
Um relatório sigiloso de 196 páginas produzido pela Polícia Federal em fevereiro deste ano reuniu informações sobre as relações pessoais e empresariais do banqueiro Daniel Vorcaro com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O documento, assinado por quatro delegados — Daniel Mostardeiro Cola, Guilherme Alves de Siqueira, Wedson Cajé Lopes e Victor Arruda de Oliveira —, concentrou-se especialmente no ministro Dias Toffoli, então relator do caso Banco Master, segundo reportagem da revista Piauí.
A PF cruzou 17 contatos telefônicos entre Vorcaro e Toffoli com mensagens extraídas do celular do banqueiro. Os investigadores identificaram conversas sobre encontros, negócios, festas e viagens envolvendo ministros do STF, integrantes do Judiciário e parlamentares. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, aparece diversas vezes como intermediário entre Vorcaro e integrantes da cúpula do Judiciário.
O relatório também registrou 12 encontros entre Vorcaro e Toffoli em Brasília, São Paulo e Londres, além de informações sobre estruturas empresariais e fundos ligados a familiares do ministro. Em uma das conversas, Faria se referiu ao resort Tayayá como “a fazenda de Toffoli”.
Um dos episódios investigados foi o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres em abril de 2024 e financiado quase integralmente pelo Banco Master. As mensagens obtidas pela PF indicam que Vorcaro acompanhou pessoalmente os gastos da viagem e demonstrou preocupação em evitar que o banco aparecesse publicamente como financiador do evento.
A hospedagem no Hotel The Peninsula, por exemplo, chegou a ser estimada em 760 mil libras, cerca de R$ 5 milhões, e depois subiu para 850 mil libras, aproximadamente R$ 6 milhões. Leonardo Serrano Giunchetti, da SL Consulting, responsável pela logística, alertou Vorcaro que despesas com upgrades de quartos de autoridades seriam pagas pelo banqueiro. “Todos esses upgrades de quartos de autoridades, etc., serão conta nossa. Isso, em teoria, por lei, não pode”, escreveu.

A estratégia discutida nas mensagens era emitir a nota do hotel em nome do Grupo Voto, embora o dinheiro viesse de Vorcaro. O banqueiro também pediu que o nome do Master fosse retirado da lista de convidados e demonstrou preocupação com a exposição do banco.
Outro episódio chama atenção pelo volume dos gastos. Uma degustação de uísque Macallan custou a Vorcaro, segundo as mensagens, cerca de R$ 3,3 milhões. Dos mais de 60 participantes do fórum, 23 participaram da degustação, ao custo aproximado de R$ 145 mil por pessoa. Entre eles estavam Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, do presidente da Câmara, Hugo Motta, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e de ministros do Superior Tribunal de Justiça.
Cada participante recebeu ainda uma garrafa de uísque avaliada em 1.800 libras, cerca de R$ 12,4 mil pela cotação atual.
Moraes também aparece na organização do evento
As mensagens analisadas pela PF mostram que Alexandre de Moraes participou da organização do encontro em Londres. Segundo o relatório, o ministro sugeriu convidados, fez convites e aprovou o cronograma da viagem.
Fábio Faria encaminhou a Vorcaro uma lista atribuída a Moraes com nomes que o ministro pretendia convidar. Entre eles estavam integrantes dos principais órgãos do sistema de Justiça. Mensagens também indicam que Moraes entrou em contato diretamente com ministros como Gilmar Mendes.
O empresário Márcio Chaer, sócio do site ConJur, confirmou a Vorcaro que Moraes havia enviado convites aos colegas. Em uma mensagem, o ministro convidava Gilmar Mendes para um evento jurídico-político em Londres, informando que a organização era de ConJur, Correio Braziliense e Banco Master.
Havia, porém, uma diferença relevante: embora os três nomes aparecessem associados à organização, apenas o Master financiava o encontro. Por isso, Vorcaro insistia em reduzir a exposição pública do banco como patrocinador.
Toffoli afirmou à revista piauí que participou do evento a convite de Moraes e negou ter mantido relação de amizade ou intimidade com Vorcaro.
Dois relatórios, o mesmo celular e tratamentos diferentes
A questão central revelada pelos documentos está na comparação entre dois relatórios produzidos pela PF.
O primeiro, concluído em fevereiro, tratava principalmente das relações de Vorcaro com Toffoli. O segundo, elaborado em agosto, concentrou-se nas relações do banqueiro com Alexandre de Moraes.
Os dois documentos foram assinados pelos mesmos delegados. Ambos utilizaram informações extraídas do celular apreendido de Vorcaro, identificado pelo mesmo número de IMEI. A metodologia e a estrutura dos levantamentos também apresentam semelhanças.
A diferença está no foco e no destino dado aos documentos.
O relatório sobre Toffoli foi produzido espontaneamente pela PF. Já o relatório sobre Moraes foi requisitado pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master, com prazo de 72 horas.
Em 28 de agosto, Mendonça determinou sigilo grau 4, o nível máximo previsto no sistema do STF, para o relatório sobre Moraes. Quatro dias depois, retirou o sigilo, encaminhou o documento ao presidente Edson Fachin e determinou o aprofundamento da análise das mensagens.

O relatório anterior, porém, teve outro destino.
Mendonça afirmou que o documento de fevereiro não havia sido endereçado a ele. Ainda assim, como relator do caso Master, poderia ter solicitado acesso. Não determinou diligências semelhantes às adotadas posteriormente em relação ao relatório sobre Moraes.
Isso significa que dois documentos produzidos a partir da mesma fonte e por praticamente a mesma equipe de investigadores receberam tratamentos distintos.
No primeiro, as informações sobre Toffoli permaneceram sob sigilo e não produziram novas diligências. No segundo, as informações sobre Moraes foram aprofundadas, encaminhadas à Procuradoria-Geral da República, tiveram o sigilo levantado e chegaram ao plenário do Supremo.
O resultado foi uma assimetria: as informações sobre Moraes vieram a público e desencadearam uma crise no STF, enquanto aquelas relacionadas a Toffoli permaneceram desconhecidas até agora.
O que aconteceu com o relatório sobre Toffoli
Em fevereiro, a PF encaminhou o relatório ao diretor-geral Andrei Rodrigues. Diante das informações reunidas pelos investigadores, Rodrigues pediu uma audiência com Edson Fachin.
O documento continha elementos sobre as relações entre Vorcaro e Toffoli que poderiam levantar questionamentos sobre a imparcialidade do ministro na condução do caso Master.
Quando os ministros do Supremo se reuniram para discutir o material, porém, a maior parte do debate se concentrou na atuação da própria Polícia Federal.
Gilmar Mendes afirmou que a PF poderia estar reagindo a decisões tomadas por Toffoli no caso Master. Cristiano Zanin questionou a dimensão do levantamento e classificou o documento como “nulo”. Kassio Nunes Marques chamou o relatório de “um nada jurídico”.
Mendonça também defendeu Toffoli. “Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado”, afirmou.
Flávio Dino foi ainda mais contundente e chamou o documento de “lixo jurídico”.
Toffoli terminou deixando voluntariamente a relatoria do caso Master. Os ministros divulgaram posteriormente uma nota de desagravo na qual manifestaram “apoio pessoal” ao colega e reiteraram a “inexistência de suspeição ou impedimento”.
O relatório da PF, entretanto, permaneceu sob sigilo.
Mendonça levantou o sigilo sobre Moraes
Meses depois, a mesma Polícia Federal produziu outro levantamento com base no celular de Vorcaro, desta vez concentrado em Alexandre de Moraes.
A diferença de tratamento tornou-se especialmente relevante porque a decisão de Mendonça de retirar o sigilo ocorreu em 1º de setembro, 33 dias antes do primeiro turno da eleição presidencial e menos de cinco horas depois de a piauí publicar informações sobre pagamentos feitos por Vorcaro relacionados ao financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O momento ampliou o impacto político da divulgação.

Moraes é um dos principais adversários políticos de Jair Bolsonaro e foi responsável por decisões que atingiram o ex-presidente e seus aliados. Mendonça, por sua vez, foi indicado ao STF por Bolsonaro, depois de ter ocupado os cargos de advogado-geral da União e ministro da Justiça durante seu governo.
O timing das decisões não prova, por si só, que houve intenção política ou que Mendonça tenha agido para beneficiar Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Mas ajuda a explicar por que o tratamento dado aos dois relatórios passou a ser questionado.
A própria natureza dos documentos exige cautela. Eles não são relatórios finais de investigação, não apresentam indiciamentos e não concluem pela prática de crimes. São levantamentos produzidos pela PF para subsidiar o andamento das investigações. As hipóteses registradas pelos delegados não equivalem a conclusões sobre responsabilidade criminal.
Ainda assim, a diferença no tratamento institucional dos dois documentos permanece como um fato.
No caso de Toffoli, um relatório de 196 páginas com informações sobre relações pessoais, negócios, viagens e encontros com Vorcaro permaneceu sigiloso e não gerou novas diligências determinadas por Mendonça.
No caso de Moraes, um relatório produzido posteriormente, com a mesma fonte e pelos mesmos delegados, foi requisitado pelo relator, teve sua análise aprofundada, foi encaminhado à PGR e acabou tornado público.
A crise atual entre Moraes e Mendonça, que envolveu inclusive o afastamento de Andrei Rodrigues da direção da PF — posteriormente revertido —, portanto, não surgiu apenas da divulgação de mensagens. Ela também está relacionada às diferentes decisões tomadas a partir de informações produzidas pela própria Polícia Federal.
O caso Master agora coloca uma questão inevitável para o Supremo: se a investigação deve seguir o dinheiro e as relações de poder, todos os personagens precisam estar submetidos ao mesmo escrutínio.
Ministros do STF, banqueiros, empresários, políticos e aliados de diferentes campos precisam ser tratados segundo os mesmos critérios. A investigação perde legitimidade quando parece escolher quem será exposto e quem permanecerá protegido pelo sigilo.
O ponto não é afirmar que houve coordenação entre as decisões ou atribuir intenção criminosa a qualquer ministro. O ponto é reconhecer a existência de uma assimetria objetiva no tratamento de dois relatórios semelhantes, produzidos pela mesma instituição e a partir da mesma fonte.
Em um caso que envolve bilhões de reais, relações entre banqueiros, políticos, empresários e integrantes do Judiciário, a transparência não pode depender de quem aparece no relatório.
O Banco Master exige que a investigação siga o dinheiro até o fim — qualquer que seja o nome encontrado no caminho.