Igreja que chamou Mendonça de “ungido” ataca tribunais e convoca fiéis às urnas

IPRB
Foto: Reprodução

A Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil (IPRB) publicou uma nota de “repúdio e protesto” em que acusa setores dos tribunais brasileiros de parcialidade, critica governantes e parlamentares e conclama pastores, lideranças e fiéis a comparecer às urnas em 4 de outubro. O documento, datado de 8 de setembro, afirma que a verdade “anda tropeçando no tribunal” e associa o cenário político do país a corrupção, impunidade e deterioração moral.

A denominação não é a igreja de André Mendonça. O ministro pertence à Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e atua como pastor colaborador da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. A própria IPRB deixou essa diferença registrada em seu jornal oficial ao receber Mendonça para uma conferência em março de 2022: apresentou-o como integrante da Igreja Presbiteriana do Brasil. Isso não impediu uma aproximação pública entre o ministro e a denominação renovada.

Naquele mesmo relato institucional de 2022, a IPRB comemorou a participação de Mendonça e o descreveu como “ungido do Senhor”. A conferência, intitulada “Cidadania e Reino de Deus”, foi promovida pela direção nacional da igreja e acumulou, segundo a própria denominação, quase 9 mil visualizações. Em 2025, Mendonça enviou uma carta de congratulações pelo jubileu de ouro da IPRB, exaltando a história da instituição e a atuação do Espírito Santo em sua trajetória.

A nova manifestação não menciona Mendonça, Alexandre de Moraes, Banco Master ou Flávio Bolsonaro. Ainda assim, surge no momento em que o ministro indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro é tratado por setores da direita evangélica como personagem de uma batalha política e espiritual. Michelle Bolsonaro o chamou recentemente de “escolhido e ungido do Senhor”, enquanto lideranças religiosas passaram a mobilizar fiéis em sua defesa durante a crise aberta no STF.

André Mendonça
O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça. Foto: Antonio Augusto/STF

O momento da nota também coincide com uma sequência particularmente sensível envolvendo Mendonça e a Polícia Federal. Em 28 de agosto, a PF pediu ao ministro Flávio Dino autorização para uma operação relacionada às suspeitas de desvio de emendas envolvendo “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Dino autorizou a medida em 3 de setembro. Cinco dias depois, em 8 de setembro, Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada.

A operação já autorizada por Dino foi deflagrada nesta quinta-feira (10), com 49 mandados de busca e apreensão e alvos como o deputado Mario Frias e Karina Gama, ligada à produção de “Dark Horse”. Antes disso, Dino havia afirmado, ao derrubar o afastamento determinado por Mendonça, que retirar os dirigentes da PF poderia interromper investigações sob sua própria relatoria. O recurso de Andrei para retornar ao cargo foi apresentado justamente dentro do processo que envolve emendas relacionadas à estrutura ligada ao filme.

A cronologia é suficiente para registrar que Mendonça atingiu o comando da Polícia Federal quando a operação de Dino já estava autorizada e aguardava execução. Ela não permite afirmar, sem nova prova, que o ministro soubesse da ordem sigilosa ou que tenha afastado Andrei e Almada para barrar a ação. É nesse ambiente, porém, que uma denominação que já o chamou oficialmente de “ungido” publica um manifesto contra a “parcialidade” dos tribunais e encerra o texto convocando pastores e fiéis a votar segundo seus “princípios e valores cristãos” em outubro.

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