Quem é Guilherme Cortez: uma das principais apostas para a renovação da esquerda no Congresso Nacional

Se há uma disputa geracional decisiva para o futuro do Brasil, ela se trava, hoje, pela cabeça e pelo coração dos mais jovens: o mesmo território onde a extrema direita tem avançado com mais força e projetado novas figuras, como Nikolas Ferreira. As eleições de 2026 vão medir, entre outras coisas, se a esquerda também é capaz de se renovar, abrir diálogo com a nova geração e, com isso, ampliar a sua bancada no Congresso Nacional, o que é decisivo não apenas no presente, mas para uma construção de futuro que já se anuncia para os próximos anos.

O diálogo com a geração Z, quem tem até 29 anos, é um dos principais desafios da campanha do Lula deste ano, já que o presidente ainda busca as pontes certas para dialogar com uma geração que não viveu a redemocratização, não se reconhece automaticamente nesses símbolos e é, hoje, o principal alvo da disputa cultural travada pela extrema direita.
Por isso, é tão valioso quando surgem novas lideranças jovens com relevância para a esquerda brasileira, capazes de ajudar a abrir esse caminho de diálogo. É justamente nesse terreno que Guilherme Cortez, hoje deputado estadual pelo PSOL e candidato a deputado federal em 2026, construiu uma trajetória que furou bolhas em escolas, universidades, nas ruas e, cada vez mais, nas redes sociais.

Aos 28 anos, ele já coleciona uma trajetória política expressiva, que justifica ser hoje uma das principais apostas da esquerda em São Paulo para a renovação do Congresso Nacional. Por isso, vale a pena conhecer a trajetória dessa liderança que, mesmo jovem, já possui larga experiência política.

Do grêmio estudantil ao deputado mais jovem da esquerda na ALESP

Guilherme da Costa Aguiar Cortez nasceu em São Paulo em dezembro de 1997. Ainda no ensino médio, na ETESP, participou do grêmio estudantil e integrou o movimento de ocupações que sacudiu mais de 200 escolas paulistas entre 2015 e 2016. Em sua primeira experiência de ação política, já saiu com uma vitória, já que este movimento conseguiu barrar um projeto de reestruturação do ensino médio que previa o fechamento de dezenas de unidades escolares no estado.

Foi ali, ainda adolescente, que Cortez descobriu o gosto pela política que se faz desde a base. Aos 16 anos, tirou o título de eleitor e se filiou ao PSOL, tornando-se também, alguns anos depois, militante do coletivo de juventude Afronte, hoje chamado de Revide. Pouco depois, deixou a capital para cursar Direito na Unesp de Franca, cidade do interior paulista onde construiu, literalmente do zero, uma base política sólida, organizando o diretório municipal do partido, os atos da greve geral de 2017 contra a reforma trabalhista, as manifestações contra cortes na educação e os protestos pelo impeachment de Jair Bolsonaro.

A sua estreia eleitoral veio em 2020, aos 20 anos, como candidato a vereador em Franca, quando foi o quarto mais votado da cidade, embora o PSOL não tenha alcançado o quociente eleitoral necessário para garantir a vaga na câmara de vereadores da cidade. Esse resultado revelou que havia ali uma base real para projetar uma liderança política nos anos seguintes, afinal, tratou-se de um resultado extraordinário, conquistado sem máquina partidária consolidada, sem dinheiro e sem sobrenome conhecido.

Foi essa base que sustentou a virada da sua trajetória em 2022, quando foi eleito deputado estadual pelo PSOL aos 24 anos, novamente em uma campanha sem padrinho político e sem estrutura. Cortez protagonizou o que ficou conhecido como a vitória da campanha mais barata do estado de São Paulo naquele ciclo eleitoral e se elegeu com 45.094 votos.

Um episódio dessa campanha ajudaria a definir seu estilo de fazer política: ao confrontar publicamente o então candidato Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente investigado por crimes ambientais durante a sua gestão, Cortez viu o vídeo do embate viralizar nacionalmente, o início de uma marca que se repetiria em várias oportunidades ao longo de seu mandato.

Em 2024, disputou a Prefeitura de Franca, cidade que o adotou como filho e que, pouco depois, lhe concedeu formalmente o título de Cidadão Francano. Terminou a disputa com mais de 14% dos votos válidos, confirmando uma base sólida e provando que vale a pena se dedicar à disputa do eleitorado do interior de São Paulo, historicamente reconhecido como conservador.

Um mandato com vitórias e protagonista na oposição ao governo Tarcísio

Com all star no pé e o sorriso que lhe é característico, Guilherme Cortez combina combatividade, com uma capacidade, cada vez mais rara em tempos de polarização, de combinar diálogo com embate político agudo, assim como mobilizar a necessidade da unidade, articulação política com enfrentamento na dose certa.

Empossado na Alesp em março de 2023, Cortez se tornou rapidamente uma das vozes mais combativas contra o governo de Tarcísio de Freitas, tanto no plenário quanto nas redes, tornando-se, aliás, o deputado mais jovem a liderar uma bancada partidária na história da Casa, como vice-líder da oposição e ex-líder da bancada PSOL-Rede. Passados quase quatro anos de mandato, o volume de projetos apresentados, aprovados e vitórias concretas conquistadas ajuda a explicar por que o PSOL aposta na sua eleição em 2026.

Foi o Cortez quem, ainda em 2025, apresentou na Alesp um projeto de lei para garantir o emprego dos trabalhadores da CPTM diante do processo de concessão das linhas 10, 11, 12 e 13 à iniciativa privada. Quando os ferroviários entraram em greve em agosto de 2026, foi justamente essa garantia de absorção dos trabalhadores por outros órgãos públicos que se tornou a principal exigência da categoria para encerrar a sua paralisação, pressionando o próprio governo Tarcísio a apresentar uma proposta embasada no projeto do Guilherme Cortez e aprovada no plenário da ALESP em seguida.

Essa vitória dos ferroviários se tornou um exemplo diante de um governo de extrema direita que priorizou um projeto de privatizações e ataque aos servidores públicos. Assim, uma de suas lutas mais significativas foi a resistência à privatização da Sabesp, do Metrô e da CPTM: Cortez sustenta, de forma recorrente, que o saneamento e o transporte públicos são patrimônio da população paulista. Na mesma frente, Cortez também apresentou projeto para proibir que estações de trem e metrô tenham nomes de patrocinadores e para impedir que estações homenageiam figuras ligadas à ditadura militar, provando, assim, que é possível unir lutas materiais e simbólicas, sem prejuízo entre uma frente e outra.

Uma das suas campanhas mais visíveis, ainda, foi em defesa do ingresso justo, contra as taxas abusivas cobradas na venda de ingressos para shows e eventos. Desta mobilização saíram várias vitórias concretas em São Paulo: o fim da cobrança de taxa de administração e de taxa de serviço no show do BTS, a limitação da compra a quatro ingressos por CPF no mesmo evento, a abertura de investigação do Ministério Público contra a Ticketmaster, a multa aplicada à Eventim por irregularidades nos shows de RBD, Coldplay e Paul McCartney, e a fiscalização da venda de ingressos para a Fórmula 1.

Além disso, protocolou uma CPI dos Ingressos na Alesp, assinada por 32 deputados estaduais, apresentou projeto de lei para proibir de vez as cobranças irregulares e obrigar o ressarcimento direto ao consumidor (PL 176/2026), outro para proibir o fracionamento fraudulento da meia-entrada (PL 728/2025) e um terceiro garantindo segurança básica ao público em grandes eventos: água gratuita, climatização e atendimento médico (PL 16/2024). Toda essa mobilização junto aos maiores fãs-clube (fandoms) ajudou a desaguar na vitória nacional, concretizada pelo Presidente Lula em 31 de agosto de 2026 por meio de dois decretos (água gratuita em shows e combate ao cambismo digital).

Cortez é, hoje, reconhecido como o parlamentar que mais apresentou projetos de lei voltados à comunidade LGBTI+ no Brasil: foram mais de 20 propostas, entre elas o PL 1495/2023, que criminaliza a chamada “cura gay” e que já inspirou parlamentares de outros estados a apresentarem projetos semelhantes.

Além disso, Cortez é, hoje, reconhecido como o parlamentar que mais apresentou projetos de lei voltados à comunidade LGBTI+ no Brasil: foram mais de 20 propostas, entre elas o PL 1495/2023, que criminaliza a chamada “cura gay” e que já inspirou parlamentares de outros estados a apresentarem projetos semelhantes.

Por isso, a sua campanha à deputado federal encarna o slogan “mais de nós no poder” e simboliza a luta para eleger a maior bancada LGBT+ da história do Congresso Nacional. Abertamente bissexual, colocou-se na linha de frente do enfrentamento à chamada CPI da Transição de Gênero na Alesp e propôs uma CPI da Homofobia para investigar crimes cometidos contra pessoas LGBTQIA+ em encontros marcados por aplicativos, após o assassinato de um jovem na zona sul de São Paulo em 2024. Também organizou audiência pública sobre o crescimento da violência LGBTfóbica na capital que, segundo levantamento do Instituto Pólis, aumentou 970% entre 2015 e 2023, e denunciou ao Ministério Público declarações LGBTfóbicas de vereadores do interior paulista.

No campo da defesa da educação pública, Cortez aprovou, ainda, projeto de lei que institui a educação climática no currículo escolar paulista, apresentou o Programa Escola sem Censura para a rede pública estadual, e lutou pelo benefício da meia-entrada para estudantes de cursinhos populares. Também é co-autor de projeto aprovado que amplia os direitos de estudantes autistas e com deficiência, garantindo novas adaptações no ambiente escolar.

Como demonstrou o seu embate com Ricardo Salles, Cortez é ecossocialista. Nesse sentido, levou à COP 30, em Belém, um dossiê elaborado com mais de 20 organizações da sociedade civil reunindo mais de 30 denúncias de “negligência climática” do governo Tarcísio em todo o estado de São Paulo, da venda de terras públicas com descontos de até 90% no Pontal do Paranapanema à ausência de qualquer menção a clima, desastre ou emergência na Lei de Diretrizes Orçamentárias do estado para 2025.

No plano da memória histórica, apresentou ainda, o PL 161/2025, que propõe renomear a Rodovia Castello Branco, batizada em homenagem ao primeiro presidente da ditadura militar, para Rodovia Eunice Paiva, em referência à advogada e ativista que lutou por justiça após o desaparecimento do marido, o ex-deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura.

Esses são apenas alguns exemplos de lutas e vitórias conquistadas em quatro anos, como deputado estadual, mesmo em uma conjuntura adversa, diante da força de um governo estadual do campo da extrema direita.

Imagina em Brasília

Em 2026, aos 28 anos, Guilherme Cortez lança a sua candidatura a deputado federal por São Paulo, com o número 5005, pela Federação PSOL-Rede, decisão que o partido trata como uma aposta estratégica para ampliar a sua bancada e falar diretamente a uma geração jovem que a esquerda brasileira vem, em boa medida, perdendo para o conservadorismo digital.

Em 2026, aos 28 anos, Guilherme Cortez lança a sua candidatura a deputado federal por São Paulo, com o número 5005, pela Federação PSOL-Rede, decisão que o partido trata como uma aposta estratégica para ampliar a sua bancada e falar diretamente a uma geração jovem que a esquerda brasileira vem, em boa medida, perdendo para o conservadorismo digital.

Sua plataforma de campanha, batizada “Imagina em Brasília”, organiza-se em eixos que atravessam o essencial da vida de quem trabalha: o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal para 40 horas sem perda salarial; a atualização da lei do estagiário para ampliar a proteção aos estagiários; a taxação de grandes fortunas, lucros e dividendos; o combate à pejotização fraudulenta e a ampliação de direitos para terceirizados; tarifa zero no transporte público; regulação de aluguéis e reversão de privatizações de serviços essenciais como água e saneamento; reforma agrária ecológica e taxação de grandes poluidores; ampliação de cotas raciais, para pessoas com deficiência e pessoas trans nas universidades; e um pacote de direitos para a população LGBTI+ que inclui a criminalização efetiva da LGBTIfobia e a legalização da união homoafetiva com plenos direitos.

O programa também não recua diante de temas que boa parte da política institucional prefere evitar: defende a legalização do aborto como política de saúde pública, a legalização da maconha como estratégia de redução de danos e enfrentamento ao crime organizado, e a ruptura de relações do Brasil com o Estado de Israel diante de violações sistemáticas do direito internacional.

Não é incomum, no jogo eleitoral, encontrar candidaturas que se anunciam pelo que prometem ser. A de Guilherme Cortez se apresenta pelo que já provou que é: um mandato estadual que escolheu o enfrentamento direto à privatização, à extrema direita e à precarização da vida e que fez isso sem embarcar na lógica do gabinete que afasta os parlamentares das pessoas comuns.

Levar essa mesma disposição e exemplo para Brasília, num momento em que o Congresso Nacional segue sendo o principal fiador do desmonte de direitos e da blindagem de privilégios, não é apenas uma aposta eleitoral do PSOL. Para quem acompanha de perto a trajetória de Cortez, das ocupações de escola ao plenário da Alesp, é a continuidade natural de um caminho que colecionou vitórias até aqui.

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