Alvo da PF, Karina Gama entra no centro do caso “Dark Horse” e nega pressão para delatar

Da Redação

Produtora do filme sobre Jair Bolsonaro foi alvo da Operação Make Up nesta quinta-feira e está sob investigação por suspeitas envolvendo recursos públicos. Reportagem afirma que investigadores veem uma eventual colaboração como caminho para esclarecer os fluxos financeiros do projeto, mas Karina rejeita a hipótese: “Não tenho nada para delatar”. O caso reúne emendas parlamentares, contrato milionário da Prefeitura de São Paulo e outra investigação sobre recursos ligados a Daniel Vorcaro.

A empresária Karina Ferreira da Gama, produtora de Dark Horse e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), tornou-se nesta quinta-feira, 10 de setembro, uma das personagens centrais das investigações que procuram reconstruir os diferentes circuitos financeiros relacionados ao filme sobre Jair Bolsonaro. Karina foi alvo de busca e apreensão na Operação Make Up, deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União, e aparece agora diante de uma nova especulação: a possibilidade de uma colaboração premiada. Até o momento, porém, não há confirmação pública de que ela esteja negociando uma delação. Ao contrário, a produtora rejeitou expressamente essa possibilidade e afirmou: “Não tenho nada para delatar.”

Essa distinção é fundamental. A informação de que Karina estaria sendo “pressionada a delatar”, publicada pelo Brasil 247, não equivale à existência de um acordo de colaboração, tampouco demonstra que ela tenha manifestado intenção de colaborar. Para o jornalismo, são três situações completamente diferentes: investigadores considerarem que uma pessoa possui informações relevantes; haver interlocução ou pressão para que ela colabore; e existir uma negociação formal de delação. Somente a última poderia evoluir para um acordo submetido à homologação judicial. No caso de Karina, as fontes públicas consultadas até agora confirmam sua negativa, não um acordo.

O interesse dos investigadores é compreensível pela posição ocupada pela empresária na arquitetura que está sendo examinada. Karina preside o ICB, controla a produtora Go Up Entertainment e possui outras empresas relacionadas ao setor audiovisual e cultural. O ICB e a Go Up aparecem no centro de investigações sobre possível circulação de recursos entre contratos públicos e estruturas privadas vinculadas à produção cinematográfica. A Polícia Civil de São Paulo já havia identificado aquilo que descreveu como suspeitas de “confusão patrimonial” entre instituto e produtora e possível “financiamento cruzado ilícito”. Essas são hipóteses investigativas, ainda não conclusões judiciais.

A operação desta quinta-feira ampliou consideravelmente essa frente. Foram expedidos 49 mandados de busca e apreensão, atingindo 29 pessoas e endereços em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão Karina e o deputado federal Mario Frias (PL-SP). Segundo a Polícia Federal, levantamentos financeiros identificaram movimentações da ordem de “centenas de milhões de reais” entre empresas que fariam parte do esquema sob investigação. A corporação apura suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes relacionados a licitações.

A PF sustenta que agentes públicos e privados podem ter direcionado recursos recebidos por organizações da sociedade civil para empresas subcontratadas irregularmente, inclusive sem comprovação da efetiva prestação dos serviços. Segundo a corporação, tentativas de dissimulação dos supostos desvios teriam continuado até julho de 2026. É uma acusação investigativa de grande gravidade, mas a operação está justamente destinada a produzir e consolidar provas; busca e apreensão não representa condenação dos investigados.

O elo com Mario Frias

A relação entre Karina e Mario Frias é anterior à atual operação. Frias destinou R$ 1 milhão em emenda parlamentar ao Instituto Conhecer Brasil para um projeto de empreendedorismo no interior de São Paulo. Segundo o UOL, o projeto ainda não havia sido executado quando sua situação foi revelada em junho. A investigação procura determinar o destino dos recursos e se houve correspondência entre aquilo que foi contratado e os serviços efetivamente realizados.

Reportagens anteriores também documentaram uma relação política entre os dois. Karina participou da campanha de Frias, enquanto o deputado ajudou a aproximá-la da família Bolsonaro. A Folha relatou ainda que pessoas ouvidas pelo jornal disseram ter visto Frias e Eduardo Bolsonaro no endereço em que Karina trabalhava. Frias nega irregularidades envolvendo dinheiro público. A existência dessas relações é relevante para estabelecer a rede de contatos, mas não demonstra, isoladamente, participação em crime.

A trajetória empresarial de Karina também passou a receber maior escrutínio. Segundo registros reunidos pela imprensa, o Instituto Conhecer Brasil ampliou significativamente sua atuação com o poder público nos últimos anos. A organização chegou a celebrar um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, relacionado ao programa de fornecimento de internet gratuita em comunidades. Foi justamente esse contrato que originou uma das investigações anteriores sobre a empresária.

A Polícia Civil paulista passou a investigar suspeitas de pagamentos sem correspondente prestação de serviços, subcontratações e eventual circulação de dinheiro entre o ICB e empresas privadas. Em junho, foram realizadas buscas em endereços ligados a Karina, à Go Up Entertainment, ao próprio instituto e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. A investigação nasceu a partir de requerimento do Ministério Público e examina possíveis fraudes contratuais e emprego irregular de recursos públicos.

Posteriormente, Flávio Dino autorizou o compartilhamento desse material com a Polícia Federal. Em 26 de agosto, a Polícia Civil enviou à PF documentos, depoimentos, dados extraídos de celulares e outros elementos obtidos na investigação paulista. Isso significa que a operação desta quinta-feira não começa do zero: os investigadores federais passaram a trabalhar também com um conjunto de informações produzido durante meses pela polícia estadual.

Há, contudo, um elemento que recomenda cautela. Em 31 de agosto, a Vara Estadual das Garantias devolveu, sem decidir, um pedido policial de acesso a dados financeiros da empresária e exigiu que os investigadores especificassem melhor os indícios que fundamentariam a medida. Isso não encerrou a investigação, mas demonstra que algumas hipóteses ainda precisavam ser sustentadas de maneira mais detalhada perante o Judiciário.

Uma delação poderia abrir a contabilidade do projeto

É justamente a posição de Karina dentro dessas diferentes estruturas que explica o interesse em saber o que ela poderia revelar caso decidisse colaborar. Como dirigente do ICB e responsável pela Go Up Entertainment, ela potencialmente possui conhecimento sobre contratos, fornecedores, investidores, pagamentos, custos de produção e relações estabelecidas para viabilizar Dark Horse.

Mas potencial informativo não é sinônimo de culpa.

Uma colaboração premiada pressupõe que o colaborador possua informações úteis sobre crimes e outros participantes e que essas informações sejam posteriormente verificadas. Mesmo quando homologada pelo Supremo, uma delação não transforma automaticamente o relato do colaborador em prova suficiente para condenação.

Esse ponto ganhou especial importância porque outra delação relacionada ao universo financeiro de Dark Horse foi homologada ontem.

O ministro André Mendonça homologou a colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, empresário que mantinha relações financeiras com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo informações obtidas pela Folha, Mineiro afirmou às autoridades que atuava como operador financeiro de Vorcaro e descreveu operações que classificou como “não ortodoxas”, incluindo obtenção de dinheiro em espécie e transferências sem lastro.

Entre as operações atribuídas a empresas ligadas a Mineiro aparecem recursos enviados ao Havengate Development Fund, nos Estados Unidos, estrutura utilizada no financiamento de Dark Horse. Segundo a investigação, uma empresa do empresário, a Entre Investimentos e Participações, teria funcionado como braço operacional para determinadas transferências realizadas a pedido de Vorcaro. A destinação final de todos esses recursos continua sob investigação.

A homologação realizada por Mendonça significa que as informações de Mineiro poderão ser utilizadas formalmente no inquérito. Não significa que todas elas estejam comprovadas. A própria investigação precisará confrontar suas declarações com movimentações bancárias, contratos, mensagens e demais registros.

É nesse cenário que uma eventual colaboração de Karina poderia adquirir enorme importância investigativa: Mineiro está situado em uma ponta do circuito financeiro ligado a Vorcaro; Karina está situada dentro das estruturas diretamente relacionadas à produção do filme e às entidades que receberam recursos públicos investigados.

Por enquanto, porém, essa conexão permanece como possibilidade investigativa, não como uma cadeia criminosa demonstrada.

O quebra-cabeça de “Dark Horse”

O caso tornou-se particularmente complexo porque diferentes fluxos financeiros acabaram convergindo sobre o mesmo projeto.

Existe a frente sob responsabilidade de Flávio Dino, envolvendo emendas parlamentares, contratos públicos, organizações da sociedade civil e suspeitas de desvio. É nela que se insere a Operação Make Up.

Existe, separadamente, a investigação relatada por André Mendonça sobre dinheiro ligado a Daniel Vorcaro e ao financiamento de Dark Horse. É nessa segunda frente que aparece a colaboração de Mineiro.

E existe ainda a investigação originalmente conduzida pela Polícia Civil de São Paulo sobre o contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura paulistana e o Instituto Conhecer Brasil, cujos elementos passaram a ser compartilhados com a Polícia Federal.

A investigação federal agora possui condições de confrontar esses conjuntos de informações.

Isso não autoriza afirmar que todos os recursos pertencem a uma única operação financeira, que dinheiro público efetivamente financiou o filme ou que todos os personagens mencionados participavam de um mesmo esquema. São precisamente essas conexões que precisam ser demonstradas — ou descartadas.

A Operação Make Up pode ser decisiva porque buscas permitem acessar documentos e equipamentos capazes de reconstruir relações que registros bancários isolados nem sempre explicam. Contratos mostram a justificativa formal dos pagamentos; mensagens podem revelar quem os negociou; extratos demonstram o percurso financeiro; notas fiscais ajudam a identificar serviços declarados; metadados podem estabelecer cronologia.

Se diferentes fontes convergirem, será possível saber se havia apenas relações empresariais paralelas ou uma estrutura financeira comum.

É por isso que a situação de Karina Gama ganha importância muito além de sua condição de produtora de Dark Horse. Ela está situada no ponto de encontro entre uma organização beneficiária de recursos públicos, empresas privadas, relações políticas e a estrutura empresarial responsável pelo filme.

A resposta da empresária, contudo, é categórica: “Não tenho nada para delatar.”

Essa frase estabelece o limite factual disponível nesta manhã. Não há, nas fontes consultadas, confirmação de uma colaboração premiada de Karina Gama. Há uma investigação de grande escala, buscas autorizadas judicialmente, suspeitas financeiras que a PF procura comprovar e outra delação — a de Mineiro — já homologada no inquérito relacionado aos recursos de Vorcaro.

O que acontecerá a partir do material apreendido nesta quinta-feira pode alterar profundamente esse quadro. A questão central agora não é simplesmente saber se Karina aceitará ou não colaborar. É descobrir se documentos, celulares, contratos e registros financeiros conseguirão reconstruir por conta própria o caminho do dinheiro.

Se conseguirem, a investigação poderá finalmente responder à pergunta que acompanha Dark Horse desde que seus financiadores passaram ao centro das apurações: quem efetivamente colocou dinheiro no projeto, de onde vieram esses recursos, por quais estruturas eles circularam e qual foi seu destino final.

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