A administração de Donald Trump pretende derrubar uma norma que há 25 anos restringe a construção de estradas e a exploração madeireira em áreas remotas de florestas nacionais dos Estados Unidos. A proposta foi anunciada pelo Departamento de Agricultura e pode afetar aproximadamente 45 milhões de acres de terras públicas, sobretudo no oeste do país e no Alasca.
A justificativa apresentada pelo governo é que a chamada regra das áreas sem estradas impede o Serviço Florestal de construir acessos e realizar intervenções consideradas necessárias para o manejo da vegetação. Para a secretária da Agricultura, Brooke Rollins, a restrição teria contribuído para o acúmulo de árvores e a disseminação de doenças, aumentando o risco de incêndios de grandes proporções. O governo afirma que a mudança também fortaleceria a autonomia dos estados e das comunidades locais.
O governador de Montana, Greg Gianforte, apoiou a iniciativa. Segundo ele, a revogação permitiria ao estado participar de forma mais direta do manejo de áreas federais. Montana concentra quase 6 milhões de acres protegidos pela norma. No ecossistema da Grande Yellowstone, a área abrangida chega a cerca de 10 milhões de acres.
Pesquisadores de ciência florestal, porém, dizem que os argumentos da administração não são sustentados pelos dados disponíveis. Em uma carta divulgada no ano passado, mais de 30 especialistas afirmaram que as áreas de natureza preservada e sem estradas registraram as menores taxas de ignição de incêndios entre as terras administradas pelo Serviço Florestal nas últimas três décadas. Os maiores índices, segundo a análise, foram observados nas proximidades de estradas.
O dado é especialmente relevante porque, de acordo com o Centro Nacional Interagências de Incêndios, cerca de 85% dos incêndios florestais nos Estados Unidos têm origem humana. Para os críticos da proposta, a expansão da malha viária pode aumentar o acesso às áreas remotas e, consequentemente, a probabilidade de novas ignições.
As organizações ambientais também temem efeitos sobre a fauna. A Greater Yellowstone Coalition destaca que as áreas sem estradas servem de refúgio para alces, cervos-mula, trutas e ursos-pardos. Scott Christensen, diretor-executivo da entidade, afirmou que a abertura de vias na região comprometeria o habitat protegido que ajudou a recuperação dos ursos, ameaçados de desaparecer no passado.
Estudos citados por grupos de conservação indicam que os ursos evitam estradas e sofrem com o aumento da densidade de vias. A construção de novos acessos, além de fragmentar o habitat, pode interromper rotas de deslocamento de espécies como alces e antílopes-americanos. As entidades afirmam ainda que 57% das espécies classificadas como de interesse para a conservação dependem de pelo menos uma área sem estradas.
A proposta também enfrenta resistência expressiva na opinião pública. Durante a consulta realizada no ano passado, 99% das mais de 625 mil contribuições recebidas rejeitaram a retirada da proteção. Pesquisas citadas no texto original apontam que 76% dos eleitores prováveis apoiam a manutenção da regra em âmbito nacional. Em Montana, uma sondagem da Universidade de Montana identificou apoio amplo e transversal entre eleitores de diferentes correntes partidárias.
A organização Earthjustice já indicou que poderá recorrer à Justiça caso o governo confirme a revogação. Para a advogada Jenny Harbine, a medida ameaça a qualidade da água, a vida selvagem e o uso recreativo das terras públicas.
Texto baseado em um artigo de Ellis Juhlin publicado na People’s Word, sucessor do histórico Daily Worker, órgão oficial do Partido Comunista dos Estados Unidos