Indigenista e pesquisador também analisou o papel de Lula na ONU, os conflitos em torno dos povos indígenas e os dilemas entre desenvolvimento econômico, transição energética e preservação territorial
Da Redação
A reta final das Eleições 2026 foi o ponto de partida para uma discussão que avançou sobre temas centrais da política brasileira e internacional na edição desta terça-feira (22/09) do Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular. O programa reuniu o indigenista, pesquisador e doutor em Políticas Públicas Gustavo Guerreiro, com comentários de Antonio Ibiapino e apresentação de Reynaldo Aragón.
A conversa abordou o discurso do Presidente Lula na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), as transformações na ordem internacional, a situação dos povos indígenas, as relações entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental e as disputas políticas no Ceará. A entrevista também tratou das críticas de Guerreiro a declarações e posições atribuídas a Ciro Gomes em relação aos povos originários.
A edição foi realizada em um momento de intensa movimentação eleitoral, a poucos dias da votação, mas a discussão não ficou restrita às estratégias de campanha. O programa procurou relacionar o cenário político brasileiro às disputas internacionais e aos conflitos envolvendo soberania, recursos naturais e modelos de desenvolvimento.
Gustavo Guerreiro: Lula deve defender soberania e multilateralismo
Um dos primeiros assuntos tratados foi a participação do Presidente Lula na Assembleia Geral da ONU. Para Guerreiro, o discurso brasileiro deveria reafirmar princípios relacionados à soberania nacional, à autodeterminação dos povos e ao funcionamento das instituições multilaterais.
O pesquisador avaliou que Lula ocupa uma posição relevante na diplomacia internacional e afirmou que o Brasil, especialmente por sua atuação em agrupamentos como os Brics, participa de uma disputa mais ampla sobre os rumos da ordem internacional.
“Eu acho que o Lula é um dos grandes estadistas, senão o principal estadista no sentido clássico da palavra no mundo”, afirmou.
Segundo Guerreiro, a atuação brasileira deveria combinar firmeza na defesa dos princípios diplomáticos com uma tentativa de reduzir as tensões internacionais. Ele também citou a reforma do Conselho de Segurança da ONU, a Aliança Global contra a Fome, a taxação dos super-ricos e a justiça climática como temas que, em sua avaliação, integram a agenda internacional brasileira.
“Eu acredito que um outro ponto importantíssimo que deve ser abordado pelo Lula seria a reforma radical no Conselho de Segurança da ONU”, declarou.
O pesquisador também destacou a necessidade de discutir o financiamento dos países em desenvolvimento e as responsabilidades das nações mais ricas diante das mudanças climáticas.
Para Guerreiro, a questão não se limita ao conflito entre diferentes potências. O debate envolve a própria capacidade das instituições internacionais de responder às crises contemporâneas.
Críticas a Ciro Gomes e a questão indígena
A entrevista avançou para a política cearense quando Reynaldo Aragón mencionou um vídeo produzido por Guerreiro no qual o pesquisador critica declarações de Ciro Gomes sobre os povos indígenas.
Guerreiro relatou que sua manifestação ocorreu após Ciro participar de um debate utilizando um anel de tucum e afirmar ser amigo dos indígenas e defensor de seus territórios. O pesquisador contestou a compatibilidade entre esse discurso e posições que atribui ao político em relação às comunidades indígenas.
Na avaliação de Guerreiro, há uma longa disputa em torno do reconhecimento dos povos originários no Ceará, envolvendo comunidades como Tapeba, Pitaguary, Anacé, Tabajara e Potiguara.
Ele também criticou declarações que, segundo seu relato, tratariam a reivindicação de identidade indígena como uma estratégia para obter acesso à terra.
“Eu questionei, você está reduzindo aí centenas de anos de luta indígena, sobretudo dos indígenas do Nordeste”, afirmou.
Guerreiro relacionou esse debate à história da ocupação territorial e aos conflitos provocados por grandes projetos de infraestrutura no Ceará. Entre os exemplos citados esteve a implantação do Complexo Industrial e Portuário do Pecém e os conflitos envolvendo comunidades indígenas da região.
O pesquisador afirmou ainda que sua crítica não se restringe a Ciro Gomes, mas integra uma discussão mais ampla sobre a forma como determinados setores políticos tratam as reivindicações dos povos originários.
“Eu não consigo entender como é que, por exemplo, os Anacés, os Tapeba, os Pitaguary […] que sofrem há décadas massacres, violência, todo tipo de privação, preconceito institucional, preconceito normal mesmo”, declarou.
Ao explicar a motivação para publicar o vídeo, Guerreiro afirmou que considera necessário responder publicamente ao que entende como desqualificação das reivindicações indígenas.
“Eu estou me sentindo na obrigação ética de fazer essa denúncia. Se isso vai ter impacto, se isso não vai, para mim não interessa. Para mim me interessa passar a mensagem”, afirmou.
“O problema é que ele não tem coerência política”
A conversa também abordou a trajetória partidária de Ciro Gomes. Guerreiro reconheceu que o político possui formulações teóricas que considera relevantes, especialmente na discussão sobre desenvolvimento nacional, mas questionou a continuidade entre suas posições ao longo da carreira.
“O problema do Ciro é que ele não tem coerência política”, afirmou.
Guerreiro mencionou a passagem de Ciro por diferentes partidos e associou essas mudanças às transformações de seu discurso político. Na avaliação apresentada durante a entrevista, essa trajetória dificulta a compreensão de uma linha política permanente em suas posições.
A fala foi acompanhada por comentários de Antonio Ibiapino, que também apresentou críticas ao posicionamento de Ciro Gomes e à política cearense.
Desenvolvimento não pode ser discutido sem os territórios
Outro eixo importante da entrevista foi a relação entre crescimento econômico e proteção dos territórios indígenas e de comunidades tradicionais.
Guerreiro afirmou que grandes projetos de infraestrutura costumam produzir impactos que ultrapassam as populações indígenas. Segundo ele, comunidades ribeirinhas, quilombolas, camponeses e outros grupos tradicionais também são atingidos por projetos de grande escala.
“Historicamente, o Brasil tem tratado os povos indígenas como uma barreira ao desenvolvimento”, disse.
O pesquisador relacionou esse processo à formação histórica do capitalismo brasileiro e à permanência de práticas que considera vinculadas ao período colonial.
Para ele, a pergunta central não deveria ser apenas quanto determinado projeto pode produzir, mas qual modelo de desenvolvimento está sendo construído e quem se beneficia dele.
“Que desenvolvimento é esse? Para quem ele é?”, questionou.
Guerreiro argumentou que recursos naturais, infraestrutura e investimentos precisam ser discutidos em conjunto com distribuição de renda, geração de empregos e preservação dos territórios.
Ele também rejeitou uma visão segundo a qual os povos indígenas deveriam permanecer isolados de transformações econômicas e sociais. A questão, em sua análise, seria garantir às próprias comunidades o direito de decidir sobre seu futuro.
“Eles precisam ter direito de escolher o que eles querem ser”, afirmou.
Petróleo, transição energética e minerais críticos
A discussão também chegou à transição energética e aos projetos envolvendo petróleo, minerais críticos e infraestrutura tecnológica.
Reynaldo Aragón levantou a questão do prazo necessário para a substituição dos combustíveis fósseis e apontou o dilema entre a necessidade de financiar uma transição energética e os impactos ambientais provocados pela exploração de petróleo.
O debate incluiu ainda a expansão de data centers, a exploração de minerais críticos e as possibilidades de desenvolvimento de novas cadeias industriais no Brasil.
Guerreiro argumentou que a transição energética não pode ser tratada apenas como uma questão tecnológica. Para ele, o debate também envolve soberania, distribuição dos benefícios econômicos e proteção dos territórios.
O pesquisador citou uma experiência recente em um congresso relacionado à mineração e afirmou que empresas do setor buscam previsibilidade para seus investimentos. Na interpretação apresentada por ele, essa demanda precisa ser confrontada com a necessidade de regulação e de participação das comunidades atingidas.
A discussão trouxe para o centro uma questão que deve ganhar importância nos próximos anos: como o Brasil poderá aproveitar seus recursos naturais e, ao mesmo tempo, desenvolver capacidade tecnológica própria sem reproduzir uma economia baseada predominantemente na exportação de matérias-primas.
A defesa de uma política de desenvolvimento com inclusão
Antonio Ibiapino acrescentou à discussão a necessidade de formação técnica e tecnológica no país. O comentarista defendeu que a exploração dos recursos naturais brasileiros deveria estar vinculada à capacidade nacional de transformar matérias-primas em produtos de maior valor agregado.
Ibiapino também citou a expansão das escolas técnicas e das universidades como parte desse processo de formação de mão de obra qualificada.
Na avaliação apresentada no programa, o debate sobre minerais estratégicos não deveria se limitar à exploração e exportação. O desafio estaria em criar condições para que o conhecimento científico e tecnológico produzido no país participe da transformação desses recursos.
A conversa passou ainda pela privatização da Companhia Vale do Rio Doce e pelo controle privado de recursos minerais brasileiros. As afirmações feitas durante o programa sobre valores e condições da privatização não foram verificadas de forma independente nesta matéria e, por isso, são tratadas aqui como declarações do comentarista.
Eleições e disputa política no Ceará
Na parte final do programa, a discussão retornou ao cenário eleitoral de 2026. Reynaldo Aragón observou que a campanha ocorre em meio a disputas políticas nacionais e regionais cada vez mais conectadas.
O programa também discutiu a presença de discursos relacionados à segurança pública na disputa eleitoral cearense e a relação entre violência, desigualdade social e políticas públicas.
Ibiapino defendeu que o enfrentamento da violência não pode ser separado de políticas sociais, educação e cultura. Guerreiro, por sua vez, retomou a necessidade de discutir desenvolvimento e inclusão social a partir das condições concretas das populações que vivem nos territórios afetados por grandes transformações econômicas.
A entrevista terminou com um convite para que Guerreiro participe de uma edição do Código Aberto, programa retransmitido pela Atitude Popular, para aprofundar a discussão sobre tecnologia, desenvolvimento, povos originários, comunidades ribeirinhas, minerais críticos, data centers e os impactos desses projetos no Ceará.
Na despedida, Guerreiro agradeceu o convite e destacou que a conversa poderia ter avançado por outros temas.
“Eu acho que é um tempo muito curto, né? Tinha tanta coisa mais pra gente conversar”, afirmou.
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