A visita do presidente chinês Xi Jinping aos Estados Unidos, iniciada na quarta-feira (23), abre caminho para uma relação estável e estratégica entre China e EUA, sustentada pelo diálogo e pela cooperação. Ao receber Xi à porta do avião, Donald Trump conferiu à visita de Estado uma atenção incomum. A cerimônia incluiu guarda de honra, execução dos hinos nacionais, salva de 21 tiros e sobrevoo militar.
Na diplomacia, a forma de receber um visitante também transmite uma posição política. A deferência demonstrada por Trump expressa o reconhecimento do peso da China no cenário internacional e da importância do contato direto entre os chefes de Estado. A visita ganha relevância adicional por ser a segunda de Xi aos Estados Unidos em três anos e ocorrer poucos meses depois da viagem de Trump à China.
Na recepção oferecida na Casa Branca na quinta-feira (24), Xi apresentou sua visão para a relação bilateral. O presidente chinês colocou a comunicação contínua entre governos e instituições no centro desse esforço:
“Devemos fortalecer a comunicação. A China e os Estados Unidos têm contextos nacionais diferentes, mas, por meio de um diálogo franco, profundo e contínuo, nossos dois países podem se entender melhor, buscar pontos em comum, deixando de lado as diferenças, e construir confiança mútua. O presidente Trump e eu nos respeitamos. Construímos uma relação pessoal e mantemos contato. Encorajamos nossos departamentos governamentais, como os responsáveis por relações exteriores, assuntos econômicos, cooperação financeira, aplicação da lei e intercâmbios interpessoais, a intensificarem o contato, e apoiamos nossos órgãos legislativos no aumento desses intercâmbios”.
A declaração atribui aos presidentes a tarefa de estabelecer prioridades e conduzir a relação. Canais permanentes de comunicação são especialmente importantes quando surgem divergências.
Ainda durante a recepção, Xi defendeu uma competição sujeita a limites e associou a convivência pacífica à prevenção de crises militares:
“Devemos coexistir em paz. Como já disse muitas vezes, a China e os Estados Unidos, como duas grandes potências, têm a ganhar com a cooperação e perderão com o confronto. Não precisamos evitar mencionar a competição, mas ela deve ser saudável e mantida dentro de limites. Deve ser uma corrida para alcançar o desenvolvimento um do outro, não uma luta em que um vence ou perde. A China e os Estados Unidos devem manter a linha de não conflito e não confronto entre nós, e certamente podemos encontrar o caminho certo para que nossos dois grandes países convivam harmoniosamente neste planeta que ambos chamamos de lar. Nossas duas forças armadas devem manter um diálogo regular e aprimorar os mecanismos de comunicação e prevenção de crises. A Armadilha de Tucídides pode ser superada”.
Essas palavras indicam o alcance político que Beijing atribui ao encontro. A China e os Estados Unidos continuarão a disputar capacidade econômica, científica e tecnológica. A questão decisiva é como atuar para administrar essa concorrência sem permitir que cada desacordo se transforme em uma crise.
A recepção a Xi também simboliza o reconhecimento da estatura alcançada pela China e de sua posição singular na relação com os Estados Unidos. O valor dos gestos exibidos em Washington, em retribuição à recepção oferecida a Trump em Beijing em maio, será medido pela capacidade de convertê-los em uma convivência mais estável e construtiva.
As conversações entre os dois líderes no Salão Oval confirmaram a importância da relação entre chefes de Estado. Xi destacou que os dois líderes realizaram visitas recíprocas em menos de seis meses, algo inédito na história das relações sino-estadunidenses. Disse estar disposto a manter a comunicação com Trump por diferentes meios e a conduzir conjuntamente a relação bilateral rumo a um futuro mais estável, saudável e sustentável.
O presidente chinês retomou o entendimento alcançado em maio, quando os dois líderes concordaram em buscar uma relação construtiva de estabilidade estratégica. Segundo Xi, essa orientação representa um avanço na procura de uma forma de convivência entre as duas potências. Em sua avaliação, a cooperação pragmática pode produzir benefícios mútuos; a concorrência saudável pode favorecer o desenvolvimento de ambos; e as divergências podem ser administradas por meio do diálogo e da construção de confiança.
Há uma base concreta para esse esforço. As economias chinesa e estadunidense permanecem ligadas por comércio, investimentos e cadeias de produção. Empresas e trabalhadores dos dois países sentem os efeitos de mudanças nas regras comerciais. Outros mercados também são afetados quando decisões tomadas em Beijing ou Washington ampliam a incerteza. Essa interdependência eleva o custo das sucessivas retaliações.
Nesse contexto, Xi informou que as delegações econômicas e comerciais concluíram uma nova rodada de consultas e chegaram a um acordo. Considerou o resultado positivo para os setores produtivos, para as populações dos dois países e para a economia global, reforçando a expectativa de que haja avanço na obtenção de benefícios mútuos e o desenvolvimento estável das relações comerciais.
A inteligência artificial foi outro tema das conversações. Xi afirmou que China e Estados Unidos, como grandes potências nessa área, podem manter o diálogo, trocar avaliações sobre os benefícios e riscos da tecnologia e trabalhar para prevenir seu uso indevido ou malicioso. A cooperação em problemas dessa natureza não exige que os dois países adotem políticas idênticas. Exige reconhecer que determinadas consequências ultrapassam fronteiras.
Ao tratar de Taiwan, Xi disse esperar que os Estados Unidos mantenham sua oposição à “independência de Taiwan” e abordem a questão com prudência. Reafirmou que a posição chinesa em defesa da unidade nacional e da integridade territorial é clara. Para Beijing, a forma como Washington conduz esse tema é fundamental para a cooperação estratégica e o desenvolvimento da relação bilateral.
Trump, por sua vez, classificou a visita de Estado de Xi como um acontecimento de grande importância e afirmou acreditar que as relações entre os dois países podem avançar sob a liderança de ambos. Também defendeu a continuidade das consultas econômicas e comerciais para alcançar novos acordos e apontou a inteligência artificial como uma área em que o diálogo e a cooperação devem ser fortalecidos.
O encontro coloca China e Estados Unidos diante da tarefa de transformar entendimentos políticos em decisões concretas. Os intercâmbios entre governos, universidades, pesquisadores, empresas e cidadãos podem dar uma base mais ampla a esse processo, mas não substituem as escolhas dos Estados. Se os compromissos assumidos em Washington resultarem em canais permanentes de negociação e forem mantidos mesmo diante de obstáculos, a visita poderá marcar o início de uma etapa mais estável, construtiva e estratégica na relação entre os dois países.