Trump reedita a Guerra Fria

Donald Trump durante discurso na ONU. Foto: reprodução

Quem assistiu ao discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU e não nasceu em Marte enxergou um imperador desprovido de qualquer pudor em bradar seus anseios de dominação global. O insano presidente dos Estados Unidos não disfarça a natureza colonialista do seu governo. Difícil aceitar, mas o tirano conta com uma legião de dóceis subjugados nestas bandas sulinas, como comprovam os aderentes ao vexaminoso Escudo das Américas.

O cinturão de baba-ovos destinado, formalmente, a combater o narcotráfico internacional batizado por Trump de terrorismo remete a um tempo em que o mundo dividia-se em dois blocos, durante a Guerra Fria. A multipolaridade, um dia quase alcançada de fato, esboroa-se quando os Estados Unidos, como na época do conflito ideológico com a União Soviética, sente a China como polo aglutinador de países a impedir seu predomínio.

Proteger fronteiras e explodir narcotraficantes nunca foi o objetivo de Donald Trump.

Na Guerra Fria, o alinhamento era imposto por rupturas institucionais violentas patrocinadas pelos Estados Unidos – os famigerados golpes militares no Brasil e na Argentina são exemplos, sem falar do atroz golpe chileno, em que morreu Salvador Allende e ascendeu ao poder Augusto Pinochet. Com o Escudo das Américas, Washington adota o formato de coalizão voluntária de governos alinhados ideologicamente ou, antes disso, acovardados. Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e República Dominicana abdicaram da sua soberania.

Donald Trump e Javier Milei. Foto: reprodução

Diferentemente do ocorrido no período da Guerra Fria, quando o Brasil acabou alinhando-se à estratégia de dominação anticomunista americana, o país disse não ao Escudo das Américas. Soberanamente, o governo Lula entende que o combate às facções deve ser feito por cooperação internacional policial, e não pela terceirização ou militarização das fronteiras por uma potência estrangeira. Diplomaticamente, faça-se de conta que o braço-de-ferro comercial Estados Unidos-China não é o motivador da coisa toda.

Ironicamente, apesar de a palavra “comunista” perder força para designar o adversário do “Ocidente” – hoje prefere-se “terrorista” ou “narcotraficante” -, o inimigo ainda é vermelho, só que com detalhes em dourado.

Vale lembrar que o cordão pró-Estados Unidos na América Latina desenhado durante a Guerra Fria também nomeou organizações “terroristas” a serem combatidas. Muitas delas nasceram como organizações políticas de esquerda e, de fato, acabaram adotando práticas terroristas devido ao endurecimento dos regimes, do sufocamento financeiro, das perseguições, torturas e mortes. Outras já nasceram sob o signo da guerrilha, num momento em que qualquer oposição democrática era tornada ilegal pelo regime. Entre as mais conhecidas, e relevantes, nos anos 1960-70, havia as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o Sendero Luminoso (Peru), a FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua), o ELN (Exército de Libertação Nacional, Colômbia, ainda hoje ativo), M-19 (Movimento 19 de Abril, também na Colômbia), FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, em El Salvador), os Montoneros (Argentina) e os brasileiros VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e ALN (Aliança Libertadora Nacional).

Hoje, misturado por Trump aos brasileiros PCC e CV e ao mexicano Cartel de Sinaloa -facções criminosas de matriz mafiosa, mas não terroristas – encontra-se entre outros o colombiano Exército de Libertação Nacional (ELN), cuja origem remete aos organismos da época da Guerra Fria citados no parágrafo acima.

O ELN nasceu na década de 1960 como uma guerrilha revolucionária de esquerda, inspirada na Revolução Cubana e na Teologia da Libertação. Diferentemente de cartéis de drogas tradicionais ou facções como o PCC e o Comando Vermelho, possui um projeto político declarado e demandas ideológicas claras sobre a estrutura de poder e a reforma agrária na Colômbia. Trump quer massacrá-lo.

O Exército de Libertação Nacional, faz algum tempo, recorre a táticas como atentados a bomba, sequestros para autofinanciamento, extorsões e ataques sistemáticos à infraestrutura civil, como oleodutos. São atos terroristas, mas não decorrem de opção gratuita. A doutrina de segurança nacional denominada Plano Colômbia desprezou a resolução das causas estruturais da insurgência, como a profunda desigualdade agrária e a ausência do Estado nas periferias. Ao focar na eliminação física das frentes guerrilheiras e na criminalização de movimentos sociais associados à esquerda, o aparato estatal, com apoio americano, empurrou o ELN para o isolamento político. Sem canais institucionais legítimos de representação e sufocados pela ofensiva militar, o grupo radicalizou-se.

O Escudo das Américas irá fomentar a radicalização de grupos de origem político-ideológica, a exemplo do ELN. E não se pode prever que será vitorioso contra as narcomáfias como PCC e Comando Vermelho, pois tais facções, hoje, atuam à base de cooptação política e empresarial. Bombardear seus soldados no mar e nas fronteiras de nada adiantará.

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