Bets, juros altos e a fragilidade financeira das famílias: o problema é maior do que o jogo
por Maurício Martinelli Luperi
Uma nova pesquisa sobre apostas online no Brasil traz um resultado que deveria ampliar bastante o debate sobre as chamadas bets. O problema não está apenas no jogo.
O estudo Online Betting and Financial Distress: Evidence from Brazil, conduzido por Sérgio Firpo, do Insper, e pesquisadores da Stone, acompanhou a trajetória financeira de milhões de pessoas e comparou indivíduos que começaram a apostar com pessoas semelhantes que ainda não haviam começado.
Os resultados são preocupantes.
Nos 12 meses posteriores à primeira aposta, a proporção de pessoas inadimplentes aumentou, em média, 20% mais entre os apostadores. A parcela da fatura do cartão de crédito em atraso cresceu 38,7%. E o limite de crédito disponível caiu aproximadamente 16%.
Há ainda um dado particularmente revelador: um em cada dez apostadores transfere às plataformas de apostas mais de 20% de tudo aquilo que sai de sua conta bancária no mês. Nos primeiros seis meses, 82,5% não recebem qualquer transferência das bets e 90,8% transferem às plataformas mais dinheiro do que recebem delas.
A sequência parece intuitiva:
aposta → redução da renda disponível → dificuldade para pagar compromissos → inadimplência → redução do acesso ao crédito.
Mas a pesquisa encontrou algo ainda mais interessante.
A causalidade parece poder operar também na direção inversa.
Pessoas que já apresentam dificuldades financeiras têm maior probabilidade de começar a apostar.
Isso muda bastante a natureza do problema.
Quando a dificuldade financeira vem antes da aposta
Imagine uma família com renda mensal relativamente estável, mas já comprometida com aluguel, alimentação, transporte, cartão de crédito e prestações.
Se o custo do crédito aumenta, uma parcela crescente da renda passa a ser destinada ao pagamento de juros.
A família não necessariamente deixa de consumir imediatamente. Primeiro utiliza o limite do cartão. Depois parcela a fatura. Pode recorrer ao cheque especial ou ao crédito pessoal. Refinancia uma dívida com outra.
Forma-se progressivamente aquilo que podemos chamar de fragilidade financeira das famílias.
A renda continua entrando, mas uma parcela crescente dela já está comprometida antes mesmo de o mês começar.
É nesse ambiente que precisamos investigar a expansão das apostas.
Para uma família financeiramente confortável, apostar R$ 50 pode representar simplesmente entretenimento.
Para uma família endividada, entretanto, a aposta pode adquirir outro significado: a expectativa de resolver uma dificuldade financeira.
É justamente aí que aparece nossa hipótese.
Não sabemos ainda se juros elevados aumentam diretamente a probabilidade de uma pessoa começar a apostar. Essa é uma relação que precisa ser empiricamente testada.
Mas podemos formular um mecanismo econômico plausível:
juros elevados → maior custo do crédito → maior comprometimento da renda → fragilidade financeira → busca de alternativas extraordinárias de renda → maior propensão potencial à aposta.
Se a aposta produz perdas — como ocorre para a grande maioria dos apostadores observados no estudo — começa uma segunda sequência:
aposta → perda de renda disponível → atraso de pagamentos → inadimplência → redução do crédito disponível → maior fragilidade financeira.
Juntando as duas sequências, surge um mecanismo potencialmente circular:
juros elevados → fragilidade financeira → aposta → perdas → inadimplência → restrição de crédito → maior fragilidade financeira.
Essa hipótese precisa ser testada.
Mas ela muda a pergunta que deveríamos fazer.
Talvez não seja suficiente perguntar se as bets provocam inadimplência.
Precisamos perguntar também se a fragilidade financeira aumenta a procura pelas bets e quais características da arquitetura de crédito brasileira tornam determinadas famílias especialmente vulneráveis a esse processo.
A aposta como tentativa de renda
Esse aspecto é particularmente importante porque parte dos brasileiros não parece enxergar as apostas exclusivamente como entretenimento.
Quando alguém financeiramente pressionado começa a acreditar que apostar pode complementar a renda, ocorre uma transformação qualitativa.
O jogo deixa de concorrer apenas com outras formas de lazer.
Passa a concorrer com instrumentos de sobrevivência financeira.
É uma diferença enorme.
Uma pessoa pode estar apostando não porque desconheça que existe risco, mas porque sua situação financeira faz com que uma pequena probabilidade de grande ganho pareça subjetivamente atraente diante da certeza das contas que vencerão amanhã.
Isso não torna a aposta racional.
Mas ajuda a compreender por que simplesmente dizer às pessoas que “apostar faz mal ao bolso” pode ser insuficiente.
Educação financeira é necessária — mas não suficiente
A educação financeira tem papel importante.
É necessário ensinar juros compostos, planejamento financeiro, riscos do crédito rotativo, probabilidades e o fato elementar de que as plataformas de apostas foram construídas de maneira que, no agregado, a vantagem matemática pertence à casa.
Também precisamos de políticas de prevenção ao jogo problemático.
O governo já criou instrumentos como a autoexclusão centralizada das plataformas autorizadas, e existem iniciativas de prevenção e tratamento dos problemas relacionados às apostas.
Tudo isso é necessário.
Mas existe um risco em transformar educação financeira na explicação principal para a inadimplência.
Porque isso desloca para o indivíduo um problema que também possui determinantes estruturais.
Uma pessoa pode conhecer perfeitamente os princípios da educação financeira e ainda assim pagar juros extremamente elevados.
Pode saber que não deveria utilizar o crédito rotativo e, mesmo assim, recorrer a ele porque surgiu uma despesa inesperada.
Pode conhecer os riscos das apostas e ainda assim acreditar que aquela é sua única possibilidade imediata de conseguir o dinheiro que lhe falta.
Educação financeira melhora decisões.
Ela não altera, sozinha, as condições financeiras dentro das quais essas decisões são tomadas.
Regular as bets também é indispensável
O mesmo raciocínio vale para a regulamentação.
A expansão das apostas online criou uma indústria capaz de alcançar milhões de brasileiros pelo telefone celular, 24 horas por dia.
A regulação precisa estabelecer limites para publicidade, bônus, mecanismos de indução à repetição das apostas, proteção de menores e pessoas vulneráveis, identificação de comportamento problemático, autoexclusão e fiscalização das plataformas ilegais.
Os próprios pesquisadores defendem restrições adicionais.
O Ministério da Fazenda, por sua vez, já está revendo procedimentos de autorização, fiscalização e proteção ao apostador em sua Agenda Regulatória 2026–2027.
É necessário avançar.
Mas mesmo uma regulação perfeita das bets não eliminaria a fragilidade financeira das famílias.
Poderia reduzir um importante mecanismo de agravamento dessa fragilidade.
Não necessariamente sua origem.
O que os bancos parecem já ter percebido
Talvez um dos resultados mais interessantes da pesquisa seja justamente aquele menos discutido.
Depois que uma pessoa começa a apostar, seu limite de crédito cai aproximadamente 16%.
Isso sugere que as instituições financeiras conseguem detectar, direta ou indiretamente, a deterioração do perfil de risco daquele cliente.
Observe a assimetria.
A família perde dinheiro apostando.
Sua capacidade de pagamento piora.
O sistema financeiro percebe o aumento do risco.
E responde reduzindo o crédito.
Do ponto de vista prudencial do banco, essa reação é compreensível.
Do ponto de vista da família, entretanto, ela pode intensificar a restrição financeira.
Temos então outro mecanismo:
perda nas apostas → deterioração financeira → aumento do risco percebido → redução da oferta de crédito → maior restrição financeira.
Isso transforma um problema inicialmente individual em um possível mecanismo de transmissão macroeconômica.
De milhões de problemas individuais para um problema macroeconômico
Se estivéssemos falando de alguns milhares de apostadores, poderíamos tratar o fenômeno essencialmente como problema comportamental.
Mas estamos falando de milhões de pessoas.
Quando milhões de famílias deslocam renda para apostas, atrasam pagamentos e passam a enfrentar restrição adicional de crédito, os efeitos podem ultrapassar o orçamento doméstico.
Menos renda disponível significa potencialmente menos consumo.
Menor acesso ao crédito significa menor capacidade de financiar bens duráveis.
Maior inadimplência aumenta o risco das carteiras bancárias.
E maior percepção de risco pode produzir critérios mais restritivos para novas concessões.
Podemos então ter:
bets → inadimplência → restrição de crédito → menor consumo → menor demanda agregada.
Os próprios autores do estudo reconhecem que ainda não estimaram esse efeito macroeconômico. Portanto, não devemos apresentá-lo como resultado comprovado.
Mas é uma hipótese importante demais para ser ignorada.
E onde entram os juros?
Aqui chegamos à questão mais incômoda.
O Brasil discute frequentemente a inadimplência como se ela fosse apenas consequência de decisões ruins dos consumidores.
Gastar demais.
Usar excessivamente o cartão.
Não fazer planejamento financeiro.
Agora, apostar.
Todos esses comportamentos podem efetivamente contribuir para o problema.
Mas existe uma variável que não pode desaparecer da análise: o preço do dinheiro.
Quanto maior o custo do crédito, maior tende a ser o serviço financeiro associado a determinado estoque de dívida.
Quanto maior o serviço da dívida, menor a renda disponível depois do pagamento dos compromissos financeiros.
Quanto menor essa renda residual, maior a vulnerabilidade da família diante de desemprego, doença, redução da renda ou despesas extraordinárias.
E, potencialmente, maior pode ser a atração exercida por promessas de enriquecimento rápido.
Não estamos afirmando que juros altos transformam automaticamente pessoas em apostadores.
Estamos propondo algo diferente e empiricamente verificável:
a fragilidade financeira provocada ou amplificada pelo custo elevado do crédito pode aumentar a vulnerabilidade das famílias às apostas, e as apostas podem posteriormente aprofundar essa mesma fragilidade.
Essa é uma hipótese de causalidade circular e cumulativa.
O problema não termina nas bets
Essa perspectiva ajuda a evitar dois reducionismos.
O primeiro seria afirmar:
“as famílias estão inadimplentes porque apostam.”
O segundo:
“basta ensinar educação financeira.”
As duas afirmações capturam apenas pedaços do fenômeno.
Precisamos simultaneamente de regulação rigorosa das apostas, educação financeira, proteção aos jogadores vulneráveis, combate às plataformas ilegais e mecanismos de tratamento para pessoas que desenvolvem comportamento compulsivo.
Mas precisamos também discutir a arquitetura monetária e financeira na qual as famílias brasileiras estão inseridas.
Isso significa discutir custo do crédito.
Significa discutir spreads.
Significa discutir concorrência bancária.
Significa discutir modalidades de crédito predatórias.
Significa discutir transmissão da Selic para as diferentes modalidades destinadas às famílias.
Significa discutir renegociação de dívidas.
E significa discutir os custos sociais de manter condições monetárias extremamente restritivas durante períodos prolongados.
Da regulação das bets à reforma monetário-financeira
O debate sobre apostas oferece, portanto, uma oportunidade inesperada para discutir algo muito maior.
Uma economia financeiramente saudável não é aquela em que simplesmente ensinamos cada indivíduo a administrar melhor sua escassez.
É aquela em que as instituições financeiras, monetárias e regulatórias reduzem a probabilidade de que choques temporários se transformem em processos permanentes de endividamento.
Regular as bets é necessário.
Educar financeiramente também.
Mas nenhuma das duas políticas substitui uma discussão sobre como o sistema monetário-financeiro brasileiro produz, distribui e precifica o crédito.
Talvez seja justamente essa a pergunta que o crescimento das apostas esteja colocando diante de nós.
Se milhões de brasileiros começam a enxergar uma aposta como possibilidade de complementar renda ou resolver dificuldades financeiras, podemos estar diante de algo maior do que um problema de educação financeira.
Podemos estar observando um sintoma de fragilidade econômica.
E, nesse caso, combater apenas o sintoma não será suficiente.
Precisamos olhar também para a estrutura que o produz.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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