
Cerca de 800 mil pessoas tomaram o centro de Paris neste sábado (26) para participar de uma missa ao ar livre celebrada pelo papa Leão XIV. A multidão ocupou a avenida Champs-Élysées e a Place de la Concorde, um dos principais símbolos da República Francesa, numa demonstração da capacidade de mobilização da Igreja Católica em um país marcado pelo avanço da secularização.
A estimativa de público foi divulgada pelo Vaticano e superou em aproximadamente 200 mil pessoas o número de inscrições feitas antecipadamente. A participação chamou atenção diante da queda histórica da frequência às igrejas na França e em outros países europeus.
Antes da celebração, Leão XIV percorreu cerca de dois quilômetros da Champs-Élysées no papamóvel. Entre bandeiras e aplausos, o pontífice seguiu pelo tradicional boulevard até a Place de la Concorde. Crianças e bebês foram levados até o papa durante o percurso para receber sua bênção.
O Papa Leão parou a cidade de Paris! Cerca de 700 mil pessoas participam da missa na Place de la Concorde.
Antes da celebração eucarística, o Pontífice percorreu de papamóvel a famosa avenida dos Campos Elíseos (Champs-Élysées) pic.twitter.com/Mx8xomqee0
— Vatican News (@vaticannews_pt) September 26, 2026
Na homilia, Leão XIV pediu aos católicos que não mantenham sua fé restrita à vida privada. “Deixem que ela transborde, para que aqueles que vocês encontrarem possam ser revigorados e tenham sua sede saciada”, afirmou. “Desta bela cidade de Paris, rezo fervorosamente para que a água viva do Espírito Santo possa fluir por toda a França.”
Apesar do forte esquema de segurança e do bloqueio do trânsito em parte do centro da capital, o evento também atraiu pessoas de outras religiões e participantes sem vínculo religioso. A parisiense Leontine Joseph, de 42 anos, afirmou que a mensagem de Leão XIV ultrapassa as fronteiras do catolicismo. “A mensagem do papa Leão vai muito além dos católicos. Ele fala sobre justiça social, por exemplo”, disse.
A visita de quatro dias do pontífice à França começou na sexta-feira (25), quando ele rezou na Catedral de Notre-Dame, restaurada depois do incêndio de 2019. Foi a primeira visita de um papa ao templo desde a tragédia. Neste sábado, Leão XIV também seguiu para Lourdes, no sul do país, um dos principais destinos de peregrinação católica do mundo.
🇫🇷 Centenas de milhares de pessoas recebem o Papa Leão XIV em Paris para missa ao ar livre.
O presidente Emmanuel Macron não compareceu, alegando separação entre Igreja e Estado, mas candidatos da eleição presidencial de 2027 marcaram presença.pic.twitter.com/56yVf5Xres
— Eixo Político (@eixopolitico) September 26, 2026
Durante uma passagem pelo Instituto Católico de Paris, o papa disse estar impressionado com o aumento das conversões ao catolicismo registrado nos últimos anos. “Devemos reconhecer, acolher e proteger a pequena chama que o Espírito Santo acendeu na escuridão da noite, a pequena semente que tenta crescer mesmo entre os espinhos”, afirmou.
O número de batismos de adultos na França triplicou desde 2016 e chegou a 13 mil neste ano. O crescimento, entretanto, ocorre em meio a uma tendência histórica de retração. Em 1980, foram realizados cerca de 513 mil batismos no país. Em 2024, o total havia caído para 186 mil.
A mobilização também ficou evidente na sexta-feira à noite, quando cerca de 80 mil jovens lotaram o Stade de France para uma vigília com o pontífice. O evento teve fogos de artifício e uma apresentação sobre a história do catolicismo francês. “Obrigado pela coragem! Obrigado pela presença! Obrigado pela fé. Vocês são os santos da França!”, disse Leão XIV em francês.
A realização da missa na Place de la Concorde teve ainda forte peso histórico e político. Durante a Revolução Francesa, o local foi palco das execuções de Luís XVI e Maria Antonieta na guilhotina. Atualmente, a praça é associada à República e recebe eventos nacionais, incluindo celebrações do 14 de Julho.
A escolha do espaço provocou críticas entre defensores da rígida tradição francesa de separação entre Igreja e Estado, estabelecida por lei em 1905. Eles argumentaram que um dos maiores símbolos republicanos não deveria receber uma celebração religiosa dessa dimensão. Os organizadores afirmaram, porém, que a Place de la Concorde era o único espaço no centro de Paris capaz de comportar uma multidão tão grande.