Mendonça incendeia o STF para Flávio colher votos
O ministro terrivelmente bolsonarista expõe Moraes, mantém sob seu controle investigações que atingem o clã Bolsonaro e transforma o escândalo do Master em arma contra Lula
por Gustavo Tapioca
A quem interessa a maior crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal em muitos anos? A pergunta deixou de ser apenas jurídica quando o caso Banco Master atravessou a Praça dos Três Poderes e entrou na campanha presidencial.
Falta um mês para o primeiro turno. Lula e Flávio disputam uma eleição cada vez mais apertada. O Datafolha divulgado nesta quinta-feira,3, mostra Lula com 38% e Flávio com 33% no primeiro turno. Numa eventual segunda rodada, 46% a 44%. A vantagem do presidente diminuiu.
É nesse cenário que explode a crise. E Flávio Bolsonaro não perdeu tempo.
Sua campanha pretende transformar o 7 de setembro em ponto de inflexão da disputa. A palavra de ordem contra Alexandre de Moraes junta-se ao ataque contra Lula. A estratégia é associar o desgaste do ministro do STF ao presidente da República e mobilizar a base bolsonarista. A operação política é simples: colar Moraes em Lula.
Quanto mais Alexandre de Moraes aparecer como adversário do bolsonarismo, mais Flávio poderá tentar transformar a eleição presidencial numa revanche contra o ministro que comandou processos que atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados. E quanto mais a eleição falar de Moraes, menos falará de Flávio.
O adversário que Flávio escolheu
Para Lula, interessa discutir quatro anos de governo, emprego, renda, inflação, programas sociais, política externa, soberania nacional, Donald Trump e, sobretudo, o que significaria a volta de um Bolsonaro ao Palácio do Planalto.
Para Flávio, a crise oferece a oportunidade de mudar o assunto. O candidato pode voltar a uma narrativa conhecida de seu eleitorado: Jair Bolsonaro não seria o chefe de uma organização criminoso que tentou por várias vezes o golpe contra a Democracia. E, por isso, está preso condenado a 27 anos pela Justiça brasileira.
Moraes deixaria de ser o ministro que relatou processos contra o bolsonarismo para se transformar no símbolo de um sistema que, segundo essa narrativa, perseguiu Bolsonaro. A anistia poderia deixar de ser apresentada simplesmente como a libertação de Jair Bolsonaro e dos militares condenados e passar a ser vendida como reparação de uma injustiça.
Não é coincidência que o governo faça o movimento inverso. Lula conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, e sua campanha procura estabelecer distância em relação a Moraes. A linha adotada é a de que ninguém está acima da lei. A equação eleitoral aparece com nitidez: Flávio tenta colar Moraes em Lula. Lula tenta impedir que Moraes seja colado nele.
Um soldado e um cabo
A ofensiva dos Bolsonaro contra o Supremo não começou agora. Em 2018, Eduardo Bolsonaro pronunciou uma frase que atravessou os oito anos seguintes. Perguntado sobre a possibilidade de o STF impedir a posse de Jair Bolsonaro, respondeu: “Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo.”
A frase parecia uma bravata. Três anos depois, em 7 de setembro de 2021, Jair Bolsonaro elevou o confronto a outro patamar. Presidente da República, diante de uma multidão na Avenida Paulista, anunciou que não mais cumpriria decisões de Alexandre de Moraes. Ministro do STF e, então, presidente do Superior Tribunal Eleitoral, TSE.
O confronto com o Supremo já não vinha apenas do filho de um candidato. Partia do chefe do Poder Executivo. Depois vieram os ataques às urnas eletrônicas, a contestação antecipada da eleição de 2022 e os acontecimentos que desembocariam nas investigações e processos sobre as tentativas de golpe para impedir a posse do governo eleito e matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.
Agora, em 2026, o método mudou. O alvo permaneceu. Eduardo queria fechar o Supremo com um cabo e um soldado. Jair ameaçou desobedecer ao ministro do STF e do TSE. Flávio quer retirar Moraes do caminho.
A diferença é que Flávio Bolsonaro não fala em mandar um soldado e um cabo ao STF. Ao contrário, apresenta-se como defensor da instituição enquanto concentra o ataque em Alexandre de Moraes. É uma formulação politicamente mais sofisticada. Não é mais necessário dizer: “Fechem o STF.” Pode-se dizer: “Salvem o STF de Alexandre de Moraes.”
A crise veio de dentro
Há, entretanto, uma diferença fundamental entre os ataques anteriores e a situação atual. Desta vez, a crise não foi criada simplesmente por manifestações bolsonaristas contra o Supremo. Ela nasceu e cresceu dentro do próprio sistema de Justiça.
O caso Banco Master atingiu ministros do STF, expôs relações que precisam e exigem ser esclarecidas e colocou integrantes da Corte em confronto aberto.
André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro ao STF depois de ter sido seu ministro da Justiça e advogado-geral da União, tornou públicos elementos da investigação que atingem Alexandre de Moraes. Moraes reagiu contra Mendonça.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, questionou juridicamente a maneira como a investigação foi conduzida. E Fachin determinou agora que Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos.
A crise, portanto, é real. Reduzi-la a uma invenção bolsonarista seria um erro. Também seria um erro confundir a necessidade de investigar rigorosamente tudo o que aconteceu no caso Master com a exploração eleitoral dessa investigação.
São coisas diferentes. O STF precisa responder pelos atos de seus integrantes. E o eleitor precisa saber quem pretende utilizar essa crise para chegar ao Palácio do Planalto.
O círculo se fecha
Aqui cabe o que escrevemos no artigo “Derrotar, eleger, libertar, anistiar”, publicado no dia 2. Mostrávamos que a atuação de André Mendonça não poderia ser analisada apenas como uma disputa jurídica dentro do Supremo. Suas consequências chegariam inevitavelmente à eleição presidencial.
As manobras de Flávio Bolsonaro e André Mendonça não se limitam à tentativa de ganhar a eleição de outubro. Elas convergem para um projeto muito mais amplo: derrotar Lula, eleger Flávio, libertar Jair Bolsonaro e anistiar os militares e demais condenados pela tentativa de golpe. É esse objetivo que reúne o clã e transforma a crise do Supremo numa peça central da disputa pelo poder.
Mendonça passou pelo Executivo de Jair Bolsonaro e chegou ao Judiciário por escolha dele. Agora controla investigações capazes de atingir Lula, destruir Alexandre de Moraes e interferir na eleição que poderá devolver o Palácio do Planalto aos Bolsonaro.
Flávio tenta colher nas urnas o resultado do incêndio provocado dentro do STF. Se vencer, não chegará à Presidência comprometido apenas com um programa de governo, mas com a libertação do pai, a anistia dos golpistas e a vingança contra quem os condenou.
O círculo realmente se fechou: derrotar, eleger, libertar, anistiar.
Terra arrasada
Na reportagem de capa “Terra arrasada”, publicada pela CartaCapital, André Barrocal sustenta que a ofensiva contra Moraes é o ponto culminante de uma atuação seletiva de Mendonça nas investigações sobre o Banco Master. Enquanto expôs os elementos que atingem Alexandre de Moraes, o ministro manteve sob seu controle frentes que podem alcançar Flávio Bolsonaro, o filme Dark Horse e o caminho percorrido nos Estados Unidos pelos milhões de dólares enviados por Daniel Vorcaro para, segundo vários veículos de comunicação, o advogado de Eduardo Bolsonaro.
A diferença de tratamento exige explicação.
No fim de agosto, Mendonça recebeu Vorcaro e tomou seu depoimento a pedido da defesa. O banqueiro manifestou disposição para delatar integrantes do “núcleo do atual governo”. Depois de expor as relações de Moraes com Vorcaro, o gabinete do ministro também tornou pública a oferta capaz de atingir o governo Lula — exatamente a um mês da eleição.
Barrocal revela ainda que a produtora responsável pelo filme e o deputado Mário Frias pediram que investigações relacionadas ao caso fossem submetidas justamente a André Mendonça. Ambos parecem confiar no ministro “terrivelmente evangélico” escolhido por Jair Bolsonaro.
Mendonça também precisa explicar suas próprias relações com Vorcaro. Em março de 2025, recebeu o banqueiro durante duas horas no Iter, instituto fundado pelo ministro. Posteriormente, o Iter firmou contratos com órgãos públicos vinculados a governos e personagens que aparecem no universo do Master.
Nada disso apaga ou reduz a obrigação de Moraes esclarecer suas relações com Vorcaro. O comportamento do ministro é grave e precisa ser investigado até o fim. Mas investigar Moraes não autoriza Mendonça a escolher quais personagens serão expostos, quais investigações avançarão e quais permanecerão sob silêncio.
A suspeita política levantada por CartaCapital é devastadora: André Mendonça estaria tentando retirar o escândalo do colo do bolsonarismo e depositá-lo no colo de Lula, exatamente quando Flávio Bolsonaro precisa mudar o assunto da eleição.
Mendonça acendeu o incêndio dentro do Supremo. Flávio correu para levar as chamas ao palanque.
Quem indicou Moraes ao STF
Alexandre de Moraes não foi indicado ao Supremo por Lula. Foi indicado por Michel Temer em 2017. Antes disso, havia sido ministro da Justiça do governo Temer e secretário de Segurança Pública de São Paulo no governo Geraldo Alckmin.
Associá-lo politicamente a Lula exige apagar sua própria trajetória. Mas eleições não são disputadas apenas com biografias. São disputadas também com símbolos. E o bolsonarismo transformou Moraes, ao longo dos últimos anos, no símbolo de tudo aquilo que pretende atribuir ao sistema que teria perseguido Jair Bolsonaro.
Por isso é eleitoralmente útil chamá-lo de “ministro de Lula”. Não importa que historicamente não seja. Importa produzir a associação. Lula. Moraes. STF. Sistema. De um lado. Bolsonaro. Perseguição. Anistia. Mudança. Do outro. É a polarização que Flávio tenta reconstruir.
O perigo para Flávio
Mas há um limite. A guerra contra Moraes pode incendiar o eleitorado bolsonarista. Isso não significa necessariamente conquistar quem decidirá a eleição. A DW ouviu analistas que consideram que o impacto eleitoral da crise pode ser limitado. Para grande parte do eleitorado, as disputas internas do Supremo permanecem distantes das preocupações cotidianas.
Existe ainda um risco maior. Se Flávio exagerar na ofensiva, poderá ressuscitar justamente o passado do qual procura se afastar.
O eleitor poderá voltar a ouvir: “Para fechar o STF basta um soldado e um cabo”, de Eduardo Bolsonaro. Poderá recordar os ataques de Jair Bolsonaro ao Supremo. Poderá recordar o 8 de janeiro. Poderá perguntar se a retirada de Alexandre de Moraes é apenas o primeiro passo de uma nova ofensiva contra a instituição.
É a fronteira delicada da estratégia de Flávio. Ele precisa atacar Moraes sem parecer atacar a democracia. Precisa defender Jair Bolsonaro sem transformar a eleição de 2026 numa repetição de 2022. Precisa explorar o Master sem deixar que Vorcaro alcance André Mendonça e, sobretudo, o alcance.
A quem interessa?
Voltamos à pergunta inicial. Hoje, a crise interessa mais a Flávio Bolsonaro. Não porque existam provas de que tenha sido produzida para beneficiá-lo. Ainda não foram divulgadas. Interessa porque oferece ao candidato a oportunidade de mudar o eixo da eleição.
Lula quer uma eleição sobre seu governo e sobre o que será o Brasil nos próximos quatro anos. Flávio quer uma eleição seja um julgamento de Alexandre de Moraes. Lula quer enfrentar Flávio. Flávio quer enfrentar Lula e Moraes.
Mendonça incendeia o STF para Flávio colher os votos. Mas nenhum dos dois pode escolher o que ainda sairá da caixa-preta de Daniel Vorcaro.
Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultou do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “