Contas fora do Brasil usaram o X para fazer propaganda a favor de Flávio Bolsonaro (PL). A Folha de São Paulo identificou, entre 18 e 21 de setembro, ao menos 11 perfis com o selo de “parceria paga”.
O material mostra um gráfico do site de apostas Polymarket com Flávio 58%, Lula 42% e divulga esse número, odd, a cotação da aposta, como se fosse resultado de pesquisa eleitoral. Mas não é. É o preço da aposta. Na Polymarket, 58% quer dizer quem aposta na vitória de Flávio paga de 58 centavos de dólar num contrato. Se ele ganhar, o contrato vale 1 dólar. Se perder, vale zero. Ou seja, é mais caro apostar em Flávio do que em Lula.
Porém, a publicação dos gráficos busca induzir o eleitor ao erro. O impulsionamento é feito pela própria casa de apostas e por terceiros. Nenhum dos perfis tem autorização para esse tipo de divulgação no Brasil.
A plataforma Polymarket está bloqueada no Brasil desde maio por resolução (CMN 5.298) que regula site de apostas em “derivativos de eventos esportivos e preditivos/políticos”: é irregular oferecer aposta sobre eleição no País. No dia 20, a conta oficial da empresa anunciou “alta histórica” do senador, com foto e o gráfico de 58% a 42%.
No mesmo domingo, outros perfis repetiram o arquivo, já com selo de parceria paga. @IranObserver0 escreveu: Lula “está perdendo”; Flávio “é muito pró-EUA e pode tirar o Brasil do Brics”. @sentdefender: “os apostadores agora favorecem” o candidato. @GlobalNewsMontr: Flávio tem a maior chance. As três publicações entraram no ar quase juntas.
A extrema direita internacional amplia o recorte fraudulento
Um ex-deputado republicano dos Estados Unidos, com 3,4 milhões de seguidores, aliado de Donald Trump, escreveu que Flávio “pode salvar o Brasil” e que o País seria “o grande prêmio nas Américas”. Uma empresa da Flórida, que tem 1,2 milhão de seguidores, com postagens em espanhol, se declara “movida” pela Polymarket e divulga caravana e palanque do senador. O vice-presidente dessa empresa foi sócio, na Argentina, de consultor que trabalhou para Jair Bolsonaro em 2022. Um influenciador americano de 639 mil seguidores, entre eles o próprio candidato, publicou anúncio pago no dia 20 afirmando, sem prova, que Lula tentaria “subornar eleitores” com benefícioe sociais. Um perfil citado na representação do TSE trata o gráfico como sinal de que o continente ficaria conservador. No Brasil, o deputado Bibo Nunes (PL) transforma os 58% em “a vitória será nossa” e em pedido de voto
Foi apurado que a Polymarket pagou ao menos US$ 350 mil (cerca de R$ 1,8 milhão) a influenciadores entre janeiro de 2025 e fevereiro de 2026. Donald Trump Jr. integra o conselho da empresa. O fundo ligado a ele é investidor.
Interferência no processo eleitoral
.A legislação brasileira veda propaganda eleitoral paga por quem não é candidato ou partido e doação estrangeira “por meio de publicidade” (art. 24). Resolução TSE também proíbe pagar perfil para postar conteúdo eleitoral.
A campanha de Flávio disse que não tem conhecimento dos anúncios. Procurados depois da ação no TSE, candidato e X não se manifestaram. Ainda não foi identificado quem pagou os posts.
O Partido Missão pediu ao tribunal os contratos da plataforma e a retirada das publicações do ar. Os cinco perfis citados na peça somam 8 milhões de seguidores. O PT pediu ao STF que se apure o financiador. Sem esse nome, o gasto não entra na prestação de contas.