O que aconteceu com os milhões destinados ao Dark Horse e por que, 110 dias depois, a investigação ainda não produziu um desdobramento público capaz de esclarecer o destino dos recursos? Essa é a principal questão levantada pelo jornalista Paulo Motoryn em entrevista ao jornalista Luis Nassif, no programa TVGGN 20h desta quarta-feira [confira abaixo].
Segundo ele, até agora, a única ação conhecida da Polícia Federal no caso foi solicitar por e-mail as notas fiscais ao perito contratado para analisar as contas. “Nem fazer uma operação com o perito que tinha dito publicamente que tinha as notas fiscais, eles fizeram”, afirmou.
A apuração de Motoryn começou após ele receber de uma fonte materiais relacionados às relações entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e integrantes da família Bolsonaro. Antes da publicação, o jornalista passou horas verificando a autenticidade dos arquivos, cruzando informações com dados públicos e outros vazamentos, conferindo números de telefone e endereços mencionados nas conversas e procurando os envolvidos. O trabalho resultou na publicação de áudios de Flávio Bolsonaro dirigidos a Vorcaro.
Entre as informações levantadas está a dimensão do financiamento relacionado ao filme Dark Horse. Segundo Motoryn, o contrato previa US$ 23 milhões, dos quais US$ 13 milhões teriam sido pagos. A cifra, diz o jornalista, é especialmente significativa diante da ausência de informações públicas que comprovem como os recursos foram utilizados. “É uma cifra completamente estapafúrdia, ainda mais sob pretexto de se fazer um filme”, afirmou. Motoryn questiona se os valores foram integralmente destinados à produção ou se parte do dinheiro pode ter sido usada para outras atividades, como as ações políticas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
O jornalista também critica a forma como o caso foi perdendo espaço no noticiário enquanto ganhava força uma tentativa de estabelecer uma equivalência entre o Dark Horse e as suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Para Motoryn, a comparação não se sustenta: “Como se houvesse qualquer equiparação entre um caso em que não houve contrato, não houve dinheiro, não houve propina e um outro que não só houve dinheiro e houve contrato, como o contrato era de 23 milhões de dólares”.
A diferença, segundo ele, também aparece na condução dos casos no Supremo Tribunal Federal. André Mendonça é relator tanto do Dark Horse quanto do caso envolvendo Lulinha, mas, enquanto informações sobre este último têm sido divulgadas com frequência, o caso relacionado ao filme permanece sem novos desdobramentos públicos. Motoryn considera que essa assimetria contribui para uma narrativa distorcida e compara o mecanismo ao observado durante a Lava Jato. “É muito grave, não só o papel da imprensa, mas o papel do Judiciário”, afirmou.
Assista ao corte da entrevista abaixo: