Documentos revelam que Andrei tentou conter Mendonça, mas Messias barrou reação da PF

Andrei Rodrigues Jorge Messias
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o Advogado-Geral da União, Jorge Messias. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

Um documento sigiloso enviado pelo diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, à Advocacia-Geral da União revela o grau do confronto com o ministro André Mendonça antes de a crise do Banco Master explodir publicamente no Supremo Tribunal Federal. No ofício, encaminhado em 23 de julho ao advogado-geral da União, Jorge Messias, a PF classificou como “desarrazoada” uma decisão de Mendonça que restringia a atuação da corporação e afirmou não haver “qualquer indício de irregularidade” nas investigações. Os documentos foram obtidos pela Agência Pública.

Andrei pediu que a AGU analisasse “as eventuais providências cabíveis” contra a determinação do ministro, então relator do caso Master. A resposta veio em uma nota jurídica também sigilosa e foi negativa. A análise concluiu que a AGU não tinha instrumento judicial adequado para atender à Polícia Federal e registrou que o controle externo da atividade policial cabe ao Ministério Público, e não ao órgão responsável por representar juridicamente a União.

A nota da AGU apresentou uma série de obstáculos ao pedido. Segundo o documento, não se tratava de defender um agente público, a instituição não atua em investigação criminal e a PF não havia demonstrado “prejuízo concreto” provocado pela exigência de comunicar mudanças na equipe. O parecer ainda apontou que a corporação deixara transcorrer o prazo para questionar determinações semelhantes impostas anteriormente por Mendonça, mencionando uma “inércia prolongada da autoridade policial”. Como o material bruto apreendido já havia sido entregue ao gabinete do relator, a AGU avaliou também que não havia mais o que suspender.

Os documentos detalham uma disputa que já vinha se formando havia meses. Mendonça determinara que informações sensíveis ficassem restritas aos policiais diretamente envolvidos nas apurações, inclusive em relação a superiores hierárquicos, e posteriormente exigiu aviso prévio sobre mudanças na equipe e o envio ao gabinete de material bruto extraído de celulares e computadores. A cúpula da PF considerava as medidas uma interferência na autonomia da corporação. Em agosto, a tensão entre Mendonça e Andrei já havia provocado uma tentativa de mediação envolvendo Messias e o ministro da Justiça.

André Mendonça
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Foto: Adriano Machado/Reuters

A nova documentação mostra que essa mediação ocorreu depois do pedido formal feito pela PF. Messias e o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, encontraram-se fora da agenda com André Mendonça após tomarem conhecimento do ofício de Andrei. Os representantes do governo buscaram uma “interlocução” para resolver o impasse. Fontes do alto escalão relataram ainda que a cúpula da AGU se sentiu pressionada pelo diretor-geral da PF e que o episódio chegou ao conhecimento da Presidência.

O movimento aconteceu antes da divulgação das mensagens que levariam o caso Master a uma crise aberta no STF. Em setembro, Mendonça retirou o sigilo de parte das investigações, vieram a público conversas atribuídas a Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes e o conflito institucional escalou. Mendonça chegou posteriormente a afastar Andrei da direção da PF, medida que acabou revertida, enquanto ministros do Supremo passaram a divergir publicamente sobre a condução das apurações.

A revelação dos documentos adiciona uma camada concreta a uma disputa que até então aparecia sobretudo por relatos de bastidores. De um lado, a PF sustentava formalmente que Mendonça ultrapassava limites administrativos ao controlar equipes e fluxo de informações. Do outro, a análise jurídica da AGU concluiu que a corporação não demonstrara prejuízo concreto, perdera oportunidades anteriores de contestação e já havia cumprido parte das determinações que pretendia derrubar. A Polícia Federal não respondeu à Pública até a publicação da reportagem.

Artigo Anterior

Enrolado com Vorcaro, Flávio pede a Mendonça que investigue Lula por suposto uísque

Próximo Artigo

Austrália diz que agente de IA da OpenAI invadiu sistema de saúde do governo

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!