Ao que tudo indica, o cinismo do clã Bolsonaro não conhece limites (e nem fronteiras). Enquanto o 01, Flávio Bolsonaro, único candidato à Presidência investigado por corrupção, usa a propaganda eleitoral para falar em “escândalo” — embora seja personagem central da investigação da PF sobre sua relação com Daniel Vorcaro. Do outro lado, o 03, Eduardo Bolsonaro, sob a tutela de Trump, entra em cena por outra frente: na quarta-feira (16), pede aos Estados Unidos novas sanções contra Alexandre de Moraes.
Considerado foragido da Justiça e morando nos Estados Unidos, Eduardo se reuniu em Washington com integrantes do governo Trump, no Departamento de Estado, e pediu sanções contra os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes. A reunião ocorreu um dia depois da sessão do STF e contou com a presença do blogueiro Paulo Figueiredo, que também defendeu novas punições contra os ministros.
03 usa julgamento do STF para ressuscitar sanções
A ofensiva já havia sido anunciada pelo próprio Eduardo na véspera. Depois da sessão do Supremo, ele afirmou que usaria o julgamento como base para pedir novas sanções e escreveu que estava tudo “registrado e pronto para expor” em Washington.
O principal alvo é Moraes, que foi incluído na lista de sancionados dos Estados Unidos pela Lei Global Magnitsky em julho de 2025 e retirado pelo governo Trump em dezembro do mesmo ano. Agora, Eduardo e Figueiredo defendem que o ministro volte à lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), órgão do Tesouro dos Estados Unidos.
A dupla também pede sanções contra Dino e Gilmar. O argumento de Figueiredo é que os dois deram “apoio material” a Moraes, já designado pela Lei Global Magnitsky, e por isso deveriam também entrar na lista de sancionados.
Dino reage à pressão estrangeira
A movimentação de Eduardo acontece na esteira da sessão do STF de terça-feira (15), que terminou sem decisão sobre o prosseguimento do caso. Flávio Dino pediu vista e interrompeu a análise. Durante o julgamento, o ministro reagiu à possibilidade de novas sanções dos Estados Unidos e classificou a pressão sobre a Corte como uma questão de soberania.
“Isto aqui é o Tribunal Supremo de um país soberano e, portanto, esse ambiente de pressão ilegítima deve constituir alvo da indignação não do Tribunal, mas de todos os brasileiros.”
Dino também deixou claro que eventuais punições não interfeririam em sua atuação. “Da minha parte, isso não altera rigorosamente nada”, afirmou. Segundo o ministro, o Supremo não pode se curvar a pressões externas ou a outros centros de poder.
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É justamente essa sessão que Eduardo agora usa como argumento para pressionar o governo Trump por novas sanções contra ministros brasileiros. Ao lado de Paulo Figueiredo, o 03 transforma o julgamento do Supremo em peça de sua articulação nos Estados Unidos.
E é aí que as duas frentes do clã Bolsonaro se encontram. Enquanto o 01 usa a campanha presidencial para falar em “escândalo”, apesar de estar no centro dele, o 03 usa uma sessão do Supremo para pedir punições contra ministros brasileiros no exterior. Um disputa a eleição no Brasil; o outro articula, de Washington, pressão sobre uma instituição brasileira. Diante disso, a defesa da soberania não pode ser tratada como detalhe: decisões sobre o Judiciário brasileiro cabem às instituições brasileiras, sem tutela ou pressão de governos estrangeiros.