
O banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, afirmou em depoimento ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que pretendia usar uma delação premiada para denunciar pessoas ligadas ao “núcleo do atual governo”. Ele não mencionou sua relação com outras autoridades políticas nem sua participação no financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
“Toda a minha colaboração, ela, no que tange a pessoas, são pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo. E aí, nesses momentos, teve uns casos que foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude, que esses eu pretendia relatar”, disse Vorcaro.
O depoimento ocorreu na última semana de agosto, após um pedido dos advogados do banqueiro. Um juiz auxiliar de Mendonça, relator do caso Master no STF, conduziu a oitiva. O gabinete do ministro afirmou que a defesa relatou “graves intimidações” e solicitou que Vorcaro fosse ouvido com urgência.
Na quarta-feira (02), a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento das denúncias e afirmou que Vorcaro não apresentou provas. “Constata-se que o declarante não noticiou fato concreto ou juridicamente delimitado capaz de impulsionar providências investigativas próprias, tampouco conferiu o mínimo elemento de verossimilhança às assertivas ali formuladas”, declarou a PGR. Preso em Brasília, o banqueiro responde à acusação da Polícia Federal de chefiar um esquema de fraudes financeiras que pode chegar a R$ 12 bilhões.

Delação anterior e operação envolvendo o BRB
Vorcaro atribuiu a própria prisão a uma tentativa de impedir que ele revelasse os fatos. “Desde que eu fui preso… Na verdade, a minha prisão, no meu entendimento, ela já foi uma intimidação para que eu não externasse os fatos que eu desejava falar desde o começo dessa operação”, afirmou. Ele também disse ter desistido de avançar com a colaboração por se sentir ameaçado por “pessoas do poder”.
A defesa apresentou uma proposta de delação ao Ministério Público em 15 de junho. O órgão rejeitou o acordo porque o conteúdo não trazia elementos novos suficientes para justificar a colaboração premiada.
No mesmo depoimento, Vorcaro defendeu a venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB) e classificou o negócio como benéfico. “Eu espero muito ter a oportunidade de falar o que efetivamente aconteceu e o tanto que seria benéfico se houvesse sido feita a fusão e a integração dos dois bancos”, disse.
Uma fase da Operação Compliance Zero prendeu, em abril, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. A PF afirma que ele permitiu negócios sem lastro com o Master e desrespeitou práticas de governança.
O BRB estima que R$ 8,8 bilhões em créditos adquiridos sejam inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação. O governo do Distrito Federal calcula recuperar R$ 2,2 bilhões por outras medidas, mas precisaria contratar um empréstimo para cobrir os R$ 6,6 bilhões restantes.