sustentem a acusação atinge injustamente a instituição.

Nada impede Flávio de criticar a CNBB. Bispos não são imunes a crítica e igrejas também não, sejam elas católicas ou evangélicas. Mas acusar uma instituição de espalhar fake news exige algo mais consistente. Ainda mais quando a acusação parte de quem reclama justamente de estar sendo vítima de uma fake news.

E é nesse ponto que o episódio ganha contornos didáticos. Flávio exige cautela com informações falsas sobre ele, mas dispensa essa mesma cautela quando fala dos outros. Quer provas para desmontar a acusação que o atinge, mas não oferece nenhuma para sustentar uma acusação que faz.

Ao tentar convencer o país de que é amigo da Igreja, Flávio escolheu comprar briga justamente com a instituição que a representa no país. Se o plano era garantir noites mais tranquilas de sono e reconquistar a confiança dos devotos, o tiro pode sair pela culatra e atingir em cheio o próprio altar que ele jurava querer proteger.

Em tempo: Flávio Dino, no STF, suspendeu os efeitos da decisão de André Mendonça que mirou inicialmente uma postagem do ator e humorista Antonio Tabet, afirmando que ela tolhia a liberdade de expressão. Ironicamente, na publicação, Tabet não citou o nome do senador. “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”, escreveu. Flávio Bolsonaro e André Mendonça é que assumiram de quem se tratava. O humorista repostou o conteúdo após a liberação.

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