A democracia atravessa uma crise que não se limita ao funcionamento das instituições políticas. O avanço da inteligência artificial (IA), a concentração de poder econômico, o aumento da desigualdade e a perda de reconhecimento de determinadas formas de trabalho estão alterando a relação entre cidadãos, mercado e vida pública.
O diagnóstico aparece em uma conversa entre o economista Daron Acemoglu, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Nobel de Economia de 2024, e o filósofo Michael J. Sandel, professor de Harvard e laureado com o Berggruen Prize for Philosophy and Culture em 2025. Publicado pelo Project Syndicate, o diálogo percorre temas como meritocracia, desigualdade, mercados, trabalho, comunidade e os efeitos políticos da inteligência artificial.
Para os dois, o problema está relacionado a uma transformação mais profunda: decisões que deveriam ser objeto de deliberação coletiva passaram a ser determinadas, em grande medida, por mercados e por grupos com elevada concentração de poder econômico e tecnológico.
Meritocracia transforma sucesso em mérito
Ao discutir a meritocracia, Sandel reconhece que selecionar pessoas por suas capacidades é preferível a sistemas baseados em privilégios hereditários, favorecimento ou corrupção. O problema surge quando o sucesso econômico passa a ser interpretado como prova de mérito pessoal — e o fracasso, como responsabilidade individual.
Nas últimas décadas, o filósofo argumenta que o aumento da desigualdade veio acompanhado de uma mudança na forma como vencedores e perdedores são percebidos. Quem alcança o topo pode concluir que seu sucesso é inteiramente resultado de talento e esforço. Por consequência, aqueles que ficam para trás passam a ser vistos como responsáveis pela própria condição.
Acemoglu acrescenta que o problema não desapareceria nem mesmo em uma sociedade plenamente meritocrática. Isso porque os talentos que recebem maior recompensa econômica dependem do contexto histórico e social. Uma habilidade extremamente valorizada hoje poderia ter pouco valor em outro período.
Sandel cita os jogadores de basquete LeBron James e Stephen Curry para ilustrar o argumento. Os dois recebem remunerações muito superiores às de professores ou enfermeiros, mas isso não significa que sua contribuição social seja milhares de vezes maior. Parte das capacidades individuais depende de circunstâncias que não foram escolhidas por seus portadores, enquanto o valor econômico dessas capacidades depende daquilo que uma sociedade decide premiar.
A questão, portanto, não envolve apenas a distribuição de renda, mas também uma dimensão de reconhecimento social – Sandel chama essa dimensão de justiça contributiva.
A justiça distributiva trata da maneira como renda e riqueza são repartidas. A justiça contributiva diz respeito ao reconhecimento, ao respeito e ao prestígio concedidos às diferentes formas de contribuição para a vida coletiva.
Uma sociedade pode reduzir a desigualdade por meio de impostos e políticas sociais e, ainda assim, manter uma hierarquia na qual determinados profissionais são considerados mais importantes do que outros.
A pandemia expôs essa contradição. Trabalhadores de entregas, depósitos, supermercados, enfermagem e cuidados infantis foram reconhecidos como essenciais, mas, segundo Sandel, o momento não produziu uma discussão duradoura sobre a relação entre remuneração, reconhecimento e contribuição social.
O mercado, portanto, não pode ser tratado como uma medida automática do valor de uma atividade. A renda de uma pessoa indica quanto o mercado está disposto a pagar por seu trabalho ou por seus ativos, mas não necessariamente quanto aquela atividade contribui para o bem comum.
É nesse ponto que a discussão sobre meritocracia se encontra com a crítica aos mercados. Para Sandel, não basta perguntar quanto uma sociedade deve redistribuir. Também é necessário discutir o que ela decide valorizar.
Mercado, desigualdade e vida em comum
A crítica não significa rejeição aos mercados. Acemoglu e Sandel distinguem a utilização do mercado como instrumento econômico da expansão da lógica mercantil para praticamente todas as dimensões da vida.
Sandel retoma uma distinção de seu livro What Money Can’t Buy: uma economia de mercado pode ser um mecanismo eficiente para organizar a produção e distribuir determinados bens. Uma sociedade de mercado, porém, é aquela em que a lógica de compra e venda passa a ocupar espaços antes organizados por outros valores.
Saúde, educação, relações pessoais, direito e comunicação aparecem entre os campos nos quais essa expansão pode produzir consequências que não são capturadas pelo preço de uma mercadoria.
O setor financeiro oferece outro exemplo. Acemoglu reconhece que parte das operações financeiras exerce funções importantes, como direcionar capital para investimentos e distribuir riscos. O problema está nas atividades que se aproximam da especulação sem produzir benefícios proporcionais para a economia.
A fronteira, contudo, não é simples. Instrumentos financeiros podem cumprir funções produtivas e, dependendo de como são estruturados e utilizados, também alimentar comportamentos especulativos. A crise de 2008 é apresentada na conversa como exemplo dessa ambiguidade.
A conclusão de Acemoglu é que o setor financeiro precisa de maior escrutínio e regulação, especialmente para evitar situações nas quais determinados agentes capturam os ganhos de operações arriscadas enquanto os custos são distribuídos pela sociedade.
Essa discussão desemboca na desigualdade. Sandel identifica três dimensões: econômica, política e de reconhecimento.
A primeira diz respeito à distribuição de renda e riqueza. A segunda surge quando a concentração de dinheiro permite que determinados grupos tenham maior influência sobre decisões políticas. A terceira está relacionada ao prestígio e ao respeito atribuídos às pessoas de acordo com sua posição social ou ocupação. Há ainda um efeito menos visível: a separação entre classes sociais.
Pessoas de diferentes níveis de renda estão cada vez menos propensas a compartilhar os mesmos espaços. Vivem em bairros distintos, frequentam escolas diferentes, trabalham em ambientes separados e utilizam serviços e equipamentos diferentes.
Para Sandel, essa segregação enfraquece a própria experiência democrática. A democracia não depende de uma sociedade perfeitamente igualitária, mas de algum grau de convivência entre cidadãos diferentes.
Escolas, bibliotecas, parques, transporte público, piscinas municipais e equipamentos esportivos podem cumprir, portanto, uma função que vai além da prestação de serviços. São espaços nos quais pessoas de diferentes origens se encontram e desenvolvem uma experiência compartilhada de vida pública.
É também nesse contexto que Sandel diferencia liberdade como escolha individual de uma concepção de liberdade como participação. Ser livre não significaria apenas escolher produtos, serviços ou estilos de vida, mas ter voz sobre as forças que organizam a vida coletiva. Essa concepção exige comunidade e participação política — e prepara o terreno para a discussão sobre tecnologia.
IA redefine trabalho e poder político
O avanço da inteligência artificial coloca uma questão adicional porque pode atingir justamente uma das funções sociais atribuídas ao trabalho: oferecer não apenas renda, mas também reconhecimento, dignidade e uma forma de participação na vida coletiva.
Acemoglu questiona se medidas distributivas seriam suficientes caso a IA substitua uma parcela significativa dos empregos. Uma renda básica universal ou a distribuição de participação acionária em empresas de tecnologia poderia ajudar a enfrentar a perda de renda, mas não necessariamente resolveria a perda de reconhecimento e de sentido associada ao trabalho. Existe ainda uma segunda ameaça: a concentração de poder sobre o espaço público.
A discussão parte de uma premissa importante de Acemoglu: o caminho da inovação tecnológica não é inevitável. A tecnologia pode ser desenvolvida para substituir trabalhadores ou para ampliar sua produtividade. A direção depende das prioridades econômicas e políticas que orientam investimentos e decisões empresariais.
No cenário atual, porém, os dois veem uma tendência em direção à automação e à concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia. Essas companhias não apenas desenvolvem ferramentas capazes de alterar o mercado de trabalho, mas também ocupam uma posição central na circulação de informações e na comunicação pública.
Para Sandel, decidir para que a tecnologia deve servir não deveria ser uma prerrogativa exclusiva de investidores, executivos ou empresas. Assim como uma sociedade precisa discutir quais formas de trabalho merecem reconhecimento, também deveria deliberar sobre quais objetivos devem orientar a inovação tecnológica.
A questão, nesse caso, é política. Se a tecnologia transforma o trabalho, a informação e a comunicação, seus efeitos não podem ser tratados apenas como consequências inevitáveis do progresso técnico.
Acemoglu e Sandel reconhecem, entretanto, a dificuldade de construir essa deliberação. As democracias enfrentam perda de confiança, concentração econômica e um debate público cada vez mais fragmentado justamente no momento em que decisões tecnológicas de grande alcance estão sendo tomadas.
Mesmo assim, ambos apostam na capacidade democrática de reconstruir esse espaço de discussão. Para Sandel, existe uma demanda por um debate público que vá além da gestão econômica e da disputa política imediata. Para Acemoglu, a aproximação entre economia e filosofia pode ajudar a recolocar em debate questões sobre poder, tecnologia, trabalho e bem comum.
O problema é o tempo. A transformação tecnológica avança enquanto as instituições políticas tentam decidir como reagir.