
Lula fez uma cobrança pública à esquerda nesta quarta-feira (23), durante o evento Cultura com Lula, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Depois de criticar a atuação política de setores religiosos, o presidente afirmou que seus próprios aliados têm sido excessivamente passivos diante da extrema direita.
“A esquerda, Chico, é muito decente demais. A esquerda é muito passiva. A esquerda tudo tem um ritual, nada pode ser agressivo, nada pode ser além do normal. A direita não tem critério”, declarou, dirigindo-se a Chico Buarque.
Para ilustrar a diferença que vê entre os dois campos políticos, Lula lembrou o episódio em que Chico Buarque foi hostilizado por antipetistas na saída de um restaurante no Rio, em 2015, no início da ascensão do bolsonarismo. “Eu fiquei pensando: num país em que um canalha qualquer é capaz de chegar num restaurante e ofender uma das coisas mais sublimes da música brasileira […] é porque esse cara não tem limite”, afirmou.
O presidente ampliou a crítica para o tratamento dispensado pela extrema direita a mulheres, negros, indígenas, ambientalistas e artistas. Segundo Lula, a cultura passou a ser apresentada por esses grupos como algo incompatível com a religião. “Eles acham que vocês fazem parte do demônio. Fazer cultura é fazer parte do demônio. Vocês falam coisa que a lei de Deus não permite. Na lógica deles. Que é uma lógica totalmente equivocada”, disse.
Lula voltou então sua crítica diretamente a Jair Bolsonaro e questionou a autenticidade do discurso religioso do ex-presidente. “Vocês acham que o Bolsonaro acredita em alguma coisa? Um cara que mandou o filho disputar com a mãe? O cara orientou o filho para disputar com a mãe e ‘que vença o melhor’? Vocês acham que é normal esse cidadão falar em nome de Deus?”, perguntou. A referência é à disputa eleitoral envolvendo integrantes da família Bolsonaro, utilizada por Lula como exemplo da contradição que atribui ao discurso religioso da direita.
Lula ataca a “passividade” da esquerda contra a ascensão da extrema-direita no mundo e dispara: “É para derrotar o fascismo, a hipocrisia e a mentira” pic.twitter.com/ZEECp5ISfO
— deok (@lauricadeok) September 24, 2026
O presidente afirmou que o confronto político atual tem natureza diferente das disputas enfrentadas pela esquerda brasileira no passado. “Nós estamos com um baita de um problema. Não é mais derrotar ditadura militar. É derrotar o fascismo, a hipocrisia e a mentira”, declarou. A fala transformou a crítica à passividade em um chamado para que seus apoiadores ocupem de maneira mais ativa o debate político e cultural.
Na sequência, Lula ligou essa disputa interna ao avanço da influência dos Estados Unidos sobre governos da região. Ele afirmou que o Brasil também precisa enfrentar “o direito dos americanos de querer governar o Brasil” e mencionou a reunião conduzida por Donald Trump, em Nova York, com integrantes do Escudo das Américas, coalizão liderada por Washington para ações contra o crime organizado. Brasil e Uruguai ficaram fora do grupo de países que aderiram à declaração anunciada durante a Assembleia Geral da ONU.
Trump utilizou o encontro para defender ações mais duras contra organizações criminosas e classificações de grupos como PCC e Comando Vermelho no âmbito da ofensiva regional. Lula citou a iniciativa como parte de uma disputa mais ampla sobre soberania e influência estadunidense na América Latina. No ato da Fundição Progresso, porém, sua mensagem principal foi dirigida ao próprio campo político: para ele, a esquerda precisa deixar de apenas reagir aos ataques e disputar de forma mais incisiva os valores, a cultura e o debate público.